O totalitarismo é, para Arendt (1997, p. 513), uma nova forma de governo. Atua orientado pela lei; profere não ser arbitrário, pois obedece a leis – da Natureza ou da História –, ambas tidas como a base para todas as leis existentes. Contudo, Arendt diverge dessas seguras convicções acerca do totalitarismo.
Para Arendt, o totalitarismo promete tornar a humanidade a própria encarnação da lei, o que libertaria todos os homens do cumprimento dela. As leis totalitárias teriam um pressuposto diferente das leis positivas, que se baseiam na autoridade seja da Natureza ou da Divindade e que, portanto, dependem da obediência e do consentimento a algo externo. As leis positivas servem para estabilizar os movimentos, eternamente mutáveis, dos homens. Já o totalitarismo transforma todas as leis em leis de movimento, a história e a natureza, elas mesmas, tornam-se movimentos8.
Como já explicitado, o totalitarismo pressupõe um tipo especial de sociedade, a sociedade de massa. Havia uma “lógica própria”, coerente com o que acontecia no regime totalitário. Não uma lógica no sentido de ferramenta que permita e proporcione o pensamento crítico e reflexivo, mas uma que tornasse aceitável ou correto ou certo o que acontecia. Uma “lógica” que desse, aos que viviam sob o totalitarismo, a “certeza” de que tudo estava transcorrendo em completa “normalidade”, tornando “aceitáveis” as situações que, “logicamente”, decorreriam das leis da história ou da natureza, por dedução. Essa “lógica” é, em última análise, a base de sustentação – ou princípio de ação – do próprio regime totalitário, pois pressupõe a existência do movimento da história e da natureza – com suas leis já definidas – contra o qual não cabe ação. Assim, não há como encontrar um princípio de ação para os indivíduos no totalitarismo, sistema que depende da total e completa inação de todos.
8 Arendt explica que, nos movimentos totalitários, entende-se: a) lei da história – a luta de classe e a exploração dos trabalhadores; e b) lei da natureza – a luta das raças, a proteção dos povos germânicos e as aspirações nacionais da Alemanha. (ARENDT, 1997, p. 525).
Segundo Arendt, da mesma forma que a legalidade não é suficiente para guiar a ação dos indivíduos nos governos constitucionais, o terror não é suficiente para guiar os indivíduos nos governos totalitários. Desse modo, Arendt chega a seguinte conclusão:
Aquilo de que o sistema totalitário precisa para guiar a conduta dos seus súditos é um preparo para que cada um se ajuste igualmente bem ao papel de carrasco e ao papel de vítima. Essa preparação bilateral, que substitui o princípio de ação, é a ideologia. (ARENDT, 1997, p. 520).
Para Arendt, os regimes totalitários ocupam-se em ajustar cada um ao papel que lhe é destinado. Para atingir esse objetivo, sua ferramenta é a ideologia; assim, a conduta dos cidadãos dos regimes totalitários é moldada tão somente pelas ideologias. As ideologias, deste modo, foram especialmente úteis para os regimes totalitários. Segundo Arendt, parece que somente nos regimes totalitários de Hitler e Stálin desvendou-se a potencialidade das ideologias, pois até então não se conhecia a força e a utilidade que poderiam assumir. Arendt explica que a ideologia não é uma pseudociência, tampouco uma pseudofilosofia, porque uma ideia – ideo – não pode tornar-se o objeto de estudos de uma ciência na mesma proporção que os animais são o objeto de estudos da zoologia. Assim como o sufixo – logia – da palavra ideologia não significa o discurso que se possa fazer a respeito da ideia. Nesse sentido é que Arendt assevera que o racismo apresentou papel destacado, mas não se pode reduzir a ideologia nazista apenas a essa ideia. Essa conclusão da filósofa foi possível pela percepção de que o pensamento ideológico pretende fornecer uma explicação total e definitiva para a história humana; insiste que existe uma realidade “mais verdadeira” escondida por detrás de todas as coisas perceptíveis que apenas essa ideologia pode perceber; dissocia o pensamento e a experiência real do cotidiano, aquilo que deve ser pensado por todos adviria do próprio movimento da ideologia e não daquilo que a realidade apresenta, no sentido de fechar os olhos de todos para a terrível realidade. O mais importante na ideologia nazista era criar uma atmosfera de “perfeita normalidade” para todas as atrocidades que desejavam cometer, no sentido de fazer parecer que não havia outro destino para aquela sociedade, como se o que estava acontecendo era inevitável e aconteceria independentemente da participação ou da vontade das pessoas. O mais
importante era o encadeamento lógico das ideias que os nazistas impunham como inevitáveis, não a ideia, o conteúdo, que pretendiam impor.
Uma ideologia é bem literalmente o que seu nome indica: é a lógica de uma idéia. O seu objeto de estudo é a história, à qual a “idéia” é aplicada; o resultado dessa aplicação não é um conjunto de postulados acerca de algo que é, mas a revelação de um processo que está em constante mudança. A ideologia trata o curso dos acontecimentos como se seguisse a mesma “lei” adotada na exposição lógica da sua “idéia”. As ideologias pretendem conhecer os mistérios de todo o processo histórico – os segredos do passado, as complexidades do presente, as incertezas do futuro – em virtude da lógica inerente de suas respectivas idéias. (ARENDT, 1997, p. 521).
Segundo Arendt, as ideologias pervertem a lógica dialética (tese, antítese e síntese) para fazer desaparecer qualquer possível contradição, isto é, as contradições são explicadas pela ideologia como estágios de um movimento coeso; assim, diz ela, se, na lógica clássica9, o único movimento possível é o processo de dedução a partir de uma premissa, na ideologia, a primeira tese transforma-se em premissa necessária, ou apodítica, para o processo de dedução que, por sua vez, explica o movimento. Desta forma, as contradições, que os fatos possam trazer, são explicadas como “estágios de um só movimento coerente e idêntico” (ARENDT, 1997, p. 522). Nas palavras da autora:
Assim que se aplica a uma idéia a lógica como movimento de pensamento – e não como o necessário controle do ato de pensar – essa idéia se transforma em premissa. As explicações ideológicas do mundo realizaram essa operação muito antes que ela se tornasse tão eminentemente útil para o raciocínio totalitário. A coerção puramente negativa da lógica, a proibição das contradições, passou a ser “produtiva”, de modo que se podia criar toda uma linha de pensamento e forçá-la sobre a mente, pelo fato de se tirarem conclusões através da mera argumentação. Esse processo argumentativo não podia ser interrompido nem por uma nova idéia [...] nem por uma nova experiência. As ideologias pressupõem sempre que uma idéia é suficiente para explicar tudo no desenvolvimento da premissa, e que nenhuma experiência ensina coisa alguma porque tudo está compreendido nesse coerente processo de dedução lógica. O perigo de trocar a necessária insegurança do pensamento filosófico pela explicação total da ideologia e por sua Weltanschauung não é tanto o risco de ser iludido por alguma suposição geralmente vulgar e sempre destituída de crítica quanto o de trocar a liberdade inerente da capacidade humana de pensar pela camisa-
9Isto é, aquela que se presta preferencialmente à argumentação e opera apenas por dedução, como
no caso do silogismo. O problema dessa lógica já havia sido apontado por Bacon, em 1620: “O silogismo consta de proposições, as proposições de palavras, as palavras são o signo das noções. Pelo que, se as próprias noções (que constituem a base dos fatos) são confusas e temerariamente abstraídas das coisas, nada que delas depende pode pretender solidez.” (BACON, Francis. Novum
Organum. Disponível em <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000047.pdf>. Acesso
de-força da lógica, que pode subjugar o homem quase tão violentamente quanto uma força externa. (ARENDT, 1997, p. 522).
A partir dessa análise de Arendt, pode-se compreender, em parte, a subjugação de alguns grupos humanos pelos nazistas: a história determinou que as “raças” x e y eram “raças agonizantes” e, a partir dessa primeira premissa, inquestionável e imutável, segue-se, necessariamente, que tais raças cessarão de existir. Tal determinação parece, à primeira vista, advinda de uma lei natural, mas na verdade a ideologia a explica a partir do movimento da história, portanto é histórica. Cabia a cada indivíduo, nessa perspectiva, colaborar com a antecipação desse destino inevitável à humanidade. Mesmo à luz de todo o horror e da completa crueldade com que as vítimas eram tratadas, ou, mesmo que a experiência mostrasse que essa lógica era infundada e absurda, pouquíssimas, ou melhor, raras foram as pessoas que se opuseram ou resistiram. Essa foi a triste “vitória” de uma das principais ideologias – ideologia racista – do século XX.
Neste mesmo sentido, André Comte-Sponville, no texto Pequeno
tratado das grandes virtudes, utiliza dessas “certezas” advindas do totalitarismo
como exemplo para explicar a intolerância. Para o autor (1995, p. 179-80), o totalitarismo é o poder de uma doutrina, de uma ideologia, de uma “verdade”, ou pretensa verdade; nele, não há possibilidade de discussão e de troca de opiniões, não há lugar para a divergência de opiniões e de pontos de vista e, nisso, o totalitarismo é intolerante.
Para a ideologia, um único elemento da realidade é tomado e aceito – ainda que este ponto de partida seja tomado independentemente de contextualização - e, artificialmente, transformado em premissa axiomática; depois dele, toda e qualquer argumentação é colocada a salvo de qualquer experiência subsequente; a partir do estabelecimento da premissa, a experiência não mais interfere no pensamento ideológico, bem como esse pensamento não mais poderá absorver algo da realidade.
Pode-se concluir, a partir de Arendt, que o terror e a ideologia se correspondem e necessitam um da outra para acionar e manter o movimento da história ou da natureza. Se o terror total destrói qualquer possibilidade de relação entre os seres humanos, a ideologia destrói a relação dos indivíduos com a realidade. Assim, segundo a autora, toda a preparação a que se propôs o
movimento totalitário atinge seu ápice quando os indivíduos não estabelecem mais contato entre si nem com a realidade do mundo que os circunda.
O súdito ideal do governo totalitário não é o nazista convicto nem o comunista convicto, mas aquele para quem já não existe a diferença entre o fato e a ficção (isto é, a realidade da experiência) e a diferença entre o verdadeiro e o falso (isto é, os critérios do pensamento). (ARENDT, 1997, p. 526).