5.0 Resultat og analyse
5.1.2 Utfordringer i næringen
Em maio de 1948, O Cruzeiro atingiu a publicação de 205.000 exemplares. De acordo com o diretor de redação Accioly Netto, considerando a leitura de cada exemplar por cinco pessoas o periódico teria, na época, a maior circulação do país. No mesmo mês, Der Spiegel atingiu a tiragem de 65.000 exemplares, segundo seu editor-chefe, Rudolf Augstein, estimando-se que cada exemplar tenha sido lido por 7,5 pessoas, a revista também alcançaria a máxima representação nacional alemã.325
O Cruzeiro visava, primordialmente, ao entretenimento de seu leitor-
consumidor. Priorizou, assim, a publicação de fotorreportagens capazes de articular textos inéditos a imagens de qualidade. Ao mesmo tempo, publicou anúncios de bens de consumo, relegando, portanto, a segundo plano, o jornalismo de ideias e opiniões.
Por sua vez, Der Spiegel trouxe para a sociedade alemã o debate de temas importantes à reorganização da “jovem democracia”. Procurou suprir uma sociedade interessada primeiro em informação e, depois, em entretenimento. Defendeu os interesses de seus leitores, menos por meio de assuntos referentes à arte e mais por assuntos internos da Alemanha e de política internacional.326
Com efeito, ambos os semanários procuraram identificar e suprir os desejos dos seus leitores. As duas revistas buscaram conquistar certa autonomia frente aos editores-chefes e partidos políticos. Apesar desta busca, o sucesso dos semanários permaneceu atrelado ao cenário econômico e político-jornalístico no qual se inseriam e ao qual pretendiam servir.
Desse modo, esquadrinhar o jogo de relações em que tais revistas estiveram envolvidas é impreterível ao trabalho histórico, na medida em que toda publicação jornalística responde aos estímulos de uma sociedade.
325 As estimativas de circulação, averiguadas nos capítulos anteriores, foram divulgadas pelos
próprios semanários interessados em analisar seu alcance no seio da sociedade.
326 De acordo com a pesquisa de opinião realizada pelo magazine alemão com seus leitores em
maio de 1948, as reportagens sobre arte eram as que menos interessavam. Em: Der Spiegel, Hannover, n. 22, p. 17, 29 mai. 1948.
Nos anos pesquisados, os semanários desfrutaram de um cenário econômico com indicativos de prosperidade. No Brasil, O Cruzeiro acompanhou o compasso da balança comercial favorável que, devido a divisas acumuladas nos anos de guerra, despertou investimento em parques industriais, ao mesmo tempo em que uma política permissiva a investimentos estrangeiros promoveu um sensível aumento no volume de anunciantes. Em clima de otimismo, o periódico publicou, lado a lado, reportagens sobre a construção de estradas de rodagem e anúncios de carros
Chevrolet. As novas geladeiras Frigideire e as batedeiras Arno foram anunciadas
sob medida para os novos apartamentos erguidos no centro da cidade. O Cruzeiro acompanhou o surgimento de novas necessidades da sociedade brasileira. Em suas páginas, antigos itens de luxo tornaram-se padrão desejado, anunciado como ao alcance de todos. Segundo Hobsbawm:
Que mais em termos materiais, podia a humanidade querer, a não ser estender os benefícios já desfrutados pelos povos favorecidos de alguns países aos infelizes habitantes de outras partes do mundo, reconhecidamente ainda a maioria da humanidade, que não haviam entrado no ‘desenvolvimento’ e na ‘modernização’?327
Na Alemanha Ocidental, Der Spiegel acompanhou a chegada dos empréstimos viabilizados pelo Plano Marshall. A recuperação da economia alemã anunciada nas reportagens foi afirmada no processo de crescimento dos anúncios publicitários. No seu primeiro ano, os anúncios quase não existiam. No ano seguinte, foram anunciados alguns produtos, a grande maioria nacional: farmácia e drogaria
FWB, creme infantil Diaderma, vinho Dujardin Uerdingen RH, e conservante para
frutas e pepinos Runfn.328 O padrão de anúncios variados foi mantido nos anos seguintes. Contudo, é preciso ressalvar as limitações da recuperação alemã nos primeiros meses do Plano Marshall. Em junho de 1948, em carta à Der Spiegel, um leitor escreveu que a revista “não deveria trazer tantos anúncios onde, na verdade, não existe nada para comprar”.329
Em 1949, os anúncios publicitários ganharam mais espaço. Surgiram as peças de página inteira que, em geral, anunciavam produtos estrangeiros, como os
327 HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia
das Letras, 1995. p. 263.
328 Der Spiegel, Hanover, p. 14, n. 23, 05 jun. 1948. 329 Der Spiegel, Hanover, n. 1, p. 16, 22 mai. 1948.
cigarros estadunidenses Texas330 e Fox.331 Nos anos seguintes, a média de páginas
se manteve, mas produtos importados ocuparam maior espaço. Der Spiegel desfrutou, assim, de um ambiente econômico em recuperação, via Plano Marshall e, ao mesmo tempo, foi receptiva aos anunciantes estadunidenses.
Em relação ao cenário jornalístico, O Cruzeiro desfrutou de um ambiente livre de censura. Seus repórteres e jornalistas gozavam de liberdade de pauta, editavam matérias internacionais e tinham permissão para viajar por todo o Brasil em busca de notícias espetaculares. Livre de censura e usufruindo de um cenário político democrático, O Cruzeiro estampou ora reportagens em consonância com a administração do presidente Dutra, ora criticando suas políticas de governo.
Em um trecho da reportagem Construindo para um Brasil melhor, o presidente Dutra, por se demonstrar a favor das obras de interesse nacional defendidas por O
Cruzeiro, foi reconhecido como “o atual chefe da Nação, com a alta visão que o caracteriza das coisas úteis, deu incontinente todo o seu apoio à ideia do seu ministro da Viação, para que fosse levado avante e no mais curto espaço de tempo, tão relevante e imprescindível melhoramento”.332
Por outro lado, uma série de reportagens intituladas, Para Dutra ler na cama, criticou as ações de governo, por não promover a modernização do parque têxtil no país, defendida nas páginas da revista.
O Cruzeiro, ciente do debate Cepalino, veiculou, ainda, reportagens em
defesa do planejamento estatal, mas apoiou a entrada de capital internacional como meio para desenvolver o país. O grupo de pressão se manteve afastado da filiação a um partido político: “a política partidária seria tão incongruente numa revista do modelo de O Cruzeiro como num tratado de geometria”.333
Na Alemanha, Der Spiegel desfrutou de uma posição de absoluto predomínio em um mercado jornalístico desarticulado, primeiro em razão dos anos de regime nazista e, posteriormente (entre 1945 e 1947), pela censura estadunidense, preocupada com o processo de desnazificação. De acordo com Alexander Stephan, as autoridades de ocupação não hesitaram em retirar licenças de revistas como o magazine Der Ruf, por defender a nacionaldemocracia. Entretanto, foram poucos os
330 Der Spiegel, Hanover, n. 15, p. 11, 13 abr. 1950. 331 Der Spiegel, Hanover, n. 43, p. 20, 20 out. 1949. 332 Der Spiegel, Hanover, n. 41, p. 53, 30 jul. 1949.
333 Primeiro editorial de O Cruzeiro. In: Disponível em:
casos em que a censura estadunidense atuou. Já no início dos anos 1950, estava claro, para Washington, que a batalha das Americanhäser haviam vencido.334
No cenário político, Der Spiegel procurou se manter afastada das disputas entre os partidos. Seu objetivo foi alcançado como evidencia a pesquisa de opinião realizada com seus leitores que ao serem questionados: “É Der Spiegel imparcial?” Responderam que sim 83% e, que não, apenas 12%; “É Der Spiegel politicamente imparcial?” Como resposta 62% de avaliações positivas e 25%, negativas. Das negativas, o SPD garantiu 12% das opiniões, seguido por 4% no CDU e 3% para os Partidos Ocidentais (Westparteien). O magazine procurou, portanto, se manter “politicamente imparcial”, servindo na consolidação da democracia na sociedade alemã.
4.2 GÊNESE HISTÓRICA COMPARATIVA DO PROCESSO DE AMERICANIZAÇÃO