A universidade destaca-se no panorama das burocracias científicas, culturais e artísticas pela peculiaridade de ser a única instituição em que todos os campos do saber se confrontam em bases cotidianas e por isso, o lugar social em que deverá se definir a forma comum de subsunção do trabalho intelectual concreto por sua transmutação em trabalho abstrato. Nessa perspectiva, Couto (2005) esclarece que
no contexto quantitativista, resta ao intelectual clássico aderir à nova ordem ou aparecer como improdutivo. Improdutivo relativo, é preciso desde logo ressaltar, porque um indivíduo, ainda que muito capaz e fecundo, dificilmente pode competir em quantidade com a produção de quem controla um grupo e potencializa sua própria legitimidade cultural numa autêntica acumulação de capital simbólico, base doravante necessária para posições privilegiadas na negociação de contratos de pesquisa com o governo e com o capital e mediação simbólica necessária para possíveis ganhos econômicos. Eventualmente, o trabalho nas duas formas de produção não está atualmente excluído e pode servir como válvula de escape às tensões políticas geradas nesta fase de implantação da nova ordem produtiva, ou, em qualquer tempo, como a possibilidade sempre aberta de contestação.
Quando se valorizam apenas os aspectos quantitativos da produção intelectual docente, esse processo mantém uma sobrevida intelectualmente injustificada nas linhas de pesquisa crescentemente estéreis, mas que precisam ser mantidas pelo empresário intelectual por
estarem associadas ao seu nome próprio e haver a possibilidade de não se darem as condições epistemológicas ou políticas necessárias para que ele conduza algum tipo de transição, mantendo simultaneamente o controle do processo. Nesse caso, Couto (2005) afirma que
aumentam-se, então, os entraves políticos a mudanças social ou intelectualmente necessárias, pois, claro, podemos sempre contar com o engenho dos intelectuais altamente legitimados para justificar a necessidade de mais uma pesquisa na direção já prevista anteriormente, porque desta dependeria a solução dos problemas que até aqui resistiram ao enquadre necessário. Se esse já for o caso em inúmeras situações da ciência normal, a situação do trabalho coletivizado exacerba o problema em termos intelectuais, sociais e financeiros. A produção tende, neste caso, a se tornar crescentemente volumosa e estéril, mas sendo bem avaliada porque quantitativamente relevante.
O produtivismo que assaltou as avaliações acadêmicas – por detrás de sua fachada democrática, igualitária e incentivadora do bom uso dos recursos públicos – é um sintoma da nova ordem. Esta, apóia-se em duplo efeito da mudança nas regras de avaliação. Primeiro, o quantitativismo é a melhor forma de impulsionar a subsunção de docentes e discentes juniores ao alto clero, já que aqueles, por sua posição inicial na carreira, ainda que competentes e promissores, freqüentemente não poderão competir com a alta “produtividade” exigida como “garantia” de produção. Resta-lhes aceitar a participação subordinada se quiserem trabalhar. Segundo, estabelece as bases do círculo vicioso de critérios definidos pelo próprio alto clero, que a eles próprios beneficia, pois, na medida em que controlam e participam da autoria de trabalhos do “seu” grupo, são os usufrutuários das relações acadêmicas de produção, capazes, portanto, de potenciar sua própria possibilidade de apresentar-se legitimamente como os mais produtivos.
A expropriação do trabalho intelectual não se faz sem mediações que não comparecem nas típicas relações industriais de produção. Na verdade, para se entender a lógica da crescente subordinação do trabalho júnior nas equipes de pesquisa, segundo Couto (2005), é preciso estar atento a uma pequena distinção feita por Marx no “Capítulo VI”, inédito, de O Capital,
em que explicita que capitalista é o proprietário ou usufrutuário das relações sociais de produção. Nisso se transformou parte daqueles que integram o alto clero da academia aos quais devemos chamar empresário intelectual por oposição ao já conhecido empresário cultural. Este obtém seu lucro organizando e vendendo o produto do trabalho intelectual da forma como o encontra produzido. Aquele, conhecendo tecnicamente o
trabalho, reorganiza-o, obtém o financiamento e divulga o produto nas instâncias acadêmicas de legitimação dos resultados e, nesse processo, apropria-se pessoalmente do reconhecimento social pelo trabalho socialmente produzido. Como o reconhecimento, evidenciado pelas comprovações que necessariamente acompanham os curricula vitae, é parte do pagamento pelo trabalho intelectual e aquela parte que o diferencia do trabalho manual, sua expropriação equivale à mais-valia típica desse tipo de trabalho.
Sob essa ótica, os professores poderiam ser comparados a gestores de empresas privadas, tendo de ‘bater’ metas de produtividade, uma vez que são ‘controlados’ e ‘monitorados’ para o alcance delas. São, para tanto, adotados indicadores de capacidade intelectual, como número de trabalhos publicados e titulação formal sem qualquer análise minimamente consistente dos seus conteúdos. Estamos no reino da reificação dos títulos. Os critérios deixam de ser
qualitativos e se transformam em quantitativos. (ibid, 2005). O empresário intelectual,
independentemente de sua participação concreta nos andamentos do trabalho, acaba por receber reconhecimento pela produção intelectual propriamente dita, tendo freqüentemente apenas intermediado a obtenção do financiamento ou a negociação de seu tema, objetivos e cronograma.
A avaliação que pretende medir a produtividade pelas quantidades de produtos ou a eficiência do ensino mediante testes objetivos não dá conta da riqueza e da complexidade das relações da vida universitária. Os seus procedimentos quantitativos são estáticos e não apreendem os movimentos relacionais e contraditórios da sociedade dessa instituição peculiar. Por outro lado, a avaliação democrática e participativa é portadora de uma teoria e de uma prática transformadora e de melhoria da qualidade do trabalho e dos processos educativos em seu conjunto. Mediante a orientação formativa e qualitativa e “através de um processo coletivo, da comunidade interna e membros externos, de análise e reflexão, a universidade se reconhece e revigora a institucionalização de seus princípios fundantes.” (DIAS SOBRINHO, 1994). Não se trata de contrapor os termos quantidade x qualidade. A contraposição somente seria
possível entre uma quantidade e outra quantidade, entre certa qualidade e outra qualidade
(GRAMSCI, 1978, p. 54). A avaliação tem uma dimensão objetiva e prática, relativamente ao que deve ser medido, controlado, observado e também ao que pode ser projetado para o futuro na forma de metas e propostas de trabalho que visem a uma determinada transformação. Portanto, não há como negar a força da realidade e até mesmo a precedência da quantidade, em termos metodológicos. “Trabalhar sobre a quantidade, significa que se quer pôr o
problema qualitativo na maneira mais concreta e realística.” (GRAMSCI, 1978, p. 55).
Quantidade e qualidade são incindíveis. Então, é preciso evitar a hipóstase qualitativista, que é uma abstração arbitrária, e o quantitativismo ou a “quantofrenia” que quer reduzir a realidade a números sem reconhecer que toda matéria é socialmente organizada e, portanto, socialmente significada. A qualidade das quantidades deve emergir de modo organizado, como produção social, através da reflexão, da comunicação e das distinções metodológicas que permitem transformar “uma soma de dados factuais ou cifras em uma produção de informações úteis para a ação” (ABALLÉA, 1989). A abordagem qualitativa, que organiza os sentidos da realidade enquanto processo coletivo e participativo, resgata a dimensão pedagógica e formativa da avaliação. Vista dessa forma, a avaliação é também um exercício de construção da universidade democrática e da cidadania ativa.
Como afirma Trindade et al. (2001), a avaliação participativa e proativa, que assegura os critérios e os procedimentos públicos e sociais da vida universitária, é um instrumento crítico poderoso contra a tendência de transformação da universidade em empresa de mercado e a favor da construção de espaços de debates e de prática da cidadania. Ao contrário, a adesão acrítica produz a indistinção entre as instituições universitárias e as demais, facilitando a submissão e a simbiose das universidades ao poderoso mundo da economia. Essa perspectiva é complementada por Couto (2005) ao afirmar que o processo de validação das novas normas quantitativistas de avaliação pode ser relativizado quando se analisam algumas das práticas que dão origem a altos índices de produtividade.