Com base na história da Educação a Distância, item abordado no Capítulo 2, espera-se que esta seja uma forma mais barata de se oferecer educação. Porém, essa idéia vem sendo revista a partir do momento em que as regras vão sendo estabelecidas.
O uso de um AVA, a elaboração de material didático, o suporte para alunos e professores e até mesmo a implantação de pólos citada no Capítulo 2, estabelecem novos parâmetros para o envolvimento de investidores e participantes. Na medida em que a estrutura de funcionamento fica esclarecida para a sociedade, passam a ser analisados outros valores que estão agregados à iniciativa: adequação da metodologia às novas gerações, inclusão, democratização e otimização de tempo e espaço.
Com exceção do grupo de professores que não possui informações sobre o assunto, todos os participantes já mostram certo esclarecimento dos benefícios encontrados na implantação da modalidade. Segundo eles, o retorno financeiro deve ser bom em larga escala, pois a implantação é cara, ainda que a capacidade de se incorporar um maior número de alunos é um ganho. Eles justificam esse pensamento solicitando que sejam feitas contas do custo do funcionamento físico da instituição: metro quadrado construído, mobiliário, tecnologias, manutenção e outros. É uma estrutura cara para um espaço limitado de atuação. Observa-se a realização de uma análise envolvendo custo e benefício.
Você quer ver uma economia rápida que virá em retorno? Imagine a quantidade de combustível que você economizaria ao tratar sua sala de aula em casa. Imagine a quantidade de combustível economizada quando os 15.000 alunos não precisarem vir ao campus de carro ou ônibus retirando, inclusive, uns 10.000 veículos das ruas e das redondezas da instituição. Essa decisão passa a contemplar um beneficio social.
Nota-se que essa mudança pode ser focada para os bens que pode trazer à sociedade, ainda que, na visão de muitos, haja dois enfoques diferentes: a Educação a Distância, no ensino público, visa a inclusão geográfica, e a escola privada visa o mercado. Para essa segunda é uma questão de sobrevivência.
(i) Não ter EaD é perigoso. Porque você pode ter uma demanda interna ou externa muito forte e não pode correr o risco de não ter o suporte, até sobre o aspecto estratégico.
(ii) As outras instituições oferecerão, independente do modelo, se elas tiverem, e nós não: este será o diferencial.
(iii) Se a instituição não amadurecer quanto a isso, o ambiente externo irá amadurecer e vai cobrar dela. Tem que ter uma estrutura e tem que estar preparado para essa mudança.
É nítido que os professores já têm clareza na necessidade dessa evolução. As observações acima pertencem principalmente ao grupo que evita o contato com o assunto. Apesar do posicionamento que refuta o envolvimento no dia-a-dia, eles já percebem que a extensão da própria carreira está relacionada ao envolvimento.
(i) Os benefícios diretos são estratégicos, Não ter é um risco para a instituição, conseqüentemente é um risco para o professor.
(ii) Caso haja alguma necessidade de mudança e os professores tenham que iniciar o trabalho com EaD rapidamente, terão que se adaptar. As opções serão: ou se adapta ou se adapta.
É consenso de que a Educação a Distância está prestes a estourar e de que os riscos de não se adotar a modalidade não devem ser corridos pela instituição ou pelo professor. O prolongamento da carreira do docente relaciona-se diretamente à capacidade de adaptação a essa proposta metodológica.
Ainda que tenham clareza dos benefícios citados anteriormente, estes não foram os únicos elementos, relativos a custos, citados. O aumento do número de alunos por sala mostrou ser um fantasma ameaçador. Com exceção do grupo que já se encontra trabalhando, esse assunto gerou polêmica nas discussões. Faz-se importante lembrar que o grupo citado tem a informação que a instituição pesquisada determinou um número máximo de 40 alunos para a sala de aula virtual. Essa quantidade é menor do que a encontrada atualmente nas salas presenciais respaldadas pela solicitação de um atendimento individualizado solicitado pelo projeto da instituição. No entanto, os outros grupos desconhecem esses parâmetros e mostram sua preocupação:
(i) Dependendo do modelo adotado será um prejuízo financeiro, pois vou trabalhar mais para ganhar o mesmo tanto.
(ii) No ensino presencial, você vem àquela hora para tirar dúvidas dos alunos e, ao surgir uma questão, você responde; e estará respondendo a dez alunos ao mesmo tempo. Ao surgirem dúvidas na EaD, você acaba respondendo uma mesma pergunta dez vezes por ter que tratá-la individualmente.
(iii) Eu acho que a vantagem da EaD seria um professor conseguir alcançar um maior número de alunos. Em uma disciplina de 72 horas, em que teria 50 alunos, no EaD poderiam ser 200 alunos. Neste aspecto, isso é uma economia para a universidade”.
Na concepção desses professores sobre o assunto, o número de alunos aumenta e o ganho do professor diminui, pois não será possível dimensionar o trabalho desse profissional dentro de um sistema. Segundo eles, a instituição medirá o valor da disciplina por meio da necessidade de encontros presenciais. Ou seja, a disciplina que tiver mais encontros presenciais, valerá mais. O restante terá o mesmo valor pautado no mínimo que pode ser oferecido. Atente-se que esse posicionamento indica um descrédito dos profissionais da educação na administração escolar. De acordo com eles, a escola paga a hora/aula hoje para o professor e esse medidor desaparece quando não é possível comprovar fisicamente esse envolvimento. Entendem também que em uma sociedade capitalista, uma mudança dessa grandeza deve apresentar boas condições de ganho financeiro para sobreviver, e é esta a preocupação da instituição: sobrevivência.
A concorrência vem aumentando. Quando eu me formei, em 1999, eram seis faculdades de Educação Física em Minas Gerais. Hoje, 2008, são noventa e nove instituições. Somente na região metropolitana são dez faculdades com cursos de Educação Física.
Os professores mais antigos na casa acrescentaram que esse quadro ainda não atingiu a instituição, visto que o gráfico de evolução da universidade mostrou ter crescido nos últimos anos. Mas reconhecem a grande responsabilidade de adequação às necessidades desse mercado que têm pela frente e afirmam que esse investimento é como se ter uma “espada na cabeça”: ou se sai vivo e feliz ou não há sobreviventes.
Esse desafio permite que se levantem benefícios e dificultadores advindos do processo. O tempo foi apontado como um agente freqüentador dos dois lados da balança. Ele é visto como positivo quando é possível que o professor se beneficie dele para trabalhar em locais externos à escola.
(i) Mas a flexibilidade de tempo é realmente o maior benefício. Gosto de trabalhar de madrugada, pois é quando consigo render melhor. Quando vejo um aluno piscando ali no meio da noite... Ah... É uma maravilha!
(ii) A administração do próprio tempo. Isso facilita muito para as pessoas. (iii) Flexibilidade para trabalhar no horário que for melhor, podendo fazer
Esse valor encontrado passa desde a possibilidade demandada pela vida moderna, de se fazer mais coisa em menos tempo, até o conforto de se “trabalhar de pijama”. Ao mesmo tempo, se torna um problema quando deixam de existir os limites para a dedicação dele.
(i) Para mim essa flexibilidade é uma desvantagem. Acho complicado misturar os espaços. Prefiro tê-los separados: diversão, trabalho, descanso.
(ii) Deve-se ter cuidado com a flexibilidade. Apesar de ser uma vantagem, é preciso também ter controle do tempo para não se perder em diversas funções e assuntos. É necessário saber administrar o tempo para poder trabalhar de forma sadia. Senão acaba-se tomando outros tempos também preciosos. O grande prejuízo seria você permitir que esse trabalho tome todo o seu tempo por causa da organização. Talvez uma ilusão.
(iii) O tempo na EaD é uma questão de você tratar demandas diversas e saber garantir espaço para cada uma delas. A tendência é que isso seja exaustivo pois o fato de que o aluno entre no sistema a todo momento pressiona para que o professor também esteja constantemente conectado.
O desafio de autonomia na gestão do tempo surge para o professor e também para o aluno, ambos acostumados, por uma organização que impõe horários a organizar a vida de determinada maneira, o que não ocorre na EaD:
Na EaD o aluno organiza o próprio tempo mas hoje, da forma que trabalhamos, você obriga ao aluno ficar dentro de sala de aula das 7 às 10 e meia da noite. Ele tem que travar a vida dele, o ano inteiro, para isso. Com o ensino a distância o aluno se programa: quer tomar cerveja, assistir TV... ok, acesse o curso em horário diferente. Não há chamada. O importante é a qualidade do que você fez, independente de quando. Mas na educação presencial não, ele não vai tomar a cerveja mas nem por isso significa que ele esteja ouvindo o professor, apesar da presença física obrigada pela chamada.
Para alguns, o aluno é o maior beneficiado, pois encontra outras formas de aprendizagem, de buscar informações e acaba tendo maior disponibilidade do professor para suas necessidades, no tempo que lhe for oportuno.
Todos concordam que a Educação a Distância pode ser lucrativa para as instituições de ensino, desde que não entre em choque com a sociedade. Reforçam que, como toda mudança organizacional, esta deve ser gradual e consciente da estratégia de
marketing que diminuirá os impactos com a tradição e reforçará a modernidade como novas oportunidades de sucesso.
Trabalhar a educação com visão de mercado significa entender o contexto, a demanda, o público e as possibilidades que trarão vantagens para quem oferece e para quem procura. Ou seja, em primeira instância, entender o comportamento do cliente para desenvolver o perfil adequado do produto oferecido. Tal enfoque sugere a compreensão do aluno proveniente da geração tecnológica. No próximo tópico, apresentaremos as características desse aluno na visão dos professores.