2. B IOENERGI
2.3 E NERGIPRODUKSJON BASERT PÅ BIOGASS
2.3.2 Utfordringer
Antes de falar na noção de posicionamento, é necessário recorrer a três outras noções complementares postuladas por Maingueneau (2005b [1984], p. 35 e 36): a de universo
discursivo, a de campo discursivo e a de espaços discursivos29. O teórico afirma que por ser a noção de “interdiscurso” muito vaga, é preciso substituí-la por essa tríade. Vejamos então a definição dada pelo autor para cada uma delas.
O universo discursivo é constituído pelo conjunto de formações discursivas de todos os tipos que interagem numa conjuntura dada”. Ele representa um conjunto acabado que, por sua amplitude, não pode ser apreendido em sua globalidade; por isso, apresenta pouco
28“o discurso não pode ser senão o resultado de uma construção”. Tradução de minha responsabilidade, direto do original.
29 Uso como base a obra Gênese dos discursos, mas os conceitos foram introduzidos por Maingueneau na obra
interesse ao analista, servindo apenas para definir o horizonte a partir do qual serão construídos domínios suscetíveis de serem estudados, os “campos discursivos”.
O campo discursivo é constituído por um conjunto de formações discursivas que se encontram em concorrência e delimitam-se reciprocamente em uma região determinada do universo discursivo. O termo “concorrência” é entendido, aqui, de maneira mais ampla, como o enfrentamento aberto, a aliança, a neutralidade aparente entre discursos que possuem a mesma função social e se diferenciam principalmente pela maneira de exercê-la. Seriam campos discursivos o religioso, o político, o filosófico, o dramatúrgico etc. Como, de modo geral, não é possível estudar um campo discursivo em sua integralidade, o analista deve extrair dele subconjuntos ou subcampos, os “espaços discursivos”, constituídos de posicionamentos discursivos que mantêm relações particulares fortes.
Os espaços discursivos são, assim, recortes discursivos que o analista isola no interior de um dado campo discursivo tendo em vista os propósitos específicos de sua análise. Para realizar esses recortes, é fundamental da parte do analista um conhecimento e um saber histórico prévios que permitirão ao pesquisador levantar hipóteses, as quais serão confirmadas ou não ao longo da pesquisa empreendida. Como exemplo concreto de um espaço discursivo, teríamos segundo minha hipótese o caso dos discursos baiano e cearense na música brasileira30, espaço discursivo constituinte do campo discursivo verbomusical brasileiro, bem como do universo discursivo música.
É preciso atentar que atualmente, a partir da obra Genèse du discours, em vez do conceito formação discursiva31, Maingueneau adota o conceito de prática discursiva. Fazendo uma reformulação, a partir de Foucault (em sua A arqueologia do saber), essa nova noção imbrica a anterior, a de formação discursiva, à noção de comunidade discursiva, formada por todos os sujeitos agentes participantes de uma dada prática discursiva, a qual estaria, assim, associada ao estabelecimento de uma determinada posição constituída dentro de um discurso. Para definir essa posição ocupada pelo sujeito, Maingueneau (2001 [1993], p. 68) postula a noção de posicionamento, que está relacionada à instauração e conservação de
uma identidade enunciativa forte (MAINGUENEAU, in: MAINGUENEAU; CHARAUDEAU, 2004, p. 392) em um campo discursivo, dizendo respeito à relação direta que o sujeito constrói em dado contexto discursivo, que envolve o modo como o indivíduo demarca sua identidade e mostra sua diferença com relação ao seu vizinho.
30 Ver capítulo 1 da seção IV.
31 Prefácio do autor à obra traduzida por Gênese dos discursos (2005b, p.12). Observa-se que a tradução do título mais fiel ao conteúdo da obra seria Gêneses do discurso.
O posicionamento supõe a existência de grupos mais ou menos institucionalizados, de comunidades discursivas, (...) que não existem senão pela e na enunciação dos textos que elas produzem e fazem circular. O posicionamento não é, portanto, apenas uma doutrina, a articulação de ideias; é a intricação de certa configuração textual e um modo de existência de um conjunto de homens. (MAINGUENEAU, 2006b, p. 40 e 41, com destaque do autor)
Por conseguinte, os posicionamentos concorrentes em uma área, por exemplo, vão se opor também pelo modo de funcionamento dos grupos que lhes estão associados. Acompanhando Maingueneau, adoto na tese, no lugar de formação discursiva, o conceito de
posicionamento para se referir a essa demarcação de uma determinada identidade em um
campo discursivo. Mais do que isso, como nos mostra Charaudeau (In: MAINGUENEAU; CHARAUDEAU, 2004, p. 267), a identidade de posicionamento “caracteriza a posição que o sujeito ocupa em um campo discursivo em relação aos sistemas de valor que aí circulam, não de forma absoluta, mas em função dos discursos que ele mesmo produz”. Desse modo, a identidade posicional é tão móvel quanto são móveis as posições, só podendo ser compreendida por meio da inscrição efetiva em uma comunidade discursiva, ou seja, para que se possa definir um sujeito em seu grupo, deve-se associar o sujeito à política que o torna possível.
Segundo Maingueneau (2001 [1993], p. 69), o ato de posicionar-se em um campo pode ser, assim, compreendido tanto como “o de uma tomada de posição”, quanto “o de uma ancoragem num espaço conflitual (fala-se de uma “posição” militar)”, o que significa necessariamente a filiação a uma produção discursiva anterior, por meio da retomada ou da repulsão de suas características. Nesse contexto, são consideradas posições as “doutrinas”, as “escolas”, os “movimentos”, os “partidos” etc. Tomemos como exemplo o artista selecionado para este estudo na tese, Belchior, que se filia, a partir do início de sua carreira, em uma produção considerada regional, pelo lugar natural do qual se originaram suas canções, e, a partir da década de 80, filia-se a uma produção considerada mais “nacional”, pelo lugar que a sua produção lhe confere atualmente no campo do discurso verbomusical brasileiro, via “leitura” da crítica musical, historiográfica e jornalística.
De modo geral, com relação ao posicionamento específico no campo artístico e mais propriamente no discurso verbomusical, pode-se dizer que ele envolve um processo que abrange a necessidade constante de mostrar uma diferença com relação aos outros artistas, no qual o cancionista se preocupa igualmente em marcar o seu próprio território e em
Quanto ao conceito de comunidade discursiva, na perspectiva de Maingueneau, se o relacionarmos o com o conceito de esfera discursiva, para Bakhtin, pode-se agrupar ambos como se referindo ao grupo formado por todos os sujeitos que constituem o designado
discurso verbomusical brasileiro (compositores, letristas, melodistas, instrumentistas,
intérpretes, empresários, produtores de discos e dos artistas, radialistas, jornalistas, críticos musicais, ouvintes e fãs etc.). Cada um desses sujeitos será visto, portanto, na sua atuação em alguma das esferas de constituição discursiva: a da produção (compositores, letristas, melodistas, instrumentistas), a da recepção (ouvintes e fãs) e a da circulação (intérpretes, empresários, produtores, radialistas, jornalistas, críticos musicais). Voltarei à noção de comunidade discursiva no capítulo 3 à frente, sobre a argumentação na música brasileira.
Com relação à interação entre posicionamento e campo discursivo, na medida em que os campos já estão estruturados antes mesmo de os sujeitos “ingressarem” neles, cabe a cada um o papel de se posicionar de uma forma específica, mas já prevista pelo campo. Como o campo é um espaço de concorrência no qual se é eleito pela legitimidade, cada sujeito procurará a “melhor maneira” de encontrar essa legitimidade. E esse melhor modo está diretamente ligado aos “investimentos” a serem feitos pelo sujeito do discurso, o que para Bakhtin estaria relacionado com uma avaliação e posição axiológica do sujeito que enuncia. Segundo Maingueneau (na obra L’Analyse du discours - Introduction aux lectures de l’archive de 1991, à página 180), é o tipo de investimento (investissement32) empregado pelos sujeitos que definirá a identidade de um posicionamento. O autor francês usa essa noção para caracterizar a relação entre um posicionamento e os outros dos quais seus textos decorrem. Assim, para investir, o sujeito deverá empregar em um espaço de discurso alguns enunciados e não outros, os quais devem ser valorizados para que o posicionamento se constitua. No caso específico dos discursos artísticos com os quais estou lidando, muito mais próximos de um
estilo (marca individual) do que de um gênero (imposição formal), o posicionamento se
constitui no momento mesmo de instituição de uma identidade singular, que será mais ou menos valorizada a depender do teor de originalidade ou de avant-garde33 dos investimentos feitos pelo sujeito que se posiciona, sendo importante observar que a qualificação de
32 Na língua francesa, segundo o Nouveau petit Robert. Dictionnaire alphabétique et analogique de la langue
française (2001), “investir” significa: “I. Mettre quelqu’un en possession d’un pouvoir, d’un droite, d’une fonction; II. Employer; III. Mettre son énergie psychique dans une activité, un objet.” - “I. Colocar alguém em posse de um poder, de um direito, de uma função; II. Empregar; III. Colocar sua energia psíquica em uma atividade ou objetivo”. Tradução de minha responsabilidade, direto do original. Ao longo da tese, todas as demais observações sobre a língua francesa serão feitas a partir da consulta desse dicionário.
33 A expressão em francês era inicialmente restrita do vocabulário militar do século XIX. Ela se refere originalmente à “I. Parte de uma armada que caminha na frente das tropas;”. Em seu sentido figurado, a expressão “avant-garde” significa: “II. Representar ou pretender representar um papel de precursor, por suas audácias;”. Tradução de minha responsabilidade, direto do original. Daí surge o neologismo em língua portuguesa “vanguarda”, que manteve os mesmos sentidos conotativos do idioma de origem.
singularidade mudará de época para época. Em todas as obras verbomusicais analisadas aqui, o que importa, entretanto, é apreender a interação entre o posicionamento individual do artista (o que é muitas vezes denominado estilo) e os investimentos feitos por ele, que vão constituindo pouco a pouco o seu posicionamento, ou seja, a sua identidade musical.
Assim sendo, o termo estilo é adotado no âmbito deste trabalho como equivalente aos termos posicionamento ou identidade, ou seja, referente a características identitárias gerais seja da pessoa, do artista ou da obra verbomusical. Desse modo, na tese, não tenho a pretensão de problematizar diferentes nuances do que seria o estilo nas obras verbomusicais. Nos momentos em que me referir à palavra “estilo”, usarei como termo genérico capaz de abarcar diferentes maneiras (letra, música, voz, dança) de manifestação de uma identidade que se pretende singular. Ao fazer essa escolha, tenho consciência de que opto de certo modo por uma “estilística de autor”, mas que só pode ser compreendida por meio de outras estilísticas, a “de posicionamento” e a “de gênero”.
No tocante ao investimento, creio, assim como Costa (2001), que o conceito utilizado por Maingueneau (2001 [1993]), para se referir apenas ao gênero do discurso, pode ser estendido também para outras categorias como cenografia, ethos e código de linguagem, e para o que denominei de investimento interdiscursivo (CARLOS, 2007a). Retornarei a essa questão nos próximos parágrafos.
Entendendo o conceito de investimento em sentido amplo, no âmbito da música brasileira, ao investir, o sujeito faz, com uma liberdade relativa, determinadas escolhas, as quais são condicionadas pelo mercado, por instituições, pela comunidade discursiva, nas quais o sujeito investe (relativamente) ou é investido. De modo geral, associando as noções de “investimento” e “posicionamento”, defendo que no campo discursivo da música brasileira,
posicionar-se implica em um investimento identitário (associado a um sujeito empírico, mas
sobretudo discursivo), o qual abrangeria todos os outros investimentos: o genérico, o cenográfico, o ético, o linguístico e o interdiscursivo. Essa tomada de posição seria exercida por um sujeito real, que ocupa a função social de autor (cancionista, já que falo de canção, nas palavras de Tatit, 2002b). A esse sujeito-autor-malabarista caberia o papel de “equilibrar” os investimentos genérico, cenográfico, ético, linguístico e interdiscursivo. O resultado dessa junção é o que possibilitaria a construção de uma identidade ou posicionamento. É essencial dizer que o investimento não está simplesmente relacionado ao mero uso de determinadas estratégias para o cumprimento de um objetivo. Mais do que isso, quando um sujeito investe em gêneros, cenografias, ethé e códigos de linguagem, bem como na intertextualidade, interdiscursividade e na metadiscursividade, ele está construindo/delimitando o seu próprio
posicionamento num espaço discursivo permeado por diversos posicionamentos. Ou seja, ele está, diante de tantos outros modos de dizer, definindo sua identidade. Isso mostra, portanto, que as escolhas retóricas (os investimentos) não são simplesmente uma techne a exigir cultivo e arte, mas uma visão de vida que implica tomada de posição e ação no mundo (MOSCA, 2004b, p. 47).
Quando me refiro às noções de “intertextualidade”, “interdiscursividade” e “metadiscursividade” na análise do campo verbomusical, deixo claro que no âmbito da pesquisa, considero:
a) Por intertextualidade, toda relação entre dois ou mais textos: entre canções (seja a letra ou a melodia), entre uma canção e uma imagem etc.;
b) Por interdiscursividade, tanto a relação entre discursos (a relação entre a música e a poesia), quanto a natureza fundamental de todos os discursos (o discurso verbomusical é constitutivamente interdiscursivo);
c) Por metadiscursividade, o posicionamento dos cancionistas sobre a canção e a prática discursiva verbomusical; a representação do universo da canção na obra dos compositores; as imagens forjadas, o posicionamento e o ethos assumido enquanto cancionista pelos compositores.
Porque no discurso não existe um lugar fixo designado previamente antes do sujeito se constituir, tanto a posição axiológica quanto o posicionamento não são de modo algum cristalizados ou estáticos. Portanto, eles vão mudando a depender das interações entre o sujeito e o campo e entre este e os outros sujeitos do seu e dos outros campos. Isso equivale a dizer que as posições (identidades) assumidas pelos sujeitos são transformadas constantemente na mediação. Dito isso, com base na ideia fundamental de que cada um se comporta em função de sua posição, e sabendo que o sujeito, como chamou a atenção Foucault (1972), é constitutivamente disperso, e, a partir dessa condição, ele pode seguir diferentes direções, vindo a adotar os mais variados posicionamentos, a análise na tese tenta apreender dois movimentos importantes de constituição da identidade do sujeito cancionista: enquanto momento de “estabilização” e como “processo.
Se o sujeito que fala/escreve/canta já mostra que tem o direito a expressar-se, ele precisará sempre justificar esse lugar e o direito à manifestação discursiva. No caso do
discurso dos cancionistas, todas as ações (gestos retóricos)34 são para justificar a própria identidade e a própria música, bem como sua singularidade35, com o objetivo de alcançar o reconhecimento junto ao auditório. Assim, quando os cancionistas fazem uma canção, eles são obrigados a justificar o lugar que eles ocupam e é a própria obra que vai justificar a condição e o poder enunciar.