Durante a pesquisa de campo um dos pontos que me chamou atenção foi a parte arquitetônica dos colégios. Ao visitar a escola Municipal Profª Carolina Rennó Ribeiro de Oliveira, constatei uma estrutura plana que favorece o acesso dos alunos a todos os ambientes, além de transparecer uma preocupação da direção com a adaptação do espaço físico, ao oferecer banheiros com barras e recentemente ter construído uma rampa na entrada do colégio.
Já na visita a escola Estadual Profº Norberto Alves Rodrigues foi possível verificar muitas escadas, deste a entrada do colégio até as salas de aula, tornando restrita a presença de alunos cadeirantes e assim prejudica a trajetória de alunos com dificuldade em se locomover, tanto permanente como transitória. É o caso de uma aluna que está com problema nos ossos, sendo preciso a mãe carregá-la nos braços até a sala de aula, conforme relato do coordenador desta escola.
A inadequação da estrutura dos prédios escolares fere a Constituição de 1988, pois consta a obrigatoriedade em adaptar os edifícios públicos a pessoas com deficiência, e reafirmado no Decreto Federal 5.296/04 que todo estabelecimento de ensino proporcione condições de acesso e utilização de todos os ambientes escolares, para as pessoas com deficiência.
Em relação à inclusão, todos os coordenadores e a maioria dos professores entrevistados reconhecem a necessidade da inclusão na educação regular, considerando relevante a socialização das crianças com deficiência entre as demais crianças. Os alunos que não tem deficiência no começo pode até estranhar por não estarem habituados a se relacionar com crianças especiais, mas com o tempo se interagem, passam a ajudar e até disputam a atenção dos alunos especiais. Com essa experiência as crianças trocam saberes e valores, conhecem e confrontam as diferenças existentes e aprendem a não ter preconceitos.
Os coordenadores mencionaram que nos últimos anos houve uma melhora no processo de inclusão, aumentou o número de matrículas de alunos com deficiência nas escolas. Um dos fatores engajadores neste crescimento inclusivo, foram os movimentos de Conferências Internacionais e a implantação da LDB em 1996, ambos atentos em priorizar o atendimento educacional especial, preferencialmente na rede educacional de ensino.
Apesar deste avanço, todos os coordenadores, professores da sala comum e professor da classe especial, concordam que a escola não está apropriada em receber estes alunos. Segundo os professores B e C a estrutura do sistema escolar hoje, ao invés de incluir, ela exclui estes alunos e prejudica seu desenvolvimento, pois os docentes não se consideram capacitados, existe um número excessivo de alunos na classe, no qual afetada a qualidade de ensino impossibilitando um atendimento direcionado e individualizado e existe também a ausência de materiais específicos para trabalhar com a inclusão.
De acordo com as entrevistas, constatei que as propostas do Ministério da Educação e da Secretarias Educacionais de São Paulo não atende as reais necessidades da escola neste processo de inclusão.
No colégio Municipal os professores têm o conhecimento da existência do CEFAI, mas não tiveram nenhum apoio e nem contato com a equipe do projeto, segundo relatos da coordenadora, a escola recebeu um aluno pesquisador enviado pelo CEFAI para auxiliar unicamente um aluno com Síndrome de Down, no entanto a escola tem no total seis alunos com deficiência, mas só um tem acompanhamento do aluno pesquisador.
Outro item importante mencionado pelo coordenador é a burocracia e a demora das entregas de cadeiras adaptadas aos alunos cadeirantes, que só chegaram no mês de outubro, próximo ao fim do ano letivo.
No colégio Estadual, a realidade não é muito diferente, os professores reclamam da falta de apoio, além de se sentirem abandonados. O profº D da sala especial relatou a ausência de envios de materiais pela Secretaria, pois os que já possuem estão obsoletos.
Os cursos oferecidos pelas Secretarias são inviáveis para os professores. O sistema não favorece a participação destes docentes, pois a grande maioria trabalha em dois turnos ou em duas escolas e não recebem dispensa para realização de tais cursos por não ter outro docente para substituição.
Um dos problemas evidenciados na sala de aula, foi a quantidade de alunos que demonstram ter alguma patologia, porém não possuem laudos. As escolas reclamam por não ter um lugar onde possam encaminhar essas crianças para serem diagnosticadas e terem um acompanhamento médico. Os postos de saúde próximos das casas não têm profissionais aptos para esse serviço, muito menos especialistas para realizar os tratamentos adequados.
Quando raramente se consegue um tratamento, algumas famílias alegam ser muito longe e não tem quem leve a criança, pois todos adultos trabalham.
Cinqüenta por cento dos entrevistados concordam com a necessidade dos alunos especiais terem um acompanhamento em instituições especializadas, onde acreditam ser possível realizar um trabalho mais individualizado e adequado a esses alunos. O profº D defende a existência da classe especial com o objetivo de preparar o aluno para a sala regular, especialmente nos casos de alunos com deficiência mais graves.
A participação dos pais e responsáveis no desenvolvimento escolar dos alunos, revelou ser baixa, só ocorre por parte de alguns e a grande maioria apenas se preocupa em acomodar os filhos no ambiente escolar, deixando de lado a aprendizagem. O profº A disse que os pais matriculam seus filhos por conta da obrigatoriedade imposta pela lei, mas com o tempo passam a reconhecer o desenvolvimento que a criança obtém na escola.
Existem famílias com dificuldades em aceitar o filho com deficiência e suas limitações, solicitam ao professor que cobre desta criança o mesmo nível de aprendizagem das demais ou o contrário, que o professor faça tudo pela criança, não solicite nenhuma atividade e nunca chame a atenção dela, que seja sempre considerada incapaz de realizar qualquer atividade sozinha.
Essa negação ou super proteção dos pais vem deste o processo da descoberta de que o filho é deficiente. Sendo esse um momento de luto, da perda do filho “perfeito”, no qual deixa de existir e no lugar dele há uma criança desconhecida, que precisa ser “descoberta”. È a hora de despedir-se do filho idealizado e adotar o filho real. Este período não é nada simples, pois estão envolvidos muitas fantasias de todos familiares. Se a família não consegue vivenciar esse processo, ela irá sempre negar ou passar a viver em função da deficiência, deixando de ver a criança que está ali.
Nessa situação o professor pode ajudar a família sempre que for possível ao demonstrar o que a criança pode ou não fazer por meio das atividades e comportamentos na sala de aula, desvendando aos poucos a criança para os pais. De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais para promoção da inclusão, as práticas pedagógicas deverão ser baseadas no currículo comum, porém adaptado as limitações dos alunos, promovendo adaptações nos objetivos, avaliações e materiais de recursos, de forma que os alunos com necessidades
especiais tenham a oportunidade de participar, envolver, aprender e trabalhar juntos com seus colegas da sala regular.
Nas escolas visitadas os coordenadores tentam empregar o conceito da adaptação curricular, mas somente o Profº D tem a facilidade fazê-lo. O Profº A usa materiais diferenciados como letras móveis e caderno de madeira. Os demais professores não utilizam nenhum método ou materiais diferentes, as exigências são de acordo com que eles consideram ser os limites da criança especial. Um dos comentários do coordenador do colégio Norberto foi que os professores não estão conseguindo fazer adaptações curriculares, só consideram na avaliação a socialização do aluno. Essa afirmação foi reafirmada na fala do profº C, ao dizer que o aluno especial é mais avaliado na parte social do que cognitiva.
As dificuldades encontradas pelos educadores de realizarem a adaptação curricular, avaliar e outras dificuldades no processo de inclusão é um reflexo da falta de qualificação dos educadores para essa nova proposta. Todos os professores, com exceção do Profº formado na habilitação de EDAC, se consideram despreparados.
O professor tem um papel fundamental na educação inclusiva, pois é ele o mediador e organizador do processo de ensino aprendizagem, deve identificar as necessidades de seus alunos e precisa ter domínio de um amplo conhecimento teórico para utilizar na prática, por isso a formação do educador é essencial.
Esta entrevista permitiu conferir se as propostas educacionais inclusivas estão sendo implantadas e eficientes nas escolas pesquisadas, possibilitou escutar as vantagens e dificuldades que os coordenadores e professores encontram no processo de inclusão e analisar suas práticas pedagógicas.