Del II Beskrivende del
5.1 Ulike hensyn og avveininger
Quando vi Domingos, através de Aatif, que tinha conhecido meses antes em Agosto de 2013, foi-me apresentado como colega do abrigo de São Bento. Tinha combinado ir ter comigo ao jardim de Campo Santana numa solarenga tarde de Março no ano de 2014. Queria dar-me a conhecer a sua nova vida e como sempre, telefonava- me para eu me encontrar com ele, pois via-me como um amigo. Nas palavras dele: - é o
meu irmãozinho, tu és diferente, tu fazes-me companhia. Essa seria ao longo de
praticamente um a ano a sua abordagem, conviver, contando-me pedaços da sua vida, nunca gravando entrevista alguma.
Domingos e Aatif, costumavam passar os dois na altura algumas horas por dia, à tarde, nesse jardim, até irem para o abrigo por volta das 17:00 horas. Mais tarde percebi que o motivo de união entre os dois para passarem as tardes naqueles bancos, se devia ao facto de ambos terem deixado de beber álcool. Protegendo-se mutuamente para não correrem riscos de terem uma recaída do seu antigo hábito. É necessário compreender que, quando se deixa de beber, significa deixar de frequentar os antigos sítios onde se bebia, bem como os antigos conhecidos com quem se bebia não quer dizer que se deixe de falar a quem bebe. Mas a abstinência marca um afastamento de quem bebe, como nestes dois informantes, levando necessariamente a uma vida com outras ocupações e muitas vezes com outras companhias.
Desabafei com Domingos a minha preocupação acerca da entrevista:
O Aatif está a enrolar-me, anda a dizer já há não sei quanto tempo, que fazemos a entrevista e nunca mais!
Era de facto como me sentia, apesar de gostar do convívio com ele, e das respectivas informações que me ia dando. Mas necessitava de uma abordagem em profundidade sobre a sua vida, para que a investigação avançasse.
Eu posso dar a entrevista. Uma vez lá uns gajos na Trafaria 'tavam a fazer um documentário e eu 'tava lá a morar numa casa que eles tinham. Depois eles desentenderam-se, aquilo acabou e eu saí de lá.- Propôs Domingos enquanto solução
para o meu problema.
E assim foi, de improviso ganhei um novo informante e, aproveitando o gravador áudio que trazia para entrevistar Aatif, fiz a primeira de muitas entrevistas com Domingos.
A afinidade que já tinha com o seu colega de albergue e o facto de estar habituado a ser alvo de atenções em projectos como o “Margens”, ou em conferências a convite de instituições, onde ia falar sobre os malefícios das drogas fazia com que estivesse receptivo a falar com pessoas sem ser do mesmo estrato social ou em situação de sem-abrigo. A maneira informal como cheguei à sua rede informal, é algo com mais lógica para se ganhar intimidade para Domingos e a maioria dos sem-abrigo, do que a maneira institucional. Mas tratava-se sobretudo de alguém que estava disposto a rever a sua vida em várias conversas, com o objectivo de poder aprender com a sua própria experiência de vida. A apresentação dos factos não obedece necessariamente à ordem pela qual eles foram contados nas várias entrevistas, trata-se de um resumo das várias dimensões vividas na vida de Domingos que no momento do seu percurso biográfico permita analisar e traçar um perfil dos principais dinâmicas na vida de Domingos.
Breve biografia
Domingos nasceu no dia dez de Setembro de 1966 em Luanda, capital de Angola. Tem seis irmãs e cinco irmãos. Um dos irmãos morreu no antigo bairro Lisboeta degradado o Casal Ventoso - devido a overdose de heroína. Órfão de pai que nunca chegou a conhecer, praticamente não foi criado pela sua mãe, por ser traquinas e não parar em casa; foi criado desde os cinco até aos quinze anos numa espécie de casa
dos rapazes, cujos funcionários eram da Igreja Católica. Depois viveu com a mãe por
uns tempos e volta a entrar nessa instituição, a partir de onde ingressa numa Escola de Formação Profissional, tirando o curso de tipógrafo, pertencendo à secção de composição dentro de uma tipografia. Não concluiu a educação secundária, não chegou a acabar o curso de educação física. Tem quatro filhos em Angola, dois de uma mulher que conheceu na escola, no curso de tipografia, e com quem viveu algum tempo; outros dois filhos nasceram da segunda mulher, com quem viveu num aldeamento em que estava destacado enquanto militar.
Que vida tinha Domingos antes ser sem-abrigo?
Passou a infância na ilha de Luanda, onde se situava o lar da casa dos rapazes. Devido à localização próxima da linha de costa, ia à praia e pescava com regularidade. Tempos passados que não voltam, mas que recorda com alegria e saudades. Foi durante esses tempos de felicidade que sonhou ser marinheiro mercante. Costumava pescar com pequenos barcos a remos, que em Luanda chamava de chata, em conjunto com os colegas da casa dos rapazes, junto aos navios dos marinheiros, pois o lixo dos navios atraía muitos peixes, tornando-se o sítio ideal para pescar à noite, junto ao porto de Luanda. Confessa que a sua grande paixão era a água e os navios, por passar os dias na praia da ilha de Luanda. Era uma maravilha segundo Domingos.
Entrou para o “Juventude do Movimento Popular de Libertação de Angola” ("J. M. P. L. A. ") aos onze/doze anos. Pertenceu à banda nacional da Organização de Pioneiros de Angola” ("O. P. A. ") durante um/dois anos, onde tocava tamborete, cuja função da banda destinava-se principalmente a receber as comitivas dos Estado Chefes de Estado de países que visitavam Angola, em missão diplomática. Durante esses anos é de destacar a participação em 1978 no 3º acampamento internacional da "O. P. A. " no Lubango, entre outras participações em eventos do género. Exerceu a profissão de militar a partir de 1982, quando entra para as Forças Armadas Populares de Libertação de Angola ("F. A. P. L. A. ")
Nas Forças Armadas enquanto fuzileiro de infantaria ligeira, tirou o primeiro curso para oficiais de tropas especiais de luta contra banditismo, um curso acelerado. Enquanto militar participou directamente nos confrontos armados da Guerra Civil de Angola, entre o Movimento Popular de Libertação de Angola ("M. P. L. A. ") – partido pelo qual lutava e que viria a ganhar a guerra civil, contra o partido concorrente a ocupar o poder: a “União Nacional para a Independência Total de Angola” (“U. N. I. T.
A. “). Foi um soldado destacado regularmente, em aldeias entre quatro meses a um ano, de modo a proteger de ataques, pilhagens e homicídios indiscriminados.
É neste contexto de movimento e deslocações constantes que conhece a segunda mulher, já depois de ter tido vários relacionamentos esporádicos. Afirma que por pertencer à força militar que protegia a aldeia, a aldeia que estava isolada das cidades, tinha gratidão pelo serviço prestado e tinham uma boa relação com os habitantes, pelo que era fácil, para Domingos que era bem falante, ser bem sucedido nas suas conquistas.
Teve quatro filhos em Angola, dois filhos de uma primeira mulher, que conhece na tipografia onde tirou o curso de composição. Depois, mais tarde, durante o período de destacamento militar para defender as aldeias, teve outros dois filhos. Conta que viveu com três mulheres em Angola. Mas a sua vida de constante movimento enquanto soldado serve de justificação à instabilidade conjugal. Domingos considera-se um vadio e um nómada. Diz que sempre foi alguém que esteve em constante movimento de um sítio para outro, por isso nunca assumiu compromissos sérios com mulheres.
Quanto ao colonialismo considera ser prática normal da época, e que o colonialismo português não era o pior dos colonialismos, pois quem tinha mais poder militar dominava e controlava o país. Relativamente à guerra civil de Angola, não se considera afectado psicologicamente, mas são e ciente do que diz. Era crente da causa em que combatia. Esteve em zonas de conflito, mas sem confrontos intensos e, prosseguiu com a sua vida. Durante as várias entrevistas nunca falou da guerra, como se tivesse alguma recordação do possível terror que esta causou. Não está zangado por ter participado na guerra civil, mas sim pela falta de valorização dos dez anos de serviço. Chegou a ir ao Consulado de Angola em Lisboa, onde pediu uma reforma ou subvenção (que lhe foi negada) ao Estado Angolano pelo serviço prestado enquanto militar que lutou durante a Guerra Civil.
Por esse motivo, uma década depois de Maio de 1982, quando recebe a sua patente de Aspirante, decide emigrar para Portugal, por se sentir revoltado e injustiçado por não subir de posto dentro das “F. A. P. L. A. “ pois durante uma década esteve uma patente que oficialmente deveria durar apenas seis meses, juntamente com facto de a Guerra Civil de Angola estar bastante activa e, de ter já familiares a viver em Portugal. Leva Domingos a emigrar aos 27 anos para Portugal. O facto de já ter irmãs, tios e sobrinhos a viver em Portugal, onde se oferecia salários mais atractivos, mais oportunidades de emprego e onde se vivia um período prolongado de paz, aliado à língua falada ser a mesma em Portugal e Angola, apresentavam-se como circunstâncias favoráveis para Domingos emigrar para Portugal. Conheceu como primeira morada a casa das irmãs até atingir a sua autonomia morando em várias sítios em Lisboa, dedicando-se a conhecer a noite ao fim-de-semana.
Viveu na Póvoa de Santo Adrião, depois muda-se para a Cela das minas de Rio de Mouro. Aí decide alugar um anexo, onde começa a morar sozinho. Nessa época, inicia-se também o seu período de exploração da noite Lisboeta. Estabelece vários relacionamentos temporários numa vivência que descreve como vida de discoteca e
putas e vinho verde. Muda-se para o Concelho de Lisboa, na zona do Cais Sodré. Vive
também durante um período em Pêro Pinheiro, no concelho de Sintra. Domingos conta que morou em muitos zonas e aponta esse facto de mudança constante de moradas para se auto-apelidar de nómada. Afirmando que não passeia mais por Lisboa devido ao seu problema de saúde, que o faz andar de muletas e, ficar parado junto do abrigo em Lisboa.
Ao chegar a Portugal Domingos, com preparação física da vida de militar, aproveita as oportunidades que surgem para trabalhos não qualificados. Nos anos '90 encontra trabalhos manuais com regularidade. Orgulha-se de ter trabalhado muito. Desde obras no sector da construção civil a fábricas como a unidade de transformação de mármores e rochas Pardal Monteiro Mármores SA ainda em funcionamento em Pêro Pinheiro. Já trabalhou com leitões, chegando inclusivamente, a reviver parte da sua infância ligada ao mar, quando se torna nadador salvador, contratado pelo café da praia Malhação, na Costa da Caparica e, aí tinha a oportunidade – dada a proximidade física da linha de água – de voltar a ir à praia com regularidade.
Em Portugal viveu também com mulheres. Mas as suas idas constantes a Lisboa, para sair à noite ao fim-de-semana, levaram a que se criasse desconfiança e abandono da própria relação. Tal como ilustra pelas próprias palavras a última relação que teve:
…Porque nos sítios onde eu 'tava, as pessoas com quem eu convivi, com quem eu andei assim, diziam-me sempre: “Olha tu vais. Se tu, te acontecer mais algo contigo. Não ponha mais cá os pés. Ou não venhas mais ter comigo.” Isso aconteceu em sítios onde eu passei, onde eu tinha... Houve uma gaja que eu andei com ela, que eu vivi com ela ultimamente que disse-me assim: “Você se for embora daqui, nunca mais ponha cá os pés depois” .... Passei mal.
(…) Às vezes pronto, ela até comprou-me uma bicicleta para eu não sair mais... eu era mais novo... sempre discutíamos por causa disso... De fim-de-semana eu ia visitar a minha irmã... e não vinha... e ia sexta-feira e só voltava domingo à noite. Às vezes ela dizia, “você anda a sair muito, vou comprar uma bicicleta pá' você passear aqui” Aquela bicicleta não andei quase nada. Mas uma vez, a gaja não sei o que é que se passou ela disse-me assim: “Tu 'tás farto de me foder a cabeça, se você alguma vez for a Lisboa. Domingos- É melhor ficares por lá”, Até hoje (Entrevista nº 4: 176-177).
As relações familiares de Domingos sempre foram distantes, sendo de destacar que Domingos nunca foi criado num ambiente familiar, enquanto crescia com a família numa casa. Apenas conheceu a mãe. Nunca cresceu na mesma casa com as irmãs, apenas já em adulto viveu breves períodos de tempo com mulheres, quer em Portugal, quer em Angola. Sendo que em Angola chegou a ter filhos. Por um breve período de tempo viveu com as irmãs em Lisboa, sofrendo uma constante institucionalização.
O percurso de Domingos reflecte uma vida marcada pela ausência do aconchego familiar onde nunca houve grande proximidade. Segundo Domingos afirma, que foi a sua própria traquinice que levou a que a família o colocasse na casa dos rapazes aos cinco anos. Quando sai da casa dos rapazes, é colocado como militar nas “F. A. P. L. A. “ do “M. P. L. A. “. Sai depois directamente para viver uns tempos com as irmãs em Lisboa, vivendo sozinho logo a seguir. Foi uma situação que gerou distância ao longo da vida da sua família.
Relativamente a Lisboa, o fascínio pela noite Lisboeta apresentou a Domingos a possibilidade de experimentar novas drogas, álcool e novos encontros com mulheres, gerando um afastamento das irmãs, que inicialmente o tinham acolhido em sua casa e de quem actualmente se reaproximou, depois da desintoxicação, pois o álcool e as drogas levaram a que deixasse de falar com elas. Porque Domingos mudou e reconhece agora que a vida que levava não tinha futuro nenhum.
Domingos - Como se chegou a sem-abrigo?
As drogas que desde cedo começam a fazer parte do quotidiano de Domingos, seja em Angola ou em Portugal, gradualmente começam a ter maior importância, derivado à dependência que os consumos causavam. Enquanto forma de diversão para ocupar os tempos livres, a iniciação ao uso de drogas e álcool, proporciona-se devido à ausência de regras que impedissem que se começasse a consumir. Pelo contrário, na esfera institucional da Casa dos rapazes era prática comum beber cerveja e fumar
chamom e liamba. Bebia também bebidas tradicionais de Luanda, como o Quimbombo,
o Caprosque. Conta que ninguém controlava o que lá se fazia. Na tropa aumenta a quantidade dos seus consumos, pois tinha mais acesso a este tipo de bebidas e drogas. Em Lisboa, conhece a noite e a possibilidade em consumir o que quisesse sem controlo de ninguém, desde que tivesse dinheiro. Encarado inicialmente como uma experiência, pela aventura, para descontrair, tornando uma forma de passar o tempo. O consumo de droga dá-lhe uma motivação para viver, procurando sempre usar o tempo disponível para se drogar de forma recreativa e arranjar dinheiro para se drogar novamente. Quando na recta final deixa de trabalhar, num primeiro momento porque o pensamento é dirigido para o consumo da droga enquanto nova experiência.
Aqui (Lisboa) comecei a experimentar pronto, as outras drogas. As drogas fumava quando tinha muito dinheiro, mas eu dediquei-me muito, muito, muito ao alcoolismo (Entrevista 4: 129).
Num último momento, já não se vive para a droga mas sobrevive-se para a droga, não se passando um dia sem ela. Inicialmente aumentou os consumos, passando a consumir para além dos fins-de-semana, gastando o dinheiro todo que tinha do seu ordenado. Iniciando-se uma fase em que fica na rua até gastar o dinheiro todo que tem, regressando a casa e ao trabalho. Lentamente com avanços e recuos, os consumos de droga e álcool na rua foram aumentando até abandonar a residência própria e o trabalho: Epá ainda fiquei um bom tempo, ainda fiquei um bom tempo. Agora eu não me recordo muito bem, porque eu andava muito maluco, eu 'teve vezes já cheguei a estar na rua e voltar p'ra casa e voltar a trabalhar a ter uma vida normal.
(…) Muitas vezes, muitas vezes. Porque eu por exemplo naquela altura, quando eu recebia dinheiro, ficava muitos dias sem ir para o trabalho. Ficava a gastá-lo e às vezes chegava aqui no Cais do Sodré, porque eu quando conheci o Cais do Sodré, o Cais do Sodré também foi um destino que estragou a minha vida. Quando eu conheci o Cais do Sodré, todas as vezes que eu recebesse dinheiro, que viesse do meu ordenado, eu vinha cá passá-lo. Eu ficava dias e dias enquanto o dinheiro não acabasse. 'Tás a perceber? Isso foi a curtir. Depois quando aconteceu tudo do piorio deixei de... deixei de.... deixei trabalho deixei tudo para me dedicar a esta vida de merda (Entrevista 4: 132).
Necessitando sempre de mais dinheiro para consumir droga. Nesta fase, segundo Domingos, a debilitação física mal permite viver um quotidiano sem a preocupação constante da droga, se existe suficiente para alimentar a dependência, pautando-se o consumo de droga por ser desenfreado tendo apenas como limites o dinheiro para comprar droga e o que o corpo aguenta; estando-se muitas vezes acordado mais que um dia a curtir a moca:
Curte aquela moca, mas quis experimentar outras mocas, isso me levaram aí para esses campos e, a ficar cacetado… (...) A fazer nada. A andar a arrumar carros, só porque…. Um gajo não dormia. Porque, aquela ansiedade de um gajo vir fazer dinheiro para o dia seguinte. Pa' um gajo andar a consumir. Um gajo tem dinheiro no bolso e, um gajo ficava maluco. Fazia dias e dias que nem fechava o olho, 'tá a perceber? Mas pa' não fechar o olho tinha que... andar sempre… mas quando… tentasse dormir um bocado… só acordava no dia seguinte… (Entrevista 4: 155) (…) Os vícios cegam praticamente um gajo. Um gajo 'tá cego. Quero lá saber da tua família! Quero lá saber da… Um gajo… A tua vida vinte e quatro horas, 'tá em redor do… do… vício… Tu… tu não pensas em mais nada (Entrevista 4: 175).
Há cerca de dez/doze anos na rua, Domingos recorda que o quotidiano para quem tinha de viver na rua era bastante mais difícil. Lembra-se que nos primeiros
tempos em que vivia na rua já se arrumavam carros, havia poucos albergues e não existiam carrinhas de distribuição gratuita de comida pela cidade de Lisboa como existem hoje em dia. Apenas existia a possibilidade de comer no refeitório social dos Anjos na Avenida Almirante Reis, onde se tinha de estar legal e com tudo em dia. Podia-se ir receber comida doada ao final do dia, comida por vender do Celeiro e de algumas Pizzarias. Mas esperar até ao final da noite implicava uma adaptação dos horários, o que dificulta a vida de um sem-abrigo; dado o hábito de deitar cedo, devido à necessidade de se levantar cedo quer se vá dormir na rua ou num albergue: (...) No
celeiro, pois! Era o único sítio e, tinha aí umas pizzarias também, mas isso só davam depois da casa fechar 'tá a perceber? Agora, agora tu a esta hora vais e muitos sítios dão de comer é diferente. O sacrifico antigamente era maior que agora, não havia muitos albergues (Entrevista 4: 133).
A actividade regular de arrumar carros resultou em várias idas à esquadra em que esteve horas detido, onde lhe diziam que era proibido arrumar carros. Onde era aconselhado: diziam pa' não fazer, “pa' procurar outra vida, pa' procurar trabalho, que
era muito novo e, que isto não é vida.” Aqueles conselhos (Entrevista 4: 138).
A rotina de um sem-abrigo de longa duração é marcada pelas doenças, derivado à falta de cuidados médicos e exposição constante às condições meteorológicas e a respectiva falta de defesa contra as mesmas. Exemplo disso foi que, em 2000, Domingos saiu directamente da rua para o hospital, pois estava doente, com Tuberculose e foi internado no hospital em Torres Vedras durante três meses. Conseguiu curar-se com sucesso. O momento da desintoxicação chegou mais tarde, em 2009, quando sentia a dependência a debilitar-lhe o corpo, não se vendo mais a droga como algo bom que apenas tem benefícios, mas como algo que retira saúde, independentemente do prazer que possa dar.
Sentia-me muito mal meu, já nem tinha força para andar meu. Não comia. Passava vinte e quatro horas a beber, a fumar a droga, a fumar chamom. Eu não pensava noutra coisa. Você vai aguentando, aguentando. O teu corpo vai suportando, suportando né? Até um dia que dá o berro. Né? Já