6.2 Ulike interesser
6.2.1 Ulike diagnoser for Tøyen
Em 1972, a UFG estabeleceu, na cidade de Picos, no Estado do Piauí, seu primeiro Campus Avançado.
[...] esse pertencia à rede do Projeto Rondon, que criou no Brasil, 21 campi, prioritariamente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. E convidou as universidades do centro-sul, inclusive Goiás [...] O Campus de Picos foi o que nos foi oferecido. O Projeto Rondon ofereceu o Campus de Picos à UFG, que através de um convênio, pelo qual o Rondon fazia todas as despesas. O objetivo era a realização de estágios supervisionados profissionalizantes. Supervisionados por professores nossos, com programas criados por professores nossos, em nossos departamentos(UFG) para serem
realizados lá, de acordo com a comunidade de lá. Para isso tinha que fazer pesquisa lá. Iam muitos professores para lá. Picos foi a nossa 1ª experiência com campus avançado. Trabalhamos 12 anos lá. (Entrevista: Maria do Rosário Cassimiro em 04/8/09)
Este, em 1985, foi transferido para a Universidade Federal do Piauí. Esse projeto foi realizado sob orientação e autorização do MEC/governo militar e buscava “levar instrução onde as pessoas necessitassem” a fim de educá-las segundo a necessidade do Estado, bem como promover a integração nacional. O Estado do Piauí, segundo INEP (2006), é um dos maiores Estados da Região Nordeste.
Até 1940, a evolução demográfica se deu de modo relativamente lento. A partir dos anos 60, quando a população dobrou, pela primeira vez em termos absolutos, em relação ao que existia anteriormente manteve-se em patamares bastante elevados [...] (FEITOSA; SALES e CRUZ, 2006, p. 22).
A ocupação das terras do Piauí, segundo os historiadores, iniciou-se no período entre 1660 e 1790, quando a região foi explorada pelos bandeirantes e estradistas. A partir daí, processou-se a concessão de sesmarias e as fazendas de gado tornaram-se base para o desenvolvimento econômico do Estado. Ao redor das fazendas, iniciaram os primeiros núcleos populacionais.
O Estado, segundo a Fundação Centro de Pesquisas Econômicas e Sociais do Piauí (Cepro) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentando os resultados das contas referentes a 2007, apontaram que o Estado do Piauí apresentava tendência de crescimento rumo à estabilidade econômica. Mesmo assim, ainda apresenta um dos menores PIBs nordestinos e possui grande quantidade de analfabetos funcionais.
No que diz respeito ao ensino superior no Piauí, este teve início no ano de 1931, com a instalação da primeira faculdade, a Faculdade de Direito. Esta nasceu como entidade privada, resultante do esforço de alguns intelectuais ligados às famílias financeiramente abastadas. Durante quase 30 anos, foi a única instituição em funcionamento no Estado.
[...] seguindo a tendência nacional, no que diz respeito à implantação, por meio de decreto, da primeira universidade do Brasil, que surgiu pela aglutinação de várias instituições de ensino superior, a primeira universidade piauiense, a Universidade Federal do Piauí(Fufpi) [...] O processo de constituição da universidade piauiense completa-se no final dos anos 1960, começo dos anos de 1970, quando é criada e impantada a Fundação Universidade Federal do Piauí(Fufpi). (FEITOSA; SALES e CRUZ, 2006, p. 26)
Picos é uma cidade do Estado do Piauí34, localizada na região centro-sul do Estado. Inicialmente, era uma unidade do município de Oieiras. Situa-se “entre picos montanhosos” e no cruzamento de várias rodovias.
A cidade está localizada numa fertilíssima várzea à margem direita do rio Guaribas e é cercada por diversos montes picosos, que lhe deram o nome. A uberdade e a salubridade do solo atraíram os cavalarianos(compradores de cavalos na gíria local) das então províncias de Pernambuco e Bahia, vindo daí o início do povoamento. A resolução nº 308, de 11 de setembro de 1851, elevou a povoado à freguesia, com a invocação de Nossa Senhora dos Remédios. Depois do desmembramento de Oeiras, a cujo termo foi anexado o seu distrito judiciário, foi o povoado, pela resolução provincial nº 397, de 20 de dezembro de 1855, elevado à categoria de vila, cuja inauguração se verificou em 03 de julho de 1859. em 12 de dezembro de 1890 a vila foi elevada à categoria de cidade, pela Resolução nº 33 baixada pelo Governo do Estado, naquela época chefiado pelo Barão de Uruçuí. (IBGE, 1959, p. 570)
No limiar do século XXI, é conhecida como “cidade modelo” devido ao índice de desenvolvimento econômico, social e cultural que atingiu notadamente o comércio.
Mas, a realidade que os participantes do processo de implantação e funcionamento do Campus Avançado da UFG encontrou não foi essa. Nos anos 70, Picos apresentava vários problemas socioeconômicos, entre eles, no campo educacional, a insuficiência de recursos humanos especializados. Quanto à saúde, as principais carências encontravam-se na alimentação e na incidência de verminose. E, de modo geral, havia uma apatia/descrença quanto ao desenvolvimento e ao progresso.
Em Picos, as principais atividades econômicas desenvolvidas contemplavam as culturas do algodão e do alho, as quais, para produção e escoamento, contavam com acesso aeroviário e rodoviário. Suas ações apresentavam uma área de abrangência (cidades) significativa, como pode ser observado: Fronteiras, Ipiranga, Itainópolis, Jaicós, Monsenhor
34 Nos mapas utilizados, nota-se o espaço que o município abarca, não apresentando apenas a localização da
cidade referenciada, uma vez que a fonte utilizada foi a Enciclopédia dos Municípios, publicada pelo IBGE nos anos 1958 e 1959.
Hipólito, Padre Marcos, Pio IX, S. Cruz do Piauí, Santo Antônio de Lisboa, São Inácio do Piauí, São José do Piauí, São Julião, Simões, Picos, Francisco Santos, Bocaína, D. Expedito Lopes e Oeiras.
Segundo Cassimiro e Gonçalves (1986), o Piauí era tido por aqueles que cuidavam do planejamento do País, como um estado de difícil sustentação. Essa concepção decorria de sua modesta contribuição no conjunto nacional. Na época da implantação do Campus Avançado da UFG, o Estado encontrava-se, praticamente isolado do resto do país. Essa realidade decorria da ausência de comunicação, da quase inexistência de infraestrutura, o campo de trabalho quase que exclusivamente agrícola, sofria o tormento das secas. Caracterizava-se, portanto, como um ambiente de pobreza e de acentuada precariedade de recursos.
A microrregião 51 do Piauí é onde se situa a cidade de Picos. Foi nessa localidade que, em 22 de setembro de 1972, foi instalado o Campus Avançado da UFG que obedecia a diretriz do governo Federal para levar às regiões distantes dos centros mais desenvolvidos do Centro-Sul do País, as ciências, as tecnologias produzidas e distribuídas pelas universidades.
Ainda na gestão do Magnífico Reitor Farnese Dias Maciel Neto, iniciaram- se no mês de agosto de 1972 as atividades do Campus Avançado de Picos, Estado do Piauí. De imediato a coordenação dos trabalhos do referido Campus, foram confiadas aos cuidados do então Vice-Reitor da UFG, Prof. Paulo de Bastos Perillo, em cujas mãos nasceu o Projeto do Campus Avançado de Picos. (UFG, 1978, p. 2)
No mesmo documento, na Cláusula II, do Convênio celebrado entre UFG, Prefeitura Municipal de Picos e Projeto Rondon, 22/09/72, foi evidenciada a justificativa para a implantação do Campus Avançado em Picos.
A existência do Campus avançado de Picos justifica-se pela tarefa da integração nacional, a ser realizada também com a colaboração da Universidade Federal de Goiás, visando transformar a Micro-Região 51 do Piauí em pólo de desenvolvimento, carreando para lá a teoria e a técnica, representada pela colaboração dos professores e alunos da UFG, e de outras Instituições conveniadas, visando a preparar a mão de obra especializada local, para enfrentar as tarefas do desenvolvimento, dando oportunidade aos alunos de aplicarem seus conhecimentos em uma área carente do país, e com isto, exercitando-se um melhor desempenho de suas tarefas específicas. (Idem, p. 2-3)
A UFG, para implantar o Campus na cidade de Picos, teve que se aparelhar. Para tal, buscou estabelecer o local para instalar o campo de trabalho. Então teve a cessão, pela Secretaria de Agricultura do estado do Piauí, de uma área de 10.000 m², no Bairro do Junco, a 5 km de distância do centro da cidade de Picos. O local apresentava as condições mínimas para o estabelecimento da sede física do campus. Estabeleceu-se também o local para a coordenação do Projeto (GTU) que ficou confiada ao Vice-Reitor e funcionou, inicialmente, no prédio da Reitoria. Também ficou estabelecido o Pessoal da Coordenação, constituído por um grupo de professores, representantes das diversas unidades da UFG.
Para o desenvolvimento das tarefas que viabilizariam o Campus, foram criados grupos de trabalho (Portaria nº 00580/72): Grupo de Educação, Grupo de Saúde, Grupo Agro- Pecuário, Grupo de Ciências Humanas e Grupo de Tecnologia. A partir da Portaria de 31/03/74, os integrantes do GTU mantiveram reuniões periódicas com seu colegiado.
O Campus Avançado de Picos incorporou à UFG uma nova realidade. E para que esse Campus fosse percebido como parte integrante da universidade foi necessária a elaboração de normas e dispositivos legais, de modo a criar condições que assegurassem a contínua disponibilidade de professores e alunos, sem que tivessem prejuízos de nenhuma espécie, para as diversas tarefas do Campus Avançado.
- Resolução 058/CCEP, de 29/08/72, que oficializa a participação em atividades do Campus Avançado e dá outras providências.
- Portaria 51018, de 27/09/72 que regulamenta direitos e vantagens de professores, técnicos e alunos que servirem em Picos, como também regulamenta os deveres dos mesmos. Trata-se de uma portaria da Reitoria da UFG, assinada pelo Magnífico Reitor, “ad referendum” do Egrégio Conselho Universitário.
- Resolução 076/CCEP, de 04/07/74, que fixa normas para a participação de estudantes e professores nas “Operações do Projeto Rondon”.
- Resolução 001/76/ECU, de 24/03/76, que estabelece a estrutura do GTU e participação de docentes e servidores nas atividades do Campus Avançado. - Resolução 101/CCEP, de 13/02/76, que fixa normas para a participação do corpo discente da UFG, no Campus avançado de Picos.
- Resolução 118/CCEP, de 10/05/77, que fixa a política de Extensão Universitária e dá outras providências.
- Resolução 05/ECU, de 27/10/77, que aprova o Regimento do Campus Avançado de Picos-Piauí, da UFG. (Idem, p. 6-7)
O Campus Avançado enfrentou resistências por ocasião de sua implantação uma vez que, para a comunidade local, subjugada ao poder da elite coronelística local, o campus representaria a redenção para as populações. Contudo, o Campus
não deixou de significar um choque para os hábitos da cidade interiorana, tradicional, com sua carga de formação moral e costumes arraigados, onde comportamentos estranhos eram trazidos por aqueles jovens que ali passavam trinta dias, longe de suas famílias, amigos, apoios emocionais, e sem clima de controle para seu comportamento. (CASSIMIRO e GONÇALVES, 1986, p. 112)
Dessa forma, o Campus que chegou revolucionando o lugar, decepcionou a todos os envolvidos.
O campus se converte em centro de encontros entre gente da terra e forasteiros rondonistas, com toda seqüela de tais acontecimentos. Pouco trabalho apresentado, muito movimento, muito descontentamento, imagem desfavorável ao campus , quase levando a Universidade a fechar as portas do mesmo. (Id Ibdem )
A partir de 1982, um novo momento teve início com as mudanças de estrutura política e administrativa que ocorreram na UFG e, consequentemente, no Campus Avançado:
O Campus passou a adotar uma linha disciplinar exigente para todos os estudantes e professores que para lá se dirigiam. Dentro de pouco tempo, a imagem deixada era o reverso da medalha. O trabalho dos jovens estudantes passa a ser mais bem aceito, de modo todo especial pelas populações mais pobres e desassistidas, que vinham encontrar, sobretudo nos acadêmicos de medicina, uma atenção respeitosa como jamais haviam recebido. (Idem p. 113)
Nota-se que o Campus passou a ser uma instituição respeitada e, portanto, confiável para a gente simples do lugar. Para as lideranças políticas, econômicas e culturais locais, a instituição continuava a incomodar. Entretanto, o Campus já conseguia a atenção dos profissionais liberais da cidade que ocupavam cargo de comando.
Diante da realidade tecida naquele momento, o Campus passou à condição de aliado, de elemento indispensável à vida da região, “fonte de preciosa ajuda para a promoção sóciocultural da população”. Acabou por evidenciar a realização de trabalhos marcadamente assistencialista.
Ao lado dos acadêmicos de medicina, surgem outros, igualmente dedicados, como os acadêmicos de licenciaturas, agronomia e veterinária, de educação física, de odontologia, de enfermagem, de nutrição, de direito, de artes e de comunicação, que, aos poucos, foram, a custa de muita paciência e tempo, introduzindo modificações no comportamento daquela população. (Ibidem)
O Campus Avançado da UFG instalado na cidade de Picos somou-se ao 3º BEC (Batalhão Especializado na Engenharia de Construções), instalado em 1970 e à ICSA (Indústria Coelho S.A), para fazer circular vida nova na região, do ponto de vista social, econômico e cultural. E quando, em 1984, o Campus Avançado foi transferido para a Universidade Federal do Piauí, Picos não se apresentava mais como provinciana, acanhada e isolada do Brasil e do mundo, nas palavras da professora Cassimiro.
Para Cassimiro e Gonçalves (1986), essas três realidades atuaram sobre Picos de forma pioneira, influenciando a vida do lugar sob diferentes perspectivas. “A Universidade, através do Campus, influiu na máquina administrativa, colaborando na organização de secretarias e órgãos de comunicação” (Idem, p. 114).
Mas o Campus não contribuiu apenas nesses aspectos. No aspecto cultural, organizou bibliotecas na comunidade e no próprio Campus Avançado; catalogou livros, organizou fichários de consulta; promoveu o acesso da população a esses bens e serviços; promoveu eventos culturais, artísticos e desportivos; e motivou a prefeitura local a criar uma Escolinha de Artes, que foi batizada com o nome de “Marechal Rondon”.
Com o objetivo de promover a atualização e o aprofundamento no campo da educação e do ensino local, da zona rural e do ensino polivalente, foram ministrados vários cursos por alunos que concluíam seus cursos no Campus e por professores da UFG. Nas escolas públicas, os estagiários auxiliaram a montagem de currículos, metodologias de ensino e orientação educacional.
O Campus também conquistou a confiança dos profissionais liberais que ali desenvolviam suas atividades. Para eles, de diferentes classes e profissões, foram oferecidos cursos de atualização em suas áreas específicas.
No setor da saúde, Picos recebia com frequência, equipes de acadêmicos de Medicina e Odontologia. A interação com os profissionais propiciou aprimoramento para todos os envolvidos. E através da ação destes, foi instalado na cidade, um hospital de boa qualidade, tecnicamente equipado com instrumentos e recursos colocados à disposição dos médicos que ali atuavam, pelos docentes-médicos que ministravam aulas e pelos acadêmicos que lá estudavam e trabalhavam.
Contudo, nesse hospital, os serviços de enfermagem e nutrição não alcançaram bom êxito. Os esforços empreendidos por profissionais especializados nessas áreas foram insuficientes, uma vez que, na UFG, eram recém-criados e não conseguiam manter, regularmente, equipes de estagiários que atendessem a demanda de Picos.
Algum tempo depois, através do Campus Avançado, em ação articulada com a mitra diocesana, através da Misereor35 da Alemanha, conseguiram-se verbas para o estabelecimento de um laboratório de análises clínicas. Este devia oferecer apoio às necessidades dos trabalhos médicos no atendimento àquela comunidade.
No campo jurídico, a UFG encontrou mais dificuldades para atuação no Campus. Havia resistência da Faculdade de Direito em incentivar os acadêmicos a realizarem estágios em Picos. Somente em 1980, é que foi instalado um escritório para o atendimento à população e, por meio dele, também, prestar serviços à população desamparada do lugar.
Os cursos de Agronomia e Veterinária atuavam em Picos oferecendo orientações aos fazendeiros e criadores. Faziam o mesmo à população, a fim de que conseguissem maior rendimento em seus trabalhos bem como despertar e incentivar o consumo de verduras e legumes pela população dali.
De acordo com Cassimiro e Gonçalves (1986), 139 equipes foram enviadas a Picos pela UFG. Os estudantes, em fase de conclusão de cursos que participaram desse processo defrontaram com situações que os desafiavam a apresentar soluções, respostas e posicionamentos. Era exigido deles, além do conhecimento adquirido na Universidade (UFG), o apelo para a criatividade nos momentos de enfrentamento a sobressaltos e inseguranças inerentes ao contexto no qual atuavam.
Isto, de acordo com a avaliação - ainda que de forma assistemática – que era realizada no retorno à universidade, apresentava saldo positivo para a formação profissional de cada acadêmico que fez parte do programa.