2 HOVEDDEL
2.5 Arbeidsmiljøloven
2.5.3 Ufravikelighetsprinsippet og arbeidsmiljøloven §13-4
“Últimas Palavras de Job”, de Job 42:12-13 e “Fábula do Servo
de Deus”, de Miguel Torga
Tabela 3: “Fábula de Servo de Deus”, de Torga “As Primeiras Provações”, de Job 1:13-19
“Novas Provações”, de Job 2:4 “As Lamentações de Job”, de Job 3:3 “Últimas Palavras de Job”, de Job 42:12-13
“Fábula do Servo de Deus”375, de Miguel
Torga
“As Primeiras Provações” Job 1:13-19
13. Ora, um dia em que os filhos e filhas de Job estavam à mesa e bebiam vinho na casa do seu irmão mais velho,
14. um mensageiro veio dizer a Job «os bois lavravam e as jumentas pastavam perto deles.
15. De repente, apareceram os sabeus e roubaram tudo e passaram os criados a fio da espada. Só escapei eu para te trazer a notícia».
16. Estava ainda este a falar, quando chegou outro e disse: «O fogo de Deus caiu do céu, queimou e reduziu a cinzas as ovelhas e os escravos. Só escapei eu para te trazer a notícia».
17. Falava ainda este e eis que chegou outro e disse: «Os caldeus, divididos em três quadrilhas, lançaram-se sobre os camelos e levaram-nos, depois de terem passado os escravos a fio de espada. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia».
18. Ainda este não acabara de falar, e eis que entrou outro e disse: «Os teus filhos e as tuas filhas estavam a comer e a beber vinho na casa do teu irmão mais velho 19. quando de repente, um furacão se levantou do outro lado do deserto e abalou os quatro cantos da casa que desabou sobre os jovens. Morreram todos. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia».
“Novas Provações”
Job 2:4
Satanás respondeu: «Pele por pele! O homem dará tudo o que tem para salvar a própria vida».
“As Lamentações de Job”
Job 3:3
Pereça o dia em que nasci e a noite em que foi dito: Foi concebido um varão!
“Últimas Palavras de Job”
Job 42:12-13
12. O Senhor abençoou a nova condição de Job, mais do que a antiga, e Job chegou a possuir catorze mil ovelhas, seis mil camelos, mil jumentas.
13. Teve, também, sete filhos e três filhas.
Depois de tudo perdido,
Satanás disse a Deus: — Girei a terra [andei-a toda... Lá vi o teu servo Job, que apodrecia à sombra do sonho desmedido... O homem deu pele por pele, e foi Ele,
como eu tinha prometido!... Abriu a boca e mordeu O ventre donde saiu e o dia em que foi nado... E o teu nome ressoa no seu peito desfeito
Ou desfigurado...
A sua carne, que não é de bronze, pesou numa balança os seus pecados, e as setas do Senhor pesavam mais!... Com palavras de dor chamou Alguém... Mas o teu amor não tem
as humanas raízes naturais!...
A tua voz, por fim, arrefeceu-lhe a Vida... «Cinge os teus lombos como homem, fala e responde às perguntas que te faço...» Mas as perguntas foram punhaladas frias!... Punhaladas de ti, que lhe devias
o calor paternal do teu regaço!... Até que o teu servo amado,
Aquele que não há outro semelhante no mundo,
aquele que navegava no teu mar doirado, tocado na tua vida,
foi ao fundo!...
E agora... podes salvá-lo... E dar-lhe sete filhos e três filhas e catorze mil ovelhas
e cento e quarenta anos de velhice lisonjeira... São enganos
que te enganam...
São remédios que não sanam a doença verdadeira...
375 Torga, Miguel, op. cit., p.77.
A “Fábula do Servo de Deus” é um tema que suscita muita curiosidade. Primeiro, quem é este servo de Deus? E, segundo, se o sujeito poético de Torga começa o texto com o verso “Depois de tudo perdido” porque é que continua a escrever com desmoderado pesar?
Este servo não podia ser outro, além daquele a que o autor já nos acostumou. A resposta está logo no quarto verso: “lá vi teu servo Job.”
Por que razão tinha de ser Job personagem que também dá título a obra?
Job é na verdade um nome de origem hebraica, personagem do AT, que significa “paradigma do crente sofredor.”376
A explicação padrão que leva o poeta a narrar este servo com tanto pesar é a de que:
no livro bíblico que tem o seu nome, um dos mais importantes escritos sapienciais desenvolve duas doutrinas principais, na primeira que também os justos e não apenas os pecadores são expostos a extremos sofrimentos, e que, na segunda, é necessário resistir às tentações e as falsas aparências que levam o crente a repudiar a sua fé. Job torna-se assim num símbolo de persistência da fé perante a adversidade.377
Job foi um homem de qualidades invejáveis, segundo a Bíblia: “Homem íntegro, reto, e temente a Deus e afastado do mal.”378
Patriarca de uma família feliz, Job teve “sete filhos e três filhas.”379 Job também foi dono de uma fortuna invejável: “possuía sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois, quinhentas jumentas e uma grande quantidade de escravos.”380
Mas nem tudo foi bem para este “Servo de Deus.” Ele teve a sua fé provada por Satanás: “Porventura, teme Job a Deus em vão?”381
E então perde tudo tal como no relato de Job 1:13-19:
«Os bois lavravam e as jumentas pastavam perto deles. De repente, apareceram os sabeus e roubaram tudo e passaram tudo e passaram os criados a fio de espada, o fogo de Deus caiu do céu, queimou e reduziu a cinzas as ovelhas e os escravos. Os caldeus, divididos em três quadrilhas, lançaram-se sobre os camelos e levaram-nos. Os teus filhos e as tuas filhas estavam a comer e a beber vinho na casa do irmão mais velho quando de repente, um furacão se levantou do outro lado do deserto e abalou os quatro cantos da casa que desabou sobre os jovens. Morreram todos.»
Job perde tudo ficando apenas “pele por pele” como no relato do sujeito poético de Torga. Verifique-se que o mesmo relato aparece no texto bíblico de Job 2:4: “Pele por pele.”
Observe-se que o sujeito poético de Torga faz uma citação fiel deste argumento bíblico sem nenhum acrescento ou diminuição. O que torna esta relação intertextual explícita pela matriz bíblica do texto.
376 Dicionário de Antroponímia, Porto, Porto Editora, 2003-2018. Disponível em
https://www.infopedia.pt/dicionarios/antroponimia/Job. Acesso a 11 de janeiro de 2018.
377 Job, Porto, Porto Editora, 2003-2018. Disponível em https://www.infopedia.pt/apoio/artigos/$job .
Acesso a 11 de janeiro de 2018.
378 Job 1:8. 379 Job 1:2. 380 Job 1:3. 381 Job 1:9.
“Depois de tudo perdido”, Job viu-se na mais profunda melancolia. Chega ao ápice e abomina o dia em que nasceu: “Pereça o dia em que nasci e a noite em que foi dito: Foi concebido um varão!”382
O sujeito poético de Torga compadece-se com Job que “Abriu a boca e mordeu/ O Ventre donde saiu.” Note-se que apesar desta abominação “Job não cometeu pecado”383, porque “a dor e o sofrimento são experiências profundamente íntimas e solitárias”384 e ninguém podia colocar-se no lugar de “Job, que apodrecia.”
Job “servo amado”, o seu “calor paternal” desmedido é descrito pelo sujeito poético de Torga com “punhaladas frias!” Tão frias que se afogou no “mar doirado.”
“E agora...” por ser temente a Deus “O Senhor abençoou a sua nova condição, mais do que a antiga, e Job passou a possuir catorze mil ovelhas, seis mil camelos e mil jumentas, teve também sete filhos e três filhas. Depois disto, Job viveu ainda cento e quarenta anos.” Ideia que também é partilhada pelo sujeito poético de Torga ao citar: “dar-lhe sete filhos e três filhas e catorze mil ovelhas e cento e quarenta anos de velhice lisonjeira.” A presença desta citação direta não deixa resquícios de dúvidas de que foi extraído do texto sagrado.
A composição do sujeito poético de Torga é excelente: começa com “Depois de tudo perdido” e termina com “remédios que não sanam a doença verdadeira.” É uma trajetória do mal ao bem. Outro fator de destaque é a pontuação: o uso do ponto de exclamação e das reticências porventura excessivas.
Uma outra curiosidade é que nas últimas estrofes o sujeito poético de Torga faz uma sequência de anáforas quase que incontroláveis: “e o dia em que foi nado/ e o teu nome ressoa no seu peito desfeito. /E agora podes salvá-lo/ E dar-lhe sete filhos e três filhas/ e catorze mil ovelhas/ E cento e quarenta anos de velhice lisonjeira...”
Após uma descrição tão perfeita de Job é justo concebermos o título “Fábula do Servo de Deus” porque não há relatos de um homem tão temente e fiel que tenha passado por tantas atribulações e ainda assim se manteve firme.
Nestes textos a relação é explícita. Há presenças de citações diretas e fiéis. O sujeito poético faz uma alusão histórica sobre a personagem de Job. Usa a mesma ordem e sentido bíblico que nos faz atribuir o grau máximo de intertextualidade.
382 Job 3:3.
383 Job 1:22.
384 Michel Dupuis, Jérôme Porée, Maria José Cantista, et al, Dor e Sofrimento—Uma Perspetiva