O professor que participou desta pesquisa está na rede estadual do Estado de Rondônia há quatorze anos, atuando na disciplina de Matemática e na escola recorte da pesquisa há nove anos. No período dessa pesquisa sua atuação em sala de aula envolvia o Ensino Fundamental e Médio (período matutino e vespertino) e, também, a Educação de Jovens e Adultos (período noturno).
Em entrevista com o professor sobre o planejamento de suas aulas e como ele utilizava o livro didático, ele informou que elaborava o seu plano de ensino com base na sequência que os conteúdos eram apresentados no livro didático, incluindo algumas explicações e exercícios do livro.
O professor relatou que também fazia uso de outro livro didático como apoio para complementar suas aulas, um livro pessoal chamado “Praticando Matemática”, dos autores Álvaro Andrini e Maria José Vasconcellos, Editora do Brasil, primeira versão, do ano de 1989. Ele relata que comprou na época em que fazia faculdade e usava com frequência em suas aulas de Matemática na escola para explicar os conteúdos e passar exercícios.
Na explicação do professor, muitas vezes este livro abordava os conteúdos de forma mais clara, de fácil entendimento, com mais exemplos e exercícios mais apropriados para a turma.
Cabe destacar que o livro “Praticando Matemática” foi disponibilizado na 4º edição no ano de 2016, vinculado ao Guia do Programa Nacional do Livro para ser utilizado nos anos de 2017, 2018 e 2019.
Consultando o histórico dos livros disponibilizados no PNLD de Matemática para turmas de 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental, até o ano de 2017 foi possível identificar que o livro adotado pela Escola “Matemática nos Dias de Hoje – Na Medida Certa”, teve versões nos anos 2002, 2005, 2008, 2011 e 2017 e em algumas versões chamava-se “Matemática na Medida Certa”. Já o livro pessoal do professor “Praticando Matemática” teve versões em 2002, 2005, 2008, 2014, 2017.
Pode constatar que por vários anos o livro didático pessoal do professor era oferecido como uma das sugestões do Guia disponível a escola, em especial na última seleção de livros dos anos finais do ensino fundamental em 2017. Porém, o professor disse que não o sugeriu como livro a ser adotado pela escola, pois a sua versão atualizada já não era tão completa como a primeira versão que ele possui.
Sua escolha pelo livro “Matemática nos Dias de Hoje” adotado pela escola tem uma orientação fortemente indicada pela coletividade, no caso uma decisão junto com os demais professores da área de Matemática que atuavam na Escola.
Analisando os registros nas Fichas de Observação nas turmas do 6º e 8º ano do ensino fundamental foi possível quantificar a frequência, os conteúdos que eram ministrados nas aulas e a relação com a sequência dos conteúdos organizados, tanto em relação ao livro didático adotado pela Escola “Matemática nos Dias de Hoje – Na Medida Certa”, como o
Este registro é sintetizado na quadro a seguir e apresenta os dados coletados referentes à turma do 6º ano durante as horas de observação.
Ano de 2017 Data Conteúdos Trabalhados e página do livro
Organização dos Conteúdos
Adotado
pela Escola Pessoal Livro Tempo
23/02 Subtração p. 14 1 Não Sim 45min
10/03 Operação Inversa p. 17 1 Não Não 1h30min
24/03 Expressões Numéricas p. 29 1 Sim Não 1h30min
07/04 Potenciação p.40 1 Sim Não 45min
28/04 Potenciação e Raiz p. 41 1 Não Sim 45min
12/05 Geometria (retas e ângulos) p. 54 2 Não Sim 1h30min
19/05 Figuras geométricas espaciais p.77 2 Sim Não 1h30min
26/05 Geometria (ângulos) p. 92 2 Sim Não 1h30min
02/06 Padrões e regularidades 3 Sim Não 45min
09/06 Múltiplos e divisores p. 112 4 Sim Não 45min
19/06 Números compostos e números primos 4 Não Sim 1h30min
28/06 Geometria Plana 2 Não Não 45min
30/06 Mínimo Múltiplo Comum (MMC) 4 Não Não 45min
31/07 Máximo Divisor Comum (MDC) 4 Não Sim 45min
07/08 Máximo Divisor Comum (MDC) 4 Sim Não 45min
14/08 Frações (números racionais) 5 Não Sim 45min
21/08 Leitura de frações p. 146 5 Não Sim 45min
04/09 Simplificação de frações 5 Não Sim 45min
28/09 Simplificação 5 Não Não 45min
05/10 Operações com frações 6 Sim Não 45min
Figura 2: Quadro 2 – Conteúdos de Matemática abordados na sala de aula no 6º Ano Fonte: Elaborada pelas autoras com dados coletados na pesquisa.
O quadro anterior nos mostra que no 6º ano foram 495 minutos de tempo com a utilização do livro pessoal do professor e 675 minutos com o livro adotado pela escola, no período de fevereiro a outubro de 2017, totalizando 1170 minutos. E nestas observações das aulas não são utilizadas outras ferramentas ou recursos didáticos. O mesmo foi feito para a organização dos coletados referentes à turma do 8º ano.
Observando os dois quadros percebe-se que o professor de Matemática realmente seguia a ordem em que os conteúdos estavam estabelecidos no livro didático, pois cada
conteúdo que ele trabalhava com os alunos estava disposto na mesma sequência no livro didático, mesmo quando ele usava seu livro pessoal em sala.
Houve apenas um conteúdo do 6º ano, a Geometria Plana, e um do 8º ano, Equações e Sistemas de Equações, que foram executados em sala de aula fora da sequência dos conteúdos, mas que não descaracteriza todo o processo de sequência utilizado pelo professor.
No gráfico abaixo apresenta-se o comparativo da utilização destes livros, onde pôde-se identificar com mais clareza os livros que o professor utilizava com mais frequência em cada uma das turmas observadas.
Figura 3: Gráfico 01 – Comparativo do uso do Livro Didático de Matemática pelo professor Fonte: Elaboradas com dados coletados na pesquisa.
No gráfico são expostos a quantidade de horas em que o professor utilizou o livro didático adotado pela escola e o pessoal em cada turma observada. Dessa forma, nota-se que o professor utilizava com mais frequência em suas aulas nas duas turmas o seu livro pessoal “Praticando Matemática”, e no 8º ano o uso é cinco vezes maior em tempo de um livro para o outro.
6. Considerações Finais
No ambiente escolar da rede pública o professor é um dos agentes mais importantes na condução do processo de ensino e aprendizagem dos alunos, e nessa difícil tarefa o livro didático de matemática tem um papel importante dentre os recursos disponibilizados.
O livro didático contribui para esse processo com um terceiro integrante, o autor, que passa a dialogar com o professor e com o estudante e nessa relação o livro passa a ser
entendimento das dimensões entre o que oferece o livro didático e outros aspectos que devem contemplar a formação dos alunos que extrapola a natureza do livro didático.
Os métodos adotados pelo professor em geral estão muito ligados ao livro didático, em sua ação solitária de pensar e agir sobre o ensino da matemática e, neste processo, pouco se indaga o que realmente deve aprender e ensinar em matemática, e por que escolhemos determinados conteúdos e atividades e não outros.
No processo observação em sala de aula, os fragmentos exteriores da aprendizagem do aluno e do ensino do professor, refletem que há muitos embaraços nas ações escolares, e que vão desde a organização curricular, os tempos da escola e da gestão.
Observando a atuação do professor em suas aulas de Matemática com as turmas do 6º e 8º ano do Ensino Fundamental, com as entrevistas realizadas e os registros das Fichas de Observação, foi possível constatar que sobre as percepções do professor em relação à utilização do livro didático de matemática em sala de aula, o mesmo articula o que é possível dentro da realidade que se insere, talvez com maior apoio pudesse incrementar as atividades com outros recursos e ferramentas, tem consciência de sua sobre carga de ensino atuando em três turnos, com níveis e modalidades diferentes no ensino da matemática, ou seja, atua no ensino fundamental, médio e EJA em três períodos.
Nota-se que o professor utilizava com mais frequência o livro adotado na turma do 6º ano, pois mais da metade da sala regularmente levava o livro para a escola, o que permitia uma participação maior dos alunos durante as aulas. Na turma do 8º ano essa didática não era possível já que nem um terço da sala comparecia as aulas com o livro didático, o que fez com que o professor optasse na maioria das vezes por atividades registradas na lousa.
Com a turma do 6º ano há maior interação e questionamentos e no 8º ano, mesmo com a saída para o ensino médio, não há uma motivação por parte significativa dos estudantes que desencadeasse o interesse pela abordagem exposta no livro didático adotado pela escola. E não foi possível justificativa mais assertiva dos motivos.
7. Referências
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