A matemática é aplicável em todas as áreas do conhecimento, não apenas na escola. Está presente no nosso cotidiano através de quantidades, valores, porcentagem, estatísticas, juros, etc. Este instrumento pode abrir perspectivas de liberdade e transformação social desde que acessível e disponibilizado de maneira clara, coerente e eficiente à comunidade escolar.
No Brasil, foram criados os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) que sugerem mudanças em quase todos os aspectos do ensino e aprendizagem de Matemática, buscam contemplar várias linhas para trabalhar o seu ensino. O propósito é desenvolver formas de raciocínio, estabelecer relações entre os temas, pensar matematicamente, levantar hipóteses, explorar e generalizar a resolução de problemas.
Propõe rever o modo de ensinar Matemática e considerar diferentes tipos de atividades e formas de concretizar o trabalho, atribuindo ao aluno a possibilidade de construir sua aprendizagem e ao professor, o papel de mediador.
A orientação do trabalho pelo professor mediador proporciona a reconstrução de ideias dos alunos, valorizando seus saberes, suas potencialidades e estabelecendo relações do conhecimento anterior com o conhecimento científico e favorecendo ao mesmo tempo a autoestima, a autonomia, o resgate da subjetividade, a visão crítica com respeito a diferentes ideias e aprimorando as relações interpessoais.
No século XX, a Educação Matemática se tornou assunto de interesse mundial devido à reestruturação curricular. É consenso que a Matemática exerce um papel importante no desenvolvimento da sociedade, neste sentido as reformas curriculares projetam a formação de um cidadão útil à sociedade em que vive, preparado para um mundo de trabalho, que exige conhecimento matemático para resolução de problemas.
Surge na década de 1980, o movimento da educação matemática crítica, (EMC) focando principalmente aspectos políticos da educação matemática, voltada à perspectiva democrática com questões de interesse social: para quem? qual o interesse? de que maneira pensar e fazer matemática? Espera-se que os sujeitos não apenas possam se adequar à sociedade, mas que busquem caminhos, participem ativamente de sua construção, especialmente de uma sociedade que se torna a cada dia mais tecnológica facilitando a distribuição da informação.
O foco da educação deve ser na aplicabilidade da matemática na sociedade, no contexto onde o aluno está inserido para que ele perceba um significado, um objetivo real, que possa visualizar o valor de tal aprendizado.
Importa desmistificar o poder, o saber, permitido a poucos e concentrado em poucos. A educação crítica tem a ver com cultura, política, responsabilidade, verdade, reflexão, emancipação e muito mais que possibilitam envolvimento e ação de todos, especialmente da visão de competência a ser desenvolvida como direito a todos.
O conhecimento passa a tomar “corpo”, segundo Skovsmose (2004), quando se aprende a manusear as questões e dificuldades reais através da matemática.
Os educadores matemáticos com uma perspectiva crítica deveriam tentar ensinar matemática de uma forma que mostrasse: a) que este “corpo de conhecimentos” é apenas um entre muitos; b) as simplificações feitas no processo de matematização. Os alunos deveriam, portanto, ser persuadidos contra ideias como: um argumento matemático é o fim da história; um argumento matemático é superior por sua própria natureza; os números dizem isto e isto. “Acreditamos que a matemática
poderia se tornar simplesmente uma maneira possível de olhar o fenômeno e não o caminho” (SKOVSMOSE, 2004, p. 133).
Quando se aplica matemática, fica mais fácil aprender, há um significado por trás do signo. E ainda, acrescenta Skovsmose “por meio da matemática, podemos falar sobre um pedaço da realidade”.
Em entrevista gravada para o VIII Congresso Internacional de Educação Matemática (1999), Paulo Freire caracteriza com propriedade a mistificação do saber matemático que nega ao povo importante instrumento de crítica proporcionado pela Matemática.
(...) eu acho que uma preocupação fundamental, não apenas dos matemáticos, mas de todos nós, sobretudo dos educadores, a quem cabe certas decifrações do mundo, deveria ser essa: a de propor aos jovens, estudantes, alunos, que antes e ao mesmo tempo em que descobrem que 4 por 4 são 16, descobrem também que há uma forma matemática de estar no mundo. Quando a gente desperta, já caminhando para o banheiro, já começa a fazer cálculos matemáticos. Quando a gente olha o relógio, por exemplo, estabelece a quantidade de minutos que tem, se vai tomar o café da manhã, a hora que vai chegar o carro que vai nos levar ao seminário, para chegar às oito. Quer dizer, ao despertar os primeiros movimentos, lá dentro do quarto, são movimentos matematicizados. Para mim essa deveria ser uma das preocupações, a de mostrar a naturalidade do exercício matemático. Lamentavelmente, o que a gente vem fazendo? (...) E com isso, quantas inteligências críticas, quantas curiosidades, quantos indagadores, quanta capacidade abstrativa para poder ser concreta, perdemos. Eu apelo aos congressistas, professores de matemática de várias partes do mundo, que ao mesmo tempo em que ensinam que 4 vezes 4 são 16 ou raiz quadrada e isso e aquilo outro, despertem os alunos para que se assumam como matemáticos (FREIRE, 1999).
Educar é acreditar na capacidade e desejo de aprender que é melhorada constantemente pelo fato de sermos humanos. Olhar a educação não apenas como cântaro de saberes, mas como meio de alcançar níveis mais altos de criatividade, solidariedade e consciência crítica.
Inovar na prática escolar é um processo lento que deve ser resultado de um trabalho coletivo, que demanda planejamento conjunto e contínuo em diferentes espaços e, ainda, que seja capaz de romper com uma cultura escolar centrada na transmissão de conteúdos tradicionalmente considerados como indispensáveis.
Repensar estratégias e buscar metodologias desafiadoras, aprender a lidar com as incertezas, trabalhar em coautoria com o educando na perspectiva de sensibilizá-lo e envolvê- lo com entusiasmo e afetivamente no processo de construção do conhecimento é fundamental. Além disso, o professor precisa estar atento ao querer dos alunos, identificando suas necessidades, anseios e questionamentos e, para isso, deve ouvi-los, conhecendo a sua realidade e o seu meio sociocultural, colaborando na formação de novos valores.
Segundo Arroyo (2002, p. 215), “Todo conhecimento é humano, poderá e deverá ser útil, imprescindível, poderá desenvolver a consciência crítica e a lógica, o raciocínio e a sensibilidade, a memória e a emoção, a estética ou a ética. Dependerá do nosso trato pedagógico”. Destaca-se a relevância dos sentimentos na construção do saber, fazendo parte do conhecimento, captado pela emoção e refletido pela racionalidade.
A relação professor-aluno é fator muito importante para uma educação crítica, é necessária uma relação de credibilidade, de parceria.
O ensino da Matemática requer um planejamento não direcional e transmissivo, mas colaborativo e construtivo. O objetivo é demonstrar uma nova concepção de Matemática que deixou de ser abstração para tornar-se realidade significativa para a vida da sociedade, ou seja, uma matemática desmistificada e percebida nas mais simples ações do dia a dia.
Faz-se necessário utilizar em aula atividades que contribuam para o desenvolvimento e aperfeiçoamento de habilidades inerentes ao ensino de Matemática, como criatividade, iniciativa e reflexão, além de todo o conhecimento matemático que o aluno necessita deter.
Dessa forma, a Matemática não deve ser considerada pelos professores como uma disciplina a mais a ser ensinada, mas como aquela que pode contribuir para o desenvolvimento intelectual, pessoal e social dos alunos.
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