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A Psicologia Hospitalar começou a ser introduzida no país antes mesmo da regulamentação da profissão de psicólogo em 1962. Profissionais ainda não psicólogos, pois não existia a profissão, começaram a desenvolver trabalhos em hospitais, primeiras criações do que seria a Psicologia Hospitalar atual. Dentre estes profissionais, está a psicóloga Matilde Neder que, em 1954, deu início a uma atividade na então Clínica Ortopédica e Traumatológica da USP, hoje Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital de Clínicas, da Faculdade de

Medicina da USP. Em 1974, também em São Paulo, a psicóloga Belkiss Romano Lamosa foi convidada a organizar o Serviço de Psicologia do Instituto do Coração do Hospital de Clínicas, da Faculdade de Medicina da USP, sendo a primeira psicóloga a levar o tema “Psicologia no Hospital” como produto de uma dissertação de mestrado e, posteriormente, doutorado e livre docência (LAZZARETTI et. al., 2007).

Contextualmente, em meados da década de 50, predominava nos hospitais um modelo de medicina científica pautada em normas rígidas e embasadas pelo pensamento cartesiano de ciências compartimentalizadas e funcionamento mecanicista, marcado pela relação causa-efeito reconhecendo no organismo vivo uma “máquina a ser reparada” (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 200612). Nesse âmbito, o distanciamento, a neutralidade, objetividade e assepsia das relações eram pretendidos e valorizados. No entanto, começava a ser questionada a eficácia do modelo biomédico e a aparecerem proposições de um modelo biopsicossocial considerando a importância de outros aspectos da vida humana relacionados ao processo de adoecimento. (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2006).

Em 1978, estabeleceu-se como disciplina formal da Psicologia a chamada Psicologia da Saúde, cujo marco inicial foi a criação da Division of Health Psychology da American Psychology Association (APA). Surge como uma subárea da Psicologia construída a partir dos conhecimentos das áreas do desenvolvimento, experimental, social, mas, principalmente utilizando conhecimentos dos campos da Medicina, Biologia, Epidemiologia, Saúde Pública, Sociologia e Antropologia (ENUMO, 2003). A criação desta nova área apresenta-se como uma tentativa de contraposição ao reducionismo corpo/mente doença/saúde do modelo biomédico até então predominante, uma vez que agregava aspectos psicossociais ao campo da saúde.

O modelo biopsicossocial inclui várias teorias comportamentais e cognitivistas, voltando-se principalmente para fatores comportamentais preditivos de saúde e doença, como fatores sociais, genéticos, emocionais. As ações neste modelo envolvem mais diretamente a transformação de crenças em saúde e as teorias do comportamento (ENUMO, 2003). Se por um lado esse modelo amplia relativamente o olhar para a experiência humana do adoecer, por outro apenas reproduz, em maior escala, uma compreensão linear e cindida sobre a saúde, considerando ainda as dicotomias mente/corpo e saúde/doença.

12 Revista Diálogos - Psicologia ciência e profissão, 2006 http://site.cfp.org.br/wp-

A Psicologia Hospitalar surge ainda sob a forte influência do modelo médico. Esse modelo, em sua quase totalidade, sustenta-se em critérios científicos muito específicos - tais como: objeto e método definidos, previsão e controle, alto grau de especialização, além de extrema objetividade no procedimento (LAZZARETTI et. al., 2007). Na busca por inserir-se no hospital e encontrar uma identidade, a Psicologia Hospitalar procura adequar-se ao modelo hegemônico, criando um paralelo psicológico para responder a questões relacionadas à díade saúde-doença no sentido da cura. Por essa via, estabelece-se como saber a partir de relações como, por exemplo, entre fatores emocionais e doenças (rancor e câncer, por exemplo), ou tentando encontrar fatores emocionais intrínsecos para as doenças.

Na década de setenta, são criadas as primeiras disciplinas relacionadas à prática psicológica em hospitais, em alguns cursos de graduação em Psicologia em São Paulo. Em diversos outros locais do Brasil, várias experiências influenciaram a construção da Psicologia Hospitalar como concebida atualmente (CAUTELLA, 2012). Nas décadas que se seguiram, marcos importantes garantiram uma grande expansão da área: o primeiro curso de especialização do Departamento de Psicologia Hospitalar em 1982, pelo Instituto Sedes Sapientes de São Paulo; o I encontro Nacional de Psicólogos da Área Hospitalar, promovido pelo serviço de Psicologia do Hospital das Clinicas da USP em 1983; a fundação da Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar em 1997; e em 2000, a criação do título de especialista na área pelo Conselho Federal de Psicologia (CAUTELLA, 2012).

Como o avanço da atuação de psicólogos no hospital houve, ao longo do tempo, diversas tentativas de enlaçar diferentes práticas que, muitas vezes, têm em comum o fato de acontecerem dentro do hospital, em um campo homogêneo para este saber. Alamy (2003) propõe como possibilidade e conceituação da Psicologia Hospitalar, retomando alguns textos seus anteriores:

Podemos conceituá-la como “o ramo da psicologia destinado ao atendimento de pacientes portadores de alguma alteração orgânica/física, que seja responsável pelo desequilíbrio em uma das instâncias bio-psico-social”

(ALAMY, 1991), bem como “uma psicologia dirigida a pacientes internados em hospitais gerais, sem deixar de se estender aos ambulatórios e consultórios, com sua atenção voltada para as questões emergenciais advindas da doença e/ou hospitalização, do processo do adoecer e do sofrimento causado por estas, visando o minimizar da dor emocional do paciente e da sua família” (ALAMY,

1998, p.17)

Na busca por identidade, Alamy (2003) delimita a prática do psicólogo hospitalar considerando ser sua atuação dirigida para os problemas psicoafetivos oriundos da doença e/ou da hospitalização (p.17) compreendendo a natureza do sujeito doente, seus desejos, esperanças,

medos, aptidões, dificuldades e limitações. Adverte sobre cuidados fundamentais para um bom atendimento: considerar o tempo de internação do paciente, bem como ter conhecimento sobre a patologia orgânica e seus efeitos iatrogênicos, e questões de ordem prática, como dificuldades do paciente e da família em relação ao sustento da casa, ausência do trabalho e outros (ALAMY, 2003). A autora propõe ainda uma definição da atuação do psicólogo hospitalar:

A atuação do psicólogo hospitalar objetiva dar oportunidade para que o doente expresse suas emoções, descubra a melhor maneira de lidar comas limitações impostas pela doença/hospitalização, dê significado à sua doença dentro do seu contexto de vida e trabalhe suas questões emergenciais, onde os objetivos principais são o reconhecimento do paciente enquanto um todo provido de emoções e sentimentos que interferem em seu comportamento, ajudando-o a tratar/minimizar, o sofrimento provocado pela doença e/ou hospitalização. (ALAMY, 2003, p.17)

A necessidade da Psicologia Hospitalar ser aceita e mostrar-se eficiente no contexto hospitalar levou ainda à criação de subespecialidades (CAUTELLA, 2012). A falta de definição por parte do psicólogo e por parte de outros profissionais, que não sabem claramente qual é a função do psicólogo, leva muitos profissionais a se definirem pelo local ou especialidade onde e pela qual a prática, ou seja, psicólogo da neurologia, psicólogo da ortopedia, psicólogo da nefrologia, etc. (LAZZARETTI et al, 2007). Talvez, nessa falta de definição, encontre-se o ponto decisivo para a análise dessa necessidade de sobrenome à prática da Psicologia no hospital. Seguindo uma divisão, tal como a do modelo da medicina que, orientado pelo paradigma médico-curativa e mecanicista do processo saúde-doença, culminou na fragmentação e hierarquização do processo de trabalho em saúde e pelas subdivisões em especialidades médicas. (MATTA e MOROSINI, s/d13)

A Psicologia Hospitalar, nesse sentido, mantem-se voltada para um modelo que prioriza olhar para a situação de doença como algo a ser restaurado; saúde e doença encontram-se em oposição e a atuação do psicólogo segue no sentido de buscar o reestabelecimento de um estado de equilíbrio ideal. Essa visão está alinhada com o conceito de saúde divulgado na carta de princípios de 7 de abril de 1948 pela Organização Mundial de Saúde (OMS): “Saúde é o estado do mais completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de enfermidade”. (SCLIAR, 2007). Conceito este, que levanta diversas críticas principalmente quanto ao caráter idealizado de saúde como o estado inatingível. Por outro lado, diz da força do momento histórico e dos protagonistas de sua criação, segundo Scliar (2007) refletia a aspiração nascida

13Dicionário da Educação Profissional em Saúde disponível em

dos movimentos sociais do pós-guerra: o fim do colonialismo, a ascensão do socialismo e que a saúde deveria expressar o direito a uma vida plena, sem privações (p.37).

A entrada do psicólogo no hospital abriu a possibilidade de usufruir do contexto hospitalar também como lugar de formação profissional. A variedade situações que vividas na instituição bem como o trabalho junto a outros profissionais de diferentes áreas, proporcionam enriquecimento da experiência de aprendizagem, redimensionando a formação do psicólogo em uma prática para além da clínica individual privada.

A experiência do trabalho em instituições pode possibilitar ampliação do olhar para realidade social em que atua e vive e de seu campo de ação como, por exemplo, no sentido da promoção de saúde e do trabalho junto à comunidades.

A Psicologia enquanto área do saber é marcada fortemente pela multiplicidade no que se refere aos aspectos do conhecimento e ação do psicólogo (FIGUEIREDO, 1993). Esta multiplicidade acontece justamente pela ação do psicólogo se inserir em uma grande diversidade de espaços e a de uma grande gama de correntes teóricas que, muitas vezes, não apresentam consenso. Mas esta multiplicidade se dá principalmente pelo modo singular como cada psicólogo realiza sua prática podendo resignificar a teoria através de sua própria experiência com ela. Assim, o psicólogo pode se reinventar em seu fazer quando coloca-se atento à demanda institucional e da população atendida, bem como às condições do contexto desta população e dos cuidados oferecidos.

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