DEL 2 - ANALYSE
6.2 Oppsummering av dybdeintervjuer
6.2.4 Tiltakspunkt 15
Josué de Castro foi um médico e nutrólogo radicado na cidade do Recife, que teve um papel central para podermos falar hoje em um Agir Crítico em Nutrição.
Filho de um agricultor do Sertão Nordestino que em 1877, em função da seca, migrou para a capital, viveu sua infância e adolescência em um bairro pobre, às margens do rio Capibaribe. Em 1929, após concluir o Curso de Medicina da Universidade do Brasil, retornou ao Recife para dar início a uma consagrada trajetória político-intelectual, dedicada, particularmente, à complexa e paradoxal problemática da fome e suas formas de enfrentamento. A sua vastíssima produção intelectual, de abrangência internacional, composta por mais de 200 títulos, tem sido objeto de estudo de distintas investigações (VASCONCELOS, 2008, p. 2710). Quando a Nutrição estava emergindo enquanto ciência (particularmente a partir de estudos e pesquisas de médicos nutrólogos), Josué de Castro trouxe para o Brasil as influências de Pedro Escudero (nutrólogo argentino), o qual tinha, em seu país, uma série de ações institucionalizadas de pesquisas que se dedicavam a perceber o aspecto social dos problemas nutricionais. Com isso, ele rompia fundamentalmente uma tradição com a qual a Ciência da Nutrição tinha nascido e se estabelecido - o olhar da Nutrição apenas do ponto de vista biológico, fisiológico e patológico, sem importarem o contexto em que o fenômeno da Nutrição e da alimentação acontecia e as condições socioeconômicas, políticas e culturais às quais as populações estavam expostas. Nesse sentido,
Pedro Escudero influenciou centenas de profissionais, para os quais ele oferecia estágios e cursos, durante os quais vários nutrólogos, principalmente da América Latina, podiam ir até a Argentina conviver com ele para aprender mais sobre sua perspectiva.
Josué de Castro inseriu-se neste grupo e começou a empreender, cada vez mais, uma perspectiva de estudos no campo de Nutrição aliada com a ideia social. Isso aconteceu fundamentalmente na sua própria região, que é o Nordeste Brasileiro, na cidade do Recife.
(...) em 1932, sob a influência de Escudero, Josué de Castro realizava a pesquisa As Condições de Vida das Classes Operárias no Recife, uma investigação baseada na metodologia de orçamento e padrão de consumo alimentar entre quinhentas famílias de três bairros operários desta cidade. Os resultados deste trabalho, considerado o primeiro inquérito dietético-nutricional do Brasil, tiveram ampla divulgação nacional, provocando a realização de estudos similares, inclusive daquele que serviu de base para a regulamentação da lei do salário mínimo e da formulação da chamada ração essencial mínima, estabelecida por intermédio do Decreto-Lei no 399, de 30 de abril de 1938 (VASCONCELOS, 2002, p.129).
Nos anos seguintes, Josué passou a se dedicar aos estudos, que começavam a influenciar outros grupos que trabalhavam a questão da nutrição no Brasil, particularmente no Rio de Janeiro, na Bahia e em São Paulo, onde já estavam sendo criados Cursos de Nutrição na época, motivados por estudos de nutrólogos nessas localidades.
Estes primeiros nutrólogos brasileiros logo iniciaram o processo de produção e difusão de estudos e pesquisas sobre composição química e valor nutricional de alimentos nacionais, sobre consumo e hábitos alimentares e sobre o estado nutricional da população brasileira, procurando, desta maneira, garantir especificidade e legitimidade para esta nova área do saber científico que se constituía no país (VASCONCELOS, 2002, p. 130).
Tal processo era corroborado pelos pensamentos de importantes intelectuais da época, muitos dos quais – mesmo sem serem nutrólogos – pensaram sobre a questão alimentar brasileira, como Gilberto Freyre, autor do clássico “Casa-Grande e Senzala”, um profundo ensaio sociológico sobre o padrão e os hábitos alimentares da sociedade brasileira.
Nesse período, é importante ressaltar que Josué de Castro e seu grupo influenciaram significativamente as ações do governo de Getúlio Vargas (governo federal brasileiro na época), que era populista, cujas metas e princípios fundamentais eram o cuidado com os trabalhadores e classes trabalhadoras, no sentido de prestar assistência com algumas questões básicas de necessidades dos trabalhadores e trabalhadoras, particularmente no setor comercial. De acordo com Vasconcelos (2002, p.130),
sobretudo a partir da segunda metade dos anos 1930, passaram a evidenciar uma certa organicidade intelectual com o chamado Estado Populista, contribuindo para a formulação das primeiras medidas e instrumentos da Política Social de Alimentação e Nutrição, os quais começavam a ser implantados no Brasil.
Havia preocupação com as condições alimentares e nutricionais da nação, e o quanto essas condições poderiam efetivamente colaborar para o desenvolvimento do Brasil. Assim, são feitas várias parcerias e ações, como criação de restaurantes populares e contratação de visitadores de alimentação e nutrição, os quais eram técnicos que visitavam as casas das pessoas em situação de vulnerabilidade para saber as condições de alimentação e nutrição que as pessoas tinham. O maior destaque foi a criação do Serviço de Alimentação da Previdência Social (SAPS).
Por mais que estas visitas fossem feitas numa lógica autoritária do ponto de vista educacional, onde se esperava ensinar as pessoas como comer adequadamente, do ponto de vista tradicional, Josué e sua equipe procuraram desenvolver um rol de ações onde existia a preocupação em não apenas restringir os estudos de Nutrição à sua perspectiva biofisiológica ou patológica, mas ampliá-las para o diálogo dos problemas nutricionais com a sociedade e as suas questões.
O grande marco significativo nessa história foi a publicação da “Geografia da Fome”, onde o autor explicita, pela primeira vez na história do Brasil, o fenômeno da fome, da pobreza e da miséria, fazendo uma análise geográfica (do ponto de vista de onde se localizavam os bolsões de pobreza e de fome no nosso país), e também política. Afirmou que a fome estava
localizada em determinados lugares geográficos desse país, e isso não era à toa, tinha uma explicação.
Em Geografia da Fome, Josué de Castro introduz os conceitos de áreas alimentares, áreas de fome endêmica, áreas de fome epidêmica, áreas de subnutrição, mosaico alimentar brasileiro e, por conseqüência, traça o primeiro mapa da fome no país. Por áreas alimentares, concebe uma determinada região geográfica que dispõe de recursos típicos, dieta habitual baseada em determinados produtos regionais e com seus habitantes refletindo, em suas características biológicas e sócio-culturais, a influência marcante da dieta. Por área de fome endêmica, concebe uma determinada área geográfica em que pelo menos metade da população apresenta nítidas manifestações de carências nutricionais permanentes. Por áreas de fome epidêmica, concebe uma determinada área geográfica em que pelo menos metade da população apresenta nítidas manifestações nutricionais transitórias. Por áreas de subnutrição, concebe uma determinada área geográfica em que os desequilíbrios e as carências alimentares, sejam em suas formas discretas ou manifestas, atingem grupos reduzidos da população. E por mosaico alimentar brasileiro, concebe a diferenciação regional dos tipos de dieta existentes no país, oriundas das variadas categorias de recursos naturais (alimentos) e das distintas etnias que constituíram a nação brasileira (VASCONCELOS, 2008, p.2710/2711).
Tratava-se de uma questão política em que o Estado brasileiro precisava interferir, juntamente com os profissionais que trabalhavam com a saúde, com a assistência social e com a nutrição. Neste sentido, Josué de Castro foi extremamente pioneiro e influenciador de profissionais que trabalhassem no campo da Nutrição, ao evidenciar o fenômeno da fome no país, que até então era algo que todo mundo sabia que existia, mas poucos o entendiam como um problema social, político e de saúde.
É nesse trabalho de Josué de Castro, de Gilberto Freyre e de outros pesquisadores que se encontram elementos iniciais dos quais nascem no Brasil possibilidades para um agir crítico em Nutrição.
(...) ao analisarmos as obras (...), observamos que todos eles compartilhavam da matriz ideológica que, à época, procurava desfocar da questão racial para a questão sócio-cultural o preconceito racial/climático que se tinha sobre o povo brasileiro, particularmente sobre o processo de mestiçagem. Sendo assim, podemos dizer que estes cientistas integraram- se perfeitamente à categoria mais ampla de intelectuais que, nos anos 1930-1940, imbuíram-se na tortuosa tarefa de
construção da nacionalidade brasileira (VASCONCELOS, 2001, p. 16).
Certamente, isso não se deu em um processo sem contradições. Havia muitas contradições, a maioria das quais eram inerentes à situações do próprio contexto onde Josué desenvolveu suas ações. Como falado anteriormente, as ações educativas em alimentação e nutrição, mesmo aquelas direcionadas pelo grupo de Josué de Castro, ainda eram preponderantemente marcadas pela transmissão de conhecimentos e por um viés autoritário onde se vislumbrava um padrão alimentar adequado e perfeito para a população brasileira, ao qual as pessoas deveriam se adequar.
Esse padrão alimentar voltava-se sobretudo para prevenção de patologias, não levando em consideração o contexto social. Então, a grande marca e preocupação social de Josué de Castro estava no abastecimento e, além disso, em explicitar os problemas sociais, tratando-os como problemas de saúde, sociais e políticos. Mas havia, ainda assim, uma lacuna no que tange ao “miúdo” e micropolítico na prática social de cada profissional em como lidar com isso não apenas com uma perspectiva critica da nutrição, mas de uma forma também crítica, que não fosse impositiva, nem transmissiva e tampouco autoritária, mas que respeitasse justamente as condições daquela população e valorizasse a sua potência criativa e suas iniciativas culturais. Evidentemente, isso ainda era muito difícil de ser feito naquela época, pois ainda predominava uma visão da educação que tinha muito pouco a ver com o diálogo e a construção compartilhada.
Se a perspectiva defendida por Josué de Castro e seus colaboradores nasce na década 1930 e se estende até o final dos anos de 1950, é somente neste último período que vai surgindo a Educação Popular e os trabalhos de Paulo Freire e sua equipe, também na cidade do Recife, os quais revolucionaram o saber o fazer da Educação, permitindo-se abrir oportunidades para desvelamento de experiências que apontavam como era possível fazer práticas educativas e sociais em qualquer campo, inclusive na Nutrição, que fossem pautadas não pela imposição de conhecimentos, mas pela construção compartilhada do saber.
Então, é só no final da década de 1950 que a Educação Popular e as perspectiva freireanas vão sendo construídas e começando a influenciar o próprio campo da educação nutricional. Neste sentido, se compreendem certas lacunas que o trabalho de Josué de Castro e seus colaboradores trazia até aquele momento, particularmente quanto a abordagem prática de seus trabalhos sociais no campo alimentar e nutricional.
A partir destes trabalhos, outra influência marcante de um agir crítico em Nutrição aparece, sobretudo, na Universidade Federal de Pernambuco, no Curso de Nutrição daquela instituição, criado em 1957, por iniciativa do médico Nelson Ferreira de Castro Chaves, no Instituto de Fisiologia e Nutrição da Faculdade de Medicina de Recife (atual Curso de Graduação em Nutrição do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), apontado por alguns estudos como o primeiro curso brasileiro a formar profissionais voltados para atuação em Saúde Pública (VASCONCELOS, 2001).