Os catadores demonstraram que, da mesma forma que se viram como podem no seu processo de trabalho, tal mecanismo também funciona no enfrentamento do desgaste da saúde. Segundo relatos dos trabalhadores, a procura por um serviço de saúde só ocorre quando consideram grave a sua condição física e mental.
(...) Às vezes, de tanto minha mulher pedir eu vou, mas eu sou meio durão, eu não gosto de ir em médico não, entendeu? Mas quando eu tô vendo que tá difícil mesmo, aí eu vou... (Luiz).
Só quando eu tô assim, com febre, aí eu vou no médico, tomo injeção, te dá uma febre alta, aí eu sou obrigado a ficar em casa. Mas quando dá uma dorzinha de cabeça, uma dorzinha, aí eu não fico em casa não (José).
Só quando eu tô muito, muito mal mesmo, do contrário eu não procuro ajuda e não vou no hospital (Sandra).
Era para eu ir no médico, pra ver se foi lesão no tendão, mas aí eu não fui! E eles perguntaram: E aí, foi lá no médico? Você não foi seu sem vergonha? Tu tem que ir! . E eu: Não, isso aqui vai passar, vai passar! (Márcio).
Para Cavalcante e Franco (2007), os catadores tendem a minimizar, negar ou compensar os danos sofridos no desempenho de seu trabalho, naturalizando as ameaças existentes nesse contexto. Para esses autores, quando há uma preocupação com seu estado de saúde, os catadores desenvolvem estratégias de defesa autônomas, visto que não usufruem de direitos trabalhistas nem previdenciários. Neste sentido, os catadores entrevistados revelaram a automedicação como forma de solucionar seus problemas de saúde.
Eu sempre ando com dinheiro no bolso sabe? Porque se eu passar mal, o único mal que eu vou passar é uma dor de cabeça, uma dor no dente, isso aí é normal... Aí que eu faço? Eu vou na farmácia e compro um comprimido, e tomo e continuo trabalhando, até chegar em casa (José).
Ah, eu tomo um remédio pra resolver logo, pra melhorar. É muito difícil eu procurar médico, porque eu tento resolver meu problema eu mesmo. Pra mim, procurar médico só em último caso né... (Carlos).
Aí você toma um dorflex, você toma um outro, e a dor vai embora, aí você continua de novo... Ou é ou é, entendeu? Tem que ser assim (Sandra).
Eu procuro me medicar! Medicar assim, se é um corte eu procuro tomar um remédio, me cuidar. Não costumo ir no médico (Márcio).
A busca de outras formas de cuidado da saúde para além da medicina tradicional também foram referidas pelos catadores, dentre elas o uso de preparos caseiros, além da procura por ajuda espiritual.
Eu mesmo faço meu remédio. Eu faço um chá forte com limão, gengibre, tudo quanto é planta, tomo, e se não melhorar o cansaço, eu vou no posto e passo pelo médico (Edson).
Eu não vou muito em médico não, eu não gosto. Se eu fico muito gripada, eu sou muito de fazer chá pra tomar em casa, entendeu? E se eu tô com alguma dor, tipo assim, às vezes eu sinto muita dor no rim, então, nas antiga, como minha mãe não acostumava a levar no médico, então eu tenho um pouco dela. Se eu tô com dor no rim eu procuro um remédio de quebra-pedra, eu mesmo faço e eu tomo, aí eu saro, então eu não sou de procurar médico, prefiro em casa (Simone).
(...) Vou deixar o meu médico superior me curar. Aí eu vou indo, não fui atrás de nada... (Ana).
Ah, a proteção pra mim vem de Deus. Deus dando a proteção, o resto é resto (Marcos).
A partir dos depoimentos apresentados, torna-se necessário compreender os comportamentos adotados pelos trabalhadores, dentre eles a não procura por serviços de saúde e o uso de medicamentos sem prescrição médica. Segundo Minayo (1988), em seu clássico estudo sobre as representações sociais de saúde e doença, (...) o sistema etiológico popular não é unicausal. Pelo
contrário, ele se define pelo pluralismo, é holístico, ecologicamente orientado, articula-se com as condições materiais da existência e as expressa (MINAYO, 1988, p.379).
A complexidade e o paradoxo da relação trabalho e saúde na percepção do catador se evidencia quando estudos mostram a concepção de saúde e doença na perspectiva desses trabalhadores. Dall´Agnol e Fernandes (2007) identificaram que, para os catadores, ter saúde é não contrair uma doença grave , ou é não ter que ir ao hospital, não tomar remédio . Eles mostraram- se alarmados apenas quanto a doenças que julgam graves, como o câncer, o HIV, a tuberculose ou a doença do rato . Embora haja entendimento de que existem riscos no trabalho com os resíduos, os catadores desconsideraram tal situação como fator preocupante frente à necessidade de busca de renda para sobrevivência imediata.
Estudo de Medeiros e Macedo (2006) realizado com catadores ligados a duas cooperativas de reciclagem de Goiânia demonstrou que eles não consideravam cortes, perfurações e escoriações como acidentes de trabalho. Para eles, acidentes seriam ocorrências graves que os impediriam de trabalhar. Esses dados são semelhantes aos identificados na pesquisa de Cardozo (2009), bem como em estudo de Porto e colaboradores (2004, p.151) que constatou que:
Os catadores entrevistados percebem o lixo como fonte de sobrevivência, a saúde como capacidade para o trabalho e, portanto, tendem a negar a relação direta entre o trabalho e problemas de saúde. Se a associação automática entre lixo e doença é pouco reconhecida, não há como se ignorar que inúmeros são os riscos realmente existentes no trabalho de catação [...].
Nesse sentido, a saúde perde seu nexo evidentemente direto com a manutenção da vida. A questão da saúde fica, paradoxalmente, subjugada à sobrevivência do homem-trabalhador neste mundo de exploração do capital que se intensificou neste século XXI. O processo de sócio- metabolismo do capital desencadeia, portanto, o processo de adoecimento nesses trabalhadores, que quando fisicamente incapazes de trabalhar, serão substituídos como mercadorias velhas e inutilizáveis, sendo trocados por mercadorias novas . Assim o sistema se auto-reproduz, em um processo de mercadorização do trabalho vivo (ALVES, 2007).
Olhar para tais condições materiais, dentre elas o processo de trabalho, permite uma ampliação da visão sobre tal fenômeno, que mostra outra situação basal: a precarização das
condições de trabalho e vida e, portanto, a precarização também das condições de saúde. Os catadores, da mesma forma que elaboram seus próprios instrumentos de trabalho e organizam seu cotidiano laboral, improvisando e adaptando recursos técnicos e habilidades, também improvisam e sustentam o manejo de sua própria saúde, a partir dos recursos que lhe são alcançáveis. Por conseguinte, tal condição se torna mais um elemento que compõe este quadro de precarização laboral no cotidiano dos catadores, que precisa ser entendido de forma crítica para que transformações efetivas possam ser pensadas e desenvolvidas em benefício desses trabalhadores.