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7. FINAL DISCUSSION

7.3 F UTURE RESEARCH

A educação agrícola foi muito pouco debatida na RBEP e a explicação pelo desinteresse por este ramo de ensino tem várias motivos, o principal provavelmente seja o fato de ter uma participação pequena nas matrículas do Ensino Médio. Em 1964 o ensino agrícola absorvia apenas 0,11% das matrículas no grau médio, ou seja, 10.295 alunos. Todo o discurso sobre desenvolvimento e modernidade do país estavam atrelados à urbanização e industrialização, muito pouco se falava do setor primário.

Em 1970 Wolga Peçanha e Aracy Bezerra Duarte publicaram um artigo na Revista sobre o ensino agrícola em que afirmavam que o trabalhador rural, desde a

juventude se dedicava ao campo apenas por tradição e os conhecimentos práticos eram herdados. A consequência, segundo as autoras, era a baixa produtividade com implicações mínimas na economia. Para corroborar esse argumento, as autoras mencionaram dados do 7º Recenseamento Nacional, realizado em 1960 pelo IBGE, segundo o qual as propriedades pequenas ocupavam 21,42% da área rural e representavam 59,8% da área cultivada, porém como a produtividade era muito baixa não tinha nenhuma relevância na balança comercial do país. Dessa maneira a baixa produtividade, decorrente inclusive da falta de conhecimentos técnicos, desgastava o lavrador que se via atraído pelo setor industrial, embora também despreparado para atuar nesse setor.

Na opinião das autoras, para melhorar a produtividade era necessário atuar através da educação sistemática no campo, para aumentar a capacidade produtiva do agricultor. Elas também consideravam insatisfatório o número de técnicos agrícolas para atender o país.

Entre os fatores limitantes na formação de maior número de elementos humanos para as lidas rurais, podemos citar: número insuficiente de estabelecimentos de ensino, por sua vez de limitada capacidade; carência de equipamento técnico-didático; reduzido número de professôres tecnicamente qualificados e inadequação dos currículos e processos educativos. (DUARTE; PEÇANHA, 1970, p. 339).

A solução apresentada por elas era multiplicar escolas locais para formar jovens, maiores de 16 anos, cuja formação profissional de 1º ciclo teria duração de cinco semestres. O objetivo, portanto, era oferecer aos jovens a oportunidade de recuperação escolar, através da integração e autoafirmação no meio rural, e também promover pela educação geral o ajustamento social e psicológico do educando atendendo as necessidades do meio rural, referentes à produção e a produtividade agropecuária. Os colégios técnicos deveriam dar continuidade a formação realizada nos ginásios pluricurriculares.

Já mencionado em capítulo anterior, a pesquisa realizada por Tarcizio Quirino da Universidade Federal de Pernambuco em 1970, analisou as mudanças na zona rural do Nordeste com relação à atitude dos chefes de família quanto a educação e profissionalização das gerações mais novas demonstrando que havia uma expectativas com relação à ascensão socioeconômica na zona rural associada a

escolha de profissões urbanas. Para esse auto, a rejeição da agricultura como profissão para os filhos ressaltava a atração pelas cidades. (QUIRINO, 1970).

Outro resultado de pesquisa publicado pela RBEP, foi o de Queiroz (1970) versando sobre as favelas no Brasil que revelavam a estreita relação entre o campo e a cidade. Sem perspectiva para se fixarem na zona rural, famílias migravam para as cidades sem qualquer qualificação profissional, marginalizadas contribuíram para a proliferação das favelas ao redor das grandes cidades brasileiras.

Segundo a professora Maria Isaura Pereira de Queiroz (1970), do departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, essa situação era fruto das modificações ocorridas no meio rural e não da industrialização ou decorrente de qualquer outro fator de atração para a vida urbana. ―Fatôres sócio-econômicos, como as crises dos produtos de exportação nos mercados internacionais, as mudanças da organização do trabalho rural, o crescimento demográfico, deflagraram a partida das ondas humanas para as cidades‖ (QUEIROZ, 1970, p. 43).

Continuando a explicação, a pesquisadora afirmava que, a partir de 1955 os produtos agrícolas com cotações baixas levaram muitos fazendeiros a trocaram a agricultura pela criação extensiva, que ocupava pouca mão-de-obra, acelerando as demissões no campo. Em 1963, foi votado o Estatuto do Trabalhador Rural, que assegurava um salário-mínimo a todo trabalhador rural permanente, férias pagas depois de um ano de contrato e estabilidade depois de dez anos de trabalho no mesmo estabelecimento. Consequentemente, a legislação que deveria proteger o trabalhador rural tornou-se seu algoz ao acelerar a dispensa da mão-de-obra permanente. Os grandes e pequenos fazendeiros passaram a só contratar trabalhadores para o ciclo agrícola – 10 meses nas fazendas de café, ainda menos nos engenhos, plantações de algodão, cereais; foge-se assim das exigências da lei. O processo de mecanização também contribuiu para agravar o desemprego no campo, pois os fazendeiros passaram a manter apenas a mão-de-obra indispensável e reduzida ao mínimo necessário.

Queiroz conclui o artigo denunciando a precaria situação dos trabalhadores rurais. Em três anos (1963, 1964, 1965), 30% da mão-de-obra rural permanente do estado de São Paulo tornou-se volante. Muitos destes volantes se instalaram em pequenas cidades e vilas, contribuindo para o surgimento das favelas, crianças e jovens formavam bandos vivendo de roubos e pequenos delitos. Segundo a

professora Maria Isaura (1970), ―o destino dos jovens das camadas sociais inferiores torna-se ainda mais dramático. Com efeito, não são apenas condenados a um HANDICAP (DESVANTAGEM) inevitável, em virtude da falta de escolas e de possibilidades de emprêgo. Parecem condenados a um nível de vida cada vez mais baixo, quer morem nas favelas urbanas, quer pertençam ao mundo dos trabalhadores rurais‖ (QUEIROZ, 1970, p. 47, 48).

Concluindo, embora houvesse um discurso enaltecendo a formação para o trabalho, a expansão do ensino profissionalizante estava muito atrasada com relação às necessidades imediatas do mercado. O sistema capitalista gerava soluções para resolver rapidamente o abastecimento de mão-de-obra, seja nos cursos de capacitação realizados pelas indústrias, seja nos cursos livres que capacitavam os trabalhadores para atuarem no setor terciário. O ensino agrícola era apontado como solução para diminuir a baixa produtividade no campo, por outro lado, a falta de interesse em cursá-lo vinha exatamente da baixa produtividade que levava os trabalhadores rurais a quererem migrar para a cidade.