González Rey (2005, p. 87) afirma que: “toda pesquisa é um processo vivo em que se apresentam diversas dificuldades para as quais o pesquisador deve estar preparado e diante das quais deve tomar decisões que podem alterar o rumo da pesquisa”. Desta forma, o estudo vai sendo delineado e a pesquisa vai sendo construída consideradas as suas peculiaridades e as
situações concretas. O presente estudo foi edificado com base nesta proposição, levando-se em conta as possibilidades para sua realização e para a efetivação de cada etapa proposta.
O instrumento utilizado para a construção dos dados desta pesquisa visando alcançar os objetivos geral e específicos do estudo foi a entrevista aberta, definida por Bogdan e Biklen (1994) como “entrevista muito aberta” (p. 135). Neste tipo de ferramenta da pesquisa qualitativa o entrevistador encoraja o respondente a falar sobre determinado tema, explorando-o de forma mais aprofundada por meio da retomada dos tópicos e dos assuntos iniciados pelo entrevistado, que desempenha um papel essencial na demarcação do teor da entrevista e no direcionamento do estudo (Bogdan & Biklen, 1994).
Bogdan e Biklen (1994) recomendam que, quando uma entrevista for longa, seja gravada, por ser difícil captá-la em sua completude, embora muitos confiem na memória e nas anotações feitas durante a conversa. É recomendável que, em se tratando da técnica principal utilizada para o estudo, que o gravador seja utilizado e que sejam realizadas as transcrições, pois compõem os “principais dados” (p. 172) de estudos que se utilizam deste instrumento.
Meihy (1998) define que a transcrição possui uma última etapa, que é a transcriação. De acordo com ele, nesta etapa recria-se o texto, evocando-se fundamentos e pressupostos da tradução. Há uma interferência do autor no texto no sentido de refazê-lo: “A transcriação corresponde à finalização do texto, a sua versão pronta. Nos casos de análises complementares do projeto, em particular para as citações, é sobre essa versão que deve ser assumida a entrevista” (Meihy, 1998, p. 67-68).
Seguindo os pressupostos teóricos sobre transcrição e transcriação de Meihy (1998), os trechos das entrevistas escolhidos para compor o corpus de análise desta pesquisa foram transcriados, mantendo-se a fidelidade em relação ao discurso dos entrevistados, na intenção de transformar a narrativa oral para a linguagem escrita de uma maneira apropriada para a leitura, buscando-se a eliminação de sons, gaguejos e termos repetidamente utilizados como
“né”, por exemplo, recriando a transcrição das entrevistas, que é feita considerando-se a fala literal dos sujeitos.
As pessoas escolhidas para serem entrevistadas com a finalidade de responder às perguntas que esta pesquisa nos coloca foram educadores que tivessem reprovado alunos e estudantes que já tivessem vivenciado a reprovação no contexto do Ensino Superior, considerando-se que tal reprovação devesse ter ocorrido no ano anterior ao da entrevista para que os sujeitos fossem considerados participantes dentro dos critérios estabelecidos inicialmente. Não foram escolhidas pessoas cuja reprovação tivesse ocorrido há um tempo superior a este período delimitado de um ano porque se buscou a possibilidade de entrar em contato com informações e detalhes vivenciados pelos sujeitos recentemente, pois com o passar de longas datas muitos pormenores poderiam ser esquecidos por eles e, portanto, não citados nas entrevistas.
González Rey (2005, p. 84), ao tratar da temática da pesquisa qualitativa, faz uma afirmação importante, considerada na execução da presente pesquisa, de que
a criação do cenário de pesquisa é também uma necessidade de trabalho com sujeitos individuais, os quais devem ser informados sobre a pesquisa e consultados em relação a sua disponibilidade para os diversos momentos e instrumentos que nela serão usados.
Desta forma, considerando-se os preceitos éticos da pesquisa com seres humanos, foi apresentado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndice A) aos sujeitos que concordaram em participar da investigação, com o objetivo de que eles pudessem conscientizar-se dos aspectos que a envolviam e, estando de acordo, assiná-lo, efetivando assim sua colaboração.
Participaram desta pesquisa professores e estudantes da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) que vivenciaram o processo de reprovação em suas respectivas funções
docentes e discentes. Não nos foi informado se os alunos e professores selecionados como participantes deste estudo tiveram contato entre si no contexto educacional, não sendo este um critério para inclusão na pesquisa. Portanto, o motivo de escolha de determinado docente para que fosse entrevistado não se deve ao fato de já ter reprovado determinado discente que também tenha sido entrevistado (e vice-versa), porque esta pesquisa não usou como metodologia o estudo de caso.
Foram pensadas, inicialmente, algumas formas principais de selecionar os sujeitos voluntários a serem entrevistados. Uma delas seria o contato com as coordenações dos cursos da UFU. Caso necessário seria feito contato(s) com as coordenações de cursos visando à identificação de alunos que tivessem sido reprovados no ano anterior ao da realização das entrevistas, bem como de professores que tivessem reprovado estudantes também no ano anterior. Esta equipe de pesquisa entraria em contato com os sujeitos disponibilizados pelas coordenações de curso, convidando-os para a participação no estudo.
Outra forma de conseguir voluntários que pudessem participar da pesquisa respondendo à entrevista seria o contato com conhecidos do pesquisador e colegas destes, que poderiam participar desta investigação por vivenciarem a situação descrita acima e se enquadrarem nos critérios de inclusão na pesquisa ou pudessem indicar conhecidos seus para tal participação. Além destas duas formas, caso necessário, haveria ainda a possibilidade de que cartazes fossem afixados na Universidade Federal de Uberlândia anunciando o estudo e solicitando que os interessados entrassem em contato pelo e-mail e/ou telefone disponibilizado no mesmo. A forma inicial e mais viável, porém, seria a de procurar a indicação dos discentes e docentes para compor o grupo de entrevistados por meio da indicação de colegas e de conhecidos.
Tal forma inicial de selecionar sujeitos mostrou-se adequada para os objetivos da pesquisa e, assim, foram descartados os outros modos pensados primeiramente. Portanto,
todos os entrevistados foram contatados por meio da segunda opção supracitada, ou seja, a de contato com conhecidos e colegas que pudessem participar da pesquisa ou que pudessem indicar colegas para a participação. Cabe ressaltar que os sujeitos foram indicados por diferentes pessoas, não compondo um grupo restrito de entrevistados; pelo contrário, participaram das entrevistas pessoas de grupos distintos, compondo um quadro heterogêneo de colaboradores.
Dentre os professores apontados, um deles, mencionado pelo estudante que o indicara como o docente que mais reprovava alunos em seu curso, não se disponibilizou a participar da pesquisa. Outra situação provocada por esta investigação ocorreu após o encerramento das entrevistas, devido à saturação dos dados (Bogdan & Biklen, 1994), quando surgiu ainda um educador disposto à participação na pesquisa. Neste caso, agradecemos o interesse e explicamos o momento de finalização em que o estudo se encontrava.
Após o contato inicial com os participantes por e-mail e/ou telefone, foram agendados dias e horários em salas previamente reservadas no Instituto de Psicologia localizado no Campus Umuarama. A escolha pelo Campus foi facultada aos entrevistados, conforme proximidade de sua residência e/ou conveniência para os mesmos. Assim, algumas entrevistas foram realizadas em salas do Campus Santa Mônica, por escolha dos próprios participantes. Todas foram realizadas em locais sigilosos visando que o sujeito entrevistado ficasse à vontade para falar sobre as informações que julgasse pertinentes e que o sigilo pudesse ser garantido. Alguns contatos foram realizados por e-mails, outros por telefone; em algumas ocasiões utilizaram-se ambas as formas de comunicação. Todos compareceram aos locais e horários agendados para que as entrevistas fossem realizadas e nenhum problema metodológico e de ordem pessoal foi identificado durante as entrevistas.
Foram realizadas as entrevistas consideradas necessárias com docentes e discentes para que houvesse material suficiente para uma análise consistente dos dados, condição
nomeada por Bogdan e Biklen (1994) como saturação dos dados. Na presente pesquisa, esta condição foi alcançada com cinco estudantes e cinco professores. Os detalhes relativos às entrevistas encontram-se descritos no campo referente à análise dos dados, a saber, nos capítulos 6, 7 e 8.
Os estudantes que se apresentaram como voluntários para a participação nesta pesquisa são de diferentes áreas do conhecimento, não sendo esta uma escolha proposital da equipe executora. Entende-se que a epistemologia qualitativa não se pauta pela questão da amostragem e refuta a noção de que devam ser coletados dados de diferentes cursos com a finalidade de comparação e generalização, o que não compreende o objetivo desta pesquisa e da metodologia escolhida.
Foram entrevistados, portanto, alunos de cursos distintos. Quanto aos professores, houve entrevista com dois docentes de um mesmo curso, sendo todos os outros de diferentes cursos porque foram os que se disponibilizaram enquanto a pesquisa ainda estava na etapa das entrevistas.
As entrevistas iniciaram-se com uma questão referente à reprovação direcionada aos alunos que tivessem sido reprovados em alguma disciplina no semestre anterior ao da entrevista e aos professores que tivessem tido aluno(s) reprovado(s) no referido semestre letivo. A questão desencadeadora da conversa de entrevista foi uma solicitação de que os entrevistados falassem sobre a reprovação vivenciada. Existiram, porém, alguns temas que, de antemão, foram elencados como necessários a serem contemplados na fala dos entrevistados e foram, portanto, trabalhados durante as conversas de entrevistas.
Tais temáticas foram evidenciadas em dois roteiros (Apêndices B e C) e, caso não fossem assuntos sobre os quais os sujeitos de pesquisa comentassem naturalmente durante o encontro, eram abordados pelo entrevistador durante a conversa investigativa21. A pergunta
21 Termo utilizado para referir-se à entrevista. Este termo foi elaborado considerando a forma como as
de número 1, nos roteiros, refere-se ao tema central abordado inicialmente pelo pesquisador, enquanto as outras questões referem-se aos temas supracitados, a serem abarcado durante as conversas. Todos esses pontos foram abordados nas entrevistas realizadas durante a investigação, que foram gravadas em áudio, cuidadosamente transcritas e analisadas.