• No results found

Var det noen som vant?

In document KUNSTEN Å KJEKLE (sider 53-56)

6. Introduksjon av tema og premissene for kveldens debatt 44

6.3 Var det noen som vant?

Na trajetória de vida de Negão, o conflito entre a liberdade individual e a necessidade de cuidado que um filho impõe está sempre presente. Na verdade, trata-se de um conflito não só dela, como das mulheres modernas, mesmo que seja vivenciado de formas diferentes.

Foi somente a partir do século XVIII que se estabeleceu a nobreza da maternagem, do valor do cuidado e da abdicação individual por parte da mãe (BADINTER, 1985). Atualmente, o caráter ambivalente e contraditório do vínculo entre mãe e filho reúne sentimentos de aprisionamento e impossibilidade de vivência de planos individuais.

Durante sua infância e parte de sua juventude, Negão viveu em contextos em que se combinavam inúmeras vulnerabilidades, e em que era comum a ausência de planos e projetos de futuro. Vivia de forma presentificada, pautada numa realidade dura e crítica.

A maternidade, para ela, parece desencadear a necessidade social e emocional de se sedentarizar, de estabelecer e de manter vínculos mais duradouros, o que, no entanto, não

ocorreu desde a primeira gravidez. Negão teve três filhos em momentos diferentes de vida, e mesmo dizendo que reconhece em si o desejo de ser mãe desde muito cedo talvez até por ter exercido esse papel com seus irmãos ela precisou passar por um processo de amadurecimento emocional para poder gradativamente se estabelecer de maneira mais estável.

Garcia et al (2010) discutem a questão do nomadismo e do sedentarismo em grupos de população LGBT de rua. Uma característica importante é que os modelos de organização das pessoas são diferentes nas duas formas. Para o nomadismo, o modelo de grupalização é o bando, enquanto que no sedentarismo é a família.

O nomadismo aparece como uma condição antitética em relação à sedentariedade, comprometida com as ideias de residência, segurança e domesticação. Numa alusão a essa concepção, pode-se entender, assim, a maternidade como um marco de sedentarização. A maior parte das jovens socialmente desfavorecidas possui trajetórias marcadas por incertezas, instabilidades, nomadismo. Como a maternidade vai contra essa lógica da transitoriedade, ela pode ser compreendida como um processo que pode contribui para a sedentarização, uma vez que impõe à jovem, pelo menos temporariamente, uma mudança de comportamento, bem como introduz a possibilidade de realização de planos e metas para o futuro (GONTIJO; MEDEIROS, 2008).

Negão, após a separação do pai de Johnny, viveu um período de sua trajetória de forma nômade. Ela foi morar na rua com seu filho por cerca de três a quatro anos. Negão relata que ficou todo esse período na rua por escolha dela. Como ela mesma já tinha a infância marcada pela institucionalização, não queria que seu filho crescesse em abrigos.

A rua, para Negão, não é somente associada a experiências ruins. Pela própria personalidade dela, que não se coloca no lugar de vítima, Negão traz uma visão positiva da rua, sentia-se vivendo somente por seu livre arbítrio, em busca de um prazer imediato, de diversão sem medo do futuro, de pura fruição:

Eu ficava na praia. A noite na praia é um fervo fia! [risos], é um fervo da hora!

Apesar disso, estar na situação de rua com uma criança é estar sob condições vulneráveis. Ela, apesar de relatar esse prazer, tinha alguns medos, especialmente relacionados à possibilidade de perder o seu filho. Como permaneceu um tempo relativamente longo na rua e na mesma região, ela era conhecida dos moradores, dos comerciantes, dos

policiais, e esses acabavam exercendo um papel de proteção, o que foi, para ela, uma das suas principais estratégias de sobrevivência.

Como é uma cidade que eu conhecia bem, passa fome quem quer né? Quem tem boca vai à Roma, e o povo já me conhecia, eu só não pegava mantimento porque eu não tinha onde fazer. O povo já me conhecia já, eles me davam comida, roupa, eles falavam: Tal hora você vem aqui toma banho e janta e depois você vai embora . Eu só tinha medo de dormir e alguém pegar o Johnny. Eu quase nem dormia, ficava acesa.

Assim, entrar na rua significa desenvolver um processo compensatório em relação às perdas e começar a usar outros recursos de sobrevivência, até então ignorados, e assimilar novas formas de organização que permitem a satisfação das necessidades e a superação dos obstáculos que a cidade apresenta (VARANDA; ADORNO, 2004). Em períodos de chuva e frio, Negão recorria a sua mãe ou ao coordenador de uma casa de abrigo, Giovani, que a acolhia temporariamente sem impor que tivesse que sair definitivamente da situação de rua. O fato de estar na rua com uma criança trouxe a necessidade de, pelo menos esporadicamente, ter um abrigo e segurança.

À situação de rua, combinam-se outras vulnerabilidades. Negão sempre usou drogas enquanto estava em situação de rua, com mais frequência maconha, mas também usou cola, cocaína e crack. Em uma situação, Negão estava usando crack e teve uma ideação paranóide de que seu filho Johnny estava pegando suas pedras de crack e quase o matou. Sufocou seu pescoço, até que um conhecido da polícia a viu e ameaçou tirar a guarda de seu filho, caso ela não aceitasse se cuidar.

Eu estava na rua eu fumei droga, achava que o Johnny estava roubando minhas pedras, eu quase matei ele, a sorte é que veio um guarda municipal que já me conhecia já e me ajudou.

Aí foi aonde que eu vim pra cá [Associação], estou até hoje... Com o Johnny e com o Claudio, essa foi a minha sorte porque, independente que eu era usuária eu cuidava bem dos meus filhos mais acho que por causa do vício, da droga que é mais forte, eles viram que eu cuidava bem do Johnny, não andava suja e que independente que eu morava na rua, eu andava limpinha, então eles admiravam isso daí, só que eles não aceitaram mais porque eu quase matei ele, por causa da droga. Aí eu vim parar aqui!.

Neste trecho, podemos observar que, a ocorrência de um fato crítico lhe impõe a mudança de modo de vida. Estava cada vez mais difícil conjugar a maternidade com um modelo de vida nômade, principalmente pelo risco de perder a guarda de seu filho, caso optasse em permanecer na rua. Além disso, como já estava grávida novamente, ficaria ainda

mais complicado ficar com duas crianças na rua. Por esses motivos, Negão acaba aceitando viver em abrigo, contanto que pudesse ficar com as crianças.

Neste momento, reforça-se a importância da existência de um vínculo com pelo menos uma pessoa de referência, no caso dela, Giovani. Ela escolhe abrigar-se mesmo com sua história de resistência a morar em abrigos - por causa dos filhos. Mais uma vez, vê-se a importância de pensar a respeito de programas que trabalhem na perspectiva da vulnerabilidade programática, especialmente no sentido de constituir vínculos com as jovens em situação de rua, para que essas tenham aonde recorrer quando precisarem, pois, havendo o vínculo, a jovem pode, aos poucos, perceber outras oportunidades, começar a construir planos e ter uma figura de referência nesse processo.

Quando Negão chega à Associação, teme ter que viver novamente sob condutas autoritárias e imposição de regras, como já havia acontecido quando ficou abrigada na infância. Ela conta:

Na minha cabeça, era só mais um que eu ia ficar trancada, nossa, me revoltei, queria ir embora, queria ligar para o

No entanto, após ter a certeza de que poderia ficar com seus filhos, passou por um período de adaptação, e aos poucos, foi estabelecendo novos vínculos, novas amizades e relacionamentos. Voltou a estudar aprendeu a ler a escrever - participou de projetos de geração de renda.

Seu processo de sedentariedade se desenvolve juntamente com sua maternidade, gradualmente e cheio de oscilações. Voltar definitivamente para rua, ela nunca desejou voltar, mas até hoje, esporadicamente tem suas recaídas, de uma ou duas noites.

Eu não fico sem trabalhar, mas quando me dá cinco minutos que eu quero tirar umas férias por conta própria, eu fico [sem trabalhar].

Existe uma resistência de Negão em se submeter a um mundo em que perceba que só tem que cumprir regras. Ela ainda deseja fazer suas próprias regras, bem como suas próprias concessões. Por isso, precisa da rede de apoio para conseguir fazer escolhas de maneira um pouco mais consciente ou menos impulsiva.

Eu vou voltar pra trás de novo? Se eu voltar a fazer tudo que eu fazia, eu vou voltar pra trás e isso eu não quero.

Depois de algum tempo abrigada na Associação, logo alugou uma casa nos arredores e continuou trabalhando nos projetos da ONG. Depois, juntamente com a presidente da ONG, elaborou um projeto de tijolos ecológicos, e depois, de construção de casas populares. Como constituiu uma nova rede social entorno do abrigo, Negão passa a querer ter sua própria casa na região.

Fez cursos técnicos de construção civil, hidráulica e elétrica. Trabalhou como mestre de obras no projeto e hoje tem sua casa, onde mora com seus filhos. Mas ela não pensa em morar junto definitivamente com a parceira, pois ter um teto para seus filhos é hoje um sonho que conseguiu realizar.

Uma frustração que refere é a demora para que a documentação da casa venha em nome de seus filhos,. Por isso envolver um processo burocrático com a Associação, poderá levar anos a ser resolvido.

In document KUNSTEN Å KJEKLE (sider 53-56)