“O ano já é novo e a estação, a nossa preferida. Não podia haver melhor ocasião para o lançamento de Sui Generis. Em clima de verão e de recomeço, a primeira edição quer ser um convite para você, leitor, entrar nesses novos tempos que os anos 90 tão bem
anunciaram”35
. É com este discurso otimista que se apresentava editorialmente a chegada de uma nova revista ao mercado jornalístico brasileiro.
Sui Generis é uma expressão que investe numa imagem (de si) como algo singular. Não que não houvesse no país, na época, publicações de cunho noticioso/informativo endereçadas a leitores que se identificassem como gays e lésbicas. Eram, contudo, iniciativas pontuais, com tiragens bastante restritas e formatos próximos de boletins ou de pequenos jornais, circulando em circuitos mais especializados como organizações não-governamentais gays e lésbicas de enfrentamento à epidemia do HIV-Aids ou ligadas aos campos dos direitos sexuais e humanos, ou ainda distribuídas gratuitamente em bares, clubes noturnos e saunas. É o caso de Nós, por exemplo, publicada entre 1991 e 1995, com tiragens entre 500 e dois mil exemplares, e ENT&, publicado entre 1994 e 1995, ambos sediados na cidade do Rio de Janeiro36. Sui Generis, porém, nasce buscando como uma de suas referências revistas gays de circulação norte-americana e europeias37, com tiragem relativamente expressiva (estimada, em média, entre 25 e 30 mil exemplares), apresentando- se sob a rubrica “cultura, moda, comportamento, política & entretenimento” e reivindicando para si a posição de “primeira revista brasileira a trazer discernimentos sérios e futilidades chics dirigidas para homens e mulheres gays”38.
35
Sui Generis, Editorial. Ano 1, n. 1, jan 1995, p. 4.
36 Os dois jornais foram objeto de análise específica de Rodrigues (2010). Sobre o Nós, por exemplo, o autor
destaca que era destinado a um “público leitor majoritariamente masculino, letrado e ativista” (p. 128). Sobre o ENT&, ressalta que este foi pensado para “homens entre 20 e 40 anos, que tivessem uma aparência e comportamento masculino; também pessoas antenadas com os acontecimentos globalizados, (…) que fossem militantes mas nem tanto”. A brevidade de sua circulação, de acordo ainda com Rodrigues a partir de um diálogo com um dos editores do periódico, decorreria do fato de que o “ENT& veio fora de hora, não tendo sido acolhido pelos militantes gays e nem entendido pela maioria da comunidade gay, pois o jornal, que era feito como uma revista, se apresentava como jornal, dirigido a um público que era gay, mas que não se imaginava frequentando os ambientes gays. O ENT& se perdeu no meio das novidades e das conquistas que um grupo assumidamente gay, que frequentava os lugares gays e adotava uma postura gay, estava acumulando” (RODRIGUES, 2010, p. 131).
37 Nelson Feitosa, em depoimento a Rodrigues, destaca: “Comecei a receber revistas dessa natureza. Desse tipo
de revistas de conteúdo cultural e com jornalismo mais bem feito, mais profissional, sendo lançada lá fora, né? Consegui comprar aqui no Brasil, numa livraria de revistas importadas, a Attitude, que foi uma das primeiras revistas inglesas a serem lançadas nessa linha. Tinha conseguido uma edição da Out, que é uma revista norte-americana. E aí eu comecei a achar legal... E aí, conversando com o Zé... Nessa época, né? Isso era 1994... Não existia ainda essa popularização do computador que existe hoje, né? (Rodrigues, 2010, p. 138). Viterbo, por sua vez, a partir do relato colhido por Flávia Péret: “'Um dia saiu uma matéria bacana na coluna da Maria Caballero, do jornal O Globo, falando de uma revista gay que seria lançada nos Estados Unidos. De fato, essa revista nunca foi lançada, mas a noticia contava um pouco a história da revista OUT. Nós nunca tínhamos escutado falar que essas coisas existiam. O Nelson leu aquilo e ficou fascinado. Ele falou: 'Poxa, podia fazer um negócio assim, podia fazer um negócio assim'. Pouco tempo depois, em 1994, Feitosa e Viterbo viajaram para os Estados Unidos. Voltaram para o Rio com diversas publicações dirigidas ao público homossexual, norte-americanas e europeias, e o desejo de criar uma revista gay no Brasil” (PÉRET, 2011, p. 86).
A combinação entre “discernimentos sérios” e “futilidades chics”, atrelada ainda à proposta de oferecer “um jornalismo de qualidade” (expressões utilizadas no editorial de estreia), sugerem que a revista buscava costurar um público leitor que não ficasse restrito apenas ao universo de “militância” gay da época, mas que tinha interesse em “política”; ao mesmo tempo, e como o título da revista também procurava diferenciar, que se reconhecesse e reconhecesse a publicação como sofisticada (“chic”), de poder aquisitivo relativamente alto39, “moderna”, consumidora de moda e frequentadora de festas e casas noturnas, interessada em literatura, cinema, música e teatro40.
Assim, Sui Generis, comandada por Nelson Feitosa (Editor) e José Viterbo
39
O exemplar de Sui Generis foi lançado com o preço de R$ 5,50. Na última edição, custava R$ 5,90. Este último valor, corrigido para os dias atuais segundo o índice IPCA-Geral, equivale a R$ 13,86. É próximo ao valor cobrado atualmente pela revista Junior (R$ 14,00).
40 É interessante perceber os modos diversos e estratégicos de como os jornalistas de Sui Generis vão situar a
questão da “militância”, particularmente na construção do perfil editorial da revista, e de como avaliam a figura do editor e proprietário da revista. A editora Roni Filgueiras utiliza-se da expressão “militante” para contextualizar o seu ingresso na revista, relativizando-a. Emerge no seu discurso, assim, outras noções estratégicas para avaliar sua atuação na revista, como “simpatizante” (a editora apresentou-se como heterossexual) e apoio ou alinhamento editorial a uma “causa gay”: “[A Sui Generis] era muito interessante porque congregava pessoas dos mais diferentes naipes, do intelectual a... Eu era simpatizante, eu entrei lá pelo seguinte: o Nelson precisava de alguém que não fosse necessariamente militante, mas que fosse um bom profissional de jornalismo. Foi o que me levou. Logicamente que eu era, sou e sempre serei uma simpatizante da causa”. Em outra passagem da entrevista, refletindo sobre o jornalismo praticado na revista e a especificidade do público leitor, diz: “Olha, jornalismo é jornalismo. Claro, tinha que ter um gancho jornalístico, uma peça de teatro ou um livro que discutia a causa, um filme que discutia isso, uma exposição... O trato da coisa não diferenciava muito de um jornal que queria tratar de determinado fato ou produto cultural, mas lógico que tem que ter especificidade. Então, o que a gente queria tratar: da causa gay. Agora, o trato disso era rigorosamente igual a qualquer tipo de jornal, sei lá, que tenha um trade, como turismo, feminino, gastronomia...”. Sobre o editor, ela pondera: “O Nelson era bem militante, mas via isso como um nicho de mercado. Nicho de mercado que estava para ser explorado, de se investir. Não existia um produto para eles, um produto como uma revista, até então. Tinha revista de nu”. (Entrevista ao autor em 21 nov 2011).
Já a editoria Heloiza Gomes recorre em mais de uma ocasião à expressão militância para avaliar a linha editorial da revista e de sua passagem pela publicação, comparando-a com outra experiência profissional, no “jornalismo sindical”: “Não era aquela militância rançosa. Tenho muito orgulho de participar, folheando assim a revista, bateu saudade. A gente falava de livros, teatro, cinema, competindo com uma revista [G Magazine] que veio com o nu” (Entrevista ao autor em 21 nov 2011). Comparando com o seu trabalho anterior, afirma: “No jornalismo sindical, é uma militância 24 horas. Ali não era. Eu era a única hétero na redação, naquele momento... Como o Nelson não era militante... Mas não era fechado aos olhos dele, ele lia muito, mas não era um cara militante... E quando alguém quis que a revista tomasse esse rumo [de “militância”], ele brecou. O Nelson entendia o papel de Sui Generis, abria espaço, mas 'isso aqui não é uma revista para o Sindicato dos Homossexuais, é uma revista para um público gay, elegante'. Na redação, eram todos inteligentes, politizados e tal, ninguém ali era um enganado. Mas não eram militantes, e faz toda a diferença”. Ela também usa a expressão “causa gay”, dizendo que a passagem pela revista permitiu “desenvolver um olhar de causa gay” (Entrevista ao autor em 21 nov 2011).
O jornalista Gilberto Scofield Jr, que nos primeiros exemplares manteve a coluna Contraponto, que mesclava notícias sobre o ativismo local e estrangeiro com notas sobre as cenas gays de grandes centros urbanos internacionais, comenta: “O que precisava ser apurado na coluna, era apurado. Mas tinha muita coisa mesmo de rede de amigos, viu, de ouvir falar, de ler as coisas, de opinião minha. Inclusive, foi com essa coluna que passei a ter mais contato com a militância. Que era uma coisa que eu via de longe (…) [Os militantes] Procuravam para divulgar, mandavam cartas, sugestões, ligavam. Era uma via de mão dupla. (Entrevista ao autor em 10 mai 2011).
(Diretor Geral), além da colaboração de Marcos Pulga (Diretor Financeiro), nascia instalada num pequeno sobrado na rua Santa Clara, uma das principais vias do bairro de Copacabana, Zona Sul da capital fluminense. Roni Filgueiras descreve o local do seguinte modo: “Era interessante, porque não era só uma redação, era quase um 'bunker' de resistência. As pessoas passavam para tomar café, paravam no caminho para a praia, era um point. Era uma casinha, às vezes parecia mais um consultório sentimental”41
. Já a visão de Heloiza Gomes era a de uma “redação comum”: “Alguns leitores ligavam, mandavam e-mail, dizendo que o sonho era conhecer a Sui Generis. Um leitor da Bahia até veio visitar. As pessoas fantasiavam muito. Era uma redação pequena, totalmente comum. A única diferença era essa [ser para um público gay]”42
.
A equipe era reduzida43, e o trio tinha como expectativa lançar no mercado editorial uma revista voltada para uma audiência “gay e lésbica”, que se distanciasse de uma associação a títulos não-profissionais que veiculavam fotos de nu44, aproximando-se assim de um modelo de revista “gay” informativa, de entretenimento e lazer. Como declara o colaborador Gilberto Scofield Jr (responsável inicialmente pela coluna Contraponto, que mesclava notas sobre o ativismo local e estrangeiro com notícias sobre as cenas gays de grandes centros urbanos internacionais), criou-se ao longo dos meses uma expectativa sobre o aparecimento da revista, particularmente no circuito dos jornalistas:
Teve um coquetel de lançamento no Museu de Belas Artes. Foi muito divertido, criou-se uma expectativa porque o meio jornalístico é um meio muito gay friendly, de um modo geral. Então, eu saía comentando que ia sair uma revista assim e assim... No fundo, as colunas começaram a dar notinhas, dizendo que a revista ia acontecer, que seria a primeira revista moderna voltada para o público gay. E aí foi bastante gente, muito jornalista, no lançamento. A gente tinha esperança de que fosse
41 (Entrevista ao autor em 21 nov 2011). No último ano, quando a revista estava em crise financeira, a editora
de Sui Generis, que funcionava no mesmo sobrado da redação da revista, em Copacabana, mudou-se para o centro do Rio.
42
Entrevista ao autor em 21 nov 2011.
43 Nos primeiros exemplares, a redação de Sui Generis era composta basicamente por um editor (Nelson
Feitosa), um editor-assistente (Gilberto Scofield), um diagramador (José Vitor Souza), um ilustrador e produtores dos ensaios de moda. Uma parte significativa do do conteúdo era produzido por colaboradores e complementados por “correspondentes”. Ao longo dos anos, essa estrutura teve poucas alterações. Nelson permaneceu como editor e, posteriormente, foi incorporada a função de “editor adjunto”, exercida a partir do número 24 por Roni Filgueiras. Um novo rearranjo situou Feitosa como “diretor de redação”, compondo ainda a redação as figuras do(a) editor(a), editor de moda e beleza, repórteres, estagiários, colaboradores e colunistas. No último exemplar (ed. 55, mar 2000), as funções eram apresentadas do seguinte modo: “diretor de redação” (Nelson Feitosa), coordenador de redação (José Viterbo F.), editora adjunta (Heloiza Gomes), editor de moda e beleza (Rogério S) e uma lista de nomes que se dividiam em “redação”, “colunistas”, “colaboradores”, “fotógrafa”, “direção de arte”, “projeto gráfico” e “publicidade”.
44 É importante ressaltar que, dois anos após o lançamento de Sui Generis, G Magazine chega ao mercado,
também investindo em uma circulação nacional em bancas de revista e assinaturas, sem o caráter artesanal que marcavam publicações eróticas ou pornográficas, mas tendo como principal destaque a exibição do nu masculino, numa fórmula que se revelou bem sucedida comercialmente quando do seu lançamento.
uma coisa que causaria certo impacto, no sentido comportamental, de a revista ser referência na área para a literatura, para a produção de conteúdo para gays e lésbicas no Brasil, sob todos os aspectos, históricos e comportamentais45.
Como podemos situar esse otimismo que cercava Sui Generis? Além da circunstância de ser o verão a “nossa” (do editor, dos jornalistas da revista, dos potenciais leitores...) estação preferida, o que faria daquele momento uma “ocasião” propícia para o lançamento de um projeto com aquelas características? Que “novos tempos” eram aqueles, enfatizados em seu editorial e percebidos pela publicação como “bem anunciados” pelos “anos 90”?
Um dos modos de “reconstituí-lo”, mesmo que parcialmente, é situar o lançamento de Sui Generis num cenário mais amplo, de rearranjo nos circuitos de vivência das homossexualidades no Brasil, em que não apenas se reorganizavam os espaços tradicionais de atuação coletiva definidas geralmente pelo signo de “militância”, como se ampliavam segmentos ancorados na oferta de serviços e consumo a gays e lésbicas (com maior ênfase aos primeiros, notadamente os pertencentes a uma classe média e alta residente nos principais centros urbanos), em expansão no Brasil em meados dos anos 199046.
O ano em que Sui Generis chega às bancas de revista, 1995, pode ser considerado chave na história das reivindicações públicas dos sujeitos gays, lésbicas, bissexuais e transexuais no Brasil. Em junho, pela primeira vez uma cidade brasileira, o Rio de Janeiro, sedia a Conferência Internacional da ILGA47. Cinco meses antes, a cidade de Curitiba recebe simultaneamente o VIII Encontro Brasileiro de Gays e Lésbicas e o I Encontro de Gays e Lésbicas que Trabalham com Aids, eventos marcados ainda pela fundação da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Travestis e Transexuais (ABGLT). Como registram Simões e Facchini (2009, p. 144 e 145),
45
Entrevista ao autor em 10 mai 2011. 46
Há uma extensa bibliografia sobre estas esferas, suas relações e interdependências (PARKER, 2002; FRANÇA 2006, 2010; SIMÕES; FACCHINI, 2009, entre outros), cuja diversidade torna impossível citá-la em sua inteireza na medida em que constituti uma parte significativa do que tem sido definido como campo de estudos de sexualidade e gênero no Brasil das últimas duas ou três décadas. Optamos, assim, por privilegiar, mais especificamente no terceiro capítulo, os próprios discursos circulantes em Sui Generis como pontos de partida de análise. Mais do que recorrer a autores que embasem ou “contextualizem” as condições de emergência da revista, acredita-se numa leitura que se constrói, assim, no trânsito entre os discursos elaborados na revista, as entrevistas realizadas com seus jornalistas, e as contribuições dos “achados” das investigações de pesquisadores nesta área.
47
Associação Internacional de Gays e Lésbicas, fundada na Inglaterra, no final dos anos 1970. Reunia associações da Europa, Estados Unidos e Austrália, com o objetivo de “maximizar a efetividade das organizações gays por meio de uma ação política coordenada em busca dos direitos gays”. Uma cronologia de suas atividades, e as diretrizes atuais de seu estatuto, podem ser encontradas no sítio da instituição. Disponível em : <http://ilga.org/ilga/en/article/mG6UVpR17x>. Acesso em 15 abr 2013.
O VIII Encontro foi o primeiro a ser financiado com recursos do Ministério da Saúde, e que reservava uma parte específica para a discussão de questões ligadas ao HIV-Aids, registrando um recorde de número de grupos, com presença de 84 entidades, entre elas 34 grupos gays ou mistos, três grupos exclusivamente lésbicos e três grupos de travestis. Realizaram-se 26 oficinas e grupos de trabalho sobre temas variados […] A Conferência da ILGA realizada no Rio (a 17ª de sua história) contou com cerca de 1.200 participantes. A lista de recursos obtidos por esses eventos é ilustrativa da dimensão atingida pelas conexões do movimento. Segundo os registros no Guia Oficial da Conferência, houve apoio do Ministério da Saúde, por meio do Programa Nacional de DST e Aids; da Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro, por meio da Divisão de Controle de DST e Aids; dos sindicatos dos Bancários e Previdenciários, ambos do Rio, e dos trabalhadores na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFRJ; de duas ONGs internacionais ligadas à temática dos direitos humanos; de quatro empresas privadas e de quatro associações brasileiras: a ABIA e o Grupo pela VIDDA (ONGs-Aids sediadas no Rio); o Grupo Gay da Bahia (GGB) e o grupo Dignidade. Durante a conferência, aconteceu a primeira Parada do Orgulho LGBT celebrada no Brasil.
Como é possível destacar a partir da análise dos autores, o modo como se financiou o evento da ILGA sinaliza como, em meados da década de 1990, o ativismo gay e lésbico (e em menor escala, travesti e transexual) estabelecia novas conexões com outros setores sociais. Os autores sugerem que, a partir daquela década, intensificam-se as relações entre uma “militância” (tradicionalmente tendo à frente ONGs e associações) e o “mercado”. Privilegiando uma periodização histórica centrada na “trajetória do movimento politico em torno da homossexualidade no Brasil”, eles classificam este recorte que se estende da última década do século XX ao presente como uma “terceira onda”.
O final dos anos 1970 e a primeira metade da década seguinte representariam a “primeira onda”, período em que os primeiros coletivos de “homens e mulheres homossexuais” começavam a se organizar, no cenário dos últimos anos do regime militar e o início do processo de redemocratização. A “segunda onda”, por sua vez, abrange a “redemocratização dos anos 1980 e a mobilização em torno da Assembleia Constituinte, que coincidem com a eclosão da epidemia do HIV-Aids, quando se desenharam as condições de institucionalização do movimento” (Simões e Facchini, 2009, p. 14). Já a “terceira onda” delineia-se
a partir de meados dos anos 1990, em que a parceria com o Estado, gestada no período anterior, se consolida e dá impulso à multiplicação de grupos ativistas, promovendo a diversificação dos vários sujeitos do movimento na atual designação LGBT, a formação das atuais grandes redes regionais e nacionais de organizações, e a consagração das Paradas do Orgulho LGBT, paralelamente ao crescimento do mercado segmentado voltado à homossexualidade” (SIMÕES; FACCHINI, 2009, p. 14)
duas décadas. França (2006), por exemplo, considera que na década de 1990 “o que se conhecia como 'gueto' transformou-se num mercado mais sólido, expandindo-se de uma base territorial mais ou menos definida para uma pluralidade de iniciativas” (p. 2). Se o “gueto” homossexual nos centros urbanos brasileiros estruturava-se principalmente nas casas noturnas ou nas saunas como espaços principais de sociabilidade48, entravam em cena novos estabelecimentos, espaços de consumo e canais de informação, num mercado que passou a se rotular como “GLS”, ou seja, direcionado a gays e lésbicas mas que demonstrasse abertura aos “simpatizantes” que não fossem ou não quisessem ser reconhecidos como “homossexuais”: “festivais de cinema, agências de turismo, livrarias, programas de televisão e até mesmo um canal a cabo, inúmeros sites, lojas de roupa” (Ibid.).
Como observa a autora, isto envolvia “também o estabelecimento de uma mídia segmentada”, em que revistas como G Magazine e Sui Generis alcançaram “visibilidade e
alcance” distintos de outras publicações que surgiram na década de 1980, logo após o fechamento do Lampião da Esquina. Particularmente sobre a Sui Generis, França (2006, p. 66) destaca: “investia numa apresentação visual sofisticada, com ensaios de moda, artigos sobre as novidades do cenário cultural e comportamento e entrevistas bastante detalhadas com personagens ligados de alguma forma à homossexualidade”.
Parker (2002), por sua vez, enxerga nos anos 1990 o desenvolvimento de um “circuito gay”, caracterizado pelo “surgimento de uma variedade de estabelecimentos comerciais que concentram não apenas os encontros sexuais eventuais, mas também um tipo mais abrangente de sociabilidade gay” (p. 119). Para o autor,
uma indústria do entretenimento enraizada na subcultura gay mas que se estende além dela e adquire um certo apelo cult junto a hetero progressistas (ou ousados), turistas estrangeiros e semelhantes se desenvolveu como parte de toda uma indústria do entretenimento no Brasil, e filmes, peças teatrais e outras obras de arte que lidam com a homossexualidade ou desenvolvem temas gays têm estado no centro da atividade e da atenção culturais. Devido a este leque crescente de empreendimentos culturais e comerciais construídos em torno de concepções de homoerotismo, homossexualidade e, cada vez mais, identidade gay, talvez não tenha sido surpresa o fato de que em meados da década de 1990 começou-se a falar, nos noticiários e nos circuitos e redes gays, no que estava sendo descrito como um “mercado gay”