Upanisad da ISA (Índia, 600 A.C. aprox)
O temor das coisas invisíveis é a semente natural do que cada um chama para si mesmo religião.
Thomas Hobbes, Leviatã (1651)
Os deuses velam por nós e g uiam nossos destinos, ensinam muitas culturas humanas; há outras entidades, mais malévolas, responsáveis pela existência do mal. As duas classes de seres, tanto se se consideram naturais como sobrenaturais, reais ou imag inários, servem às necessidades humanas. Até no caso que sejam totalmente imag inários, a g ente se sente melhor acreditando neles. Assim, em uma época em que as relig iões tradicionais se viram submetidas ao fog o abrasador da ciência, não é natural envolver aos antig os deuses e demônios em um traje científico e chamá-los extraterrestres?
A crença nos demônios estava muito estendida no mundo antig o. Os considerava seres mais naturais que sobrenaturais. Hesíodo os menciona casualmente. Sócrates descrevia sua inspiração filosófica como a obra de um demônio pessoal benig no. Sua professora, Diotima da Mantineia, diz- lhe (no Symposio do Platão) que “tudo o que é g ênio (demônio) está entre o divino e o mortal... A divindade não fica em contato com o homem — continua— mas sim é através deste g ênero de seres por onde tem lug ar todo comércio e todo diálog o entre os deuses e os homens, tanto durante a vig ília como durante o sonho”.
Platão, o estudante mais célebre do Sócrates, atribuía um g rande papel aos demônios: “Nenhuma natureza humana investida com o poder supremo é capaz de ordenar os assuntos humanos —disse— e não transbordar de insolência e eng ano...”
Não nomeamos aos bois senhores dos bois, nem às cabras das cabras, mas sim nós mesmos somos uma raça superior e g overnamos sobre eles. Do
mesmo modo Deus, em seu amor pela humanidade, pôs em cima de nós aos demônios, que são uma raça superior, e eles, com g rande facilidade e prazer para eles, e não menos para nós, nos dando paz e reverência e ordem e justiça que nunca fraqueja, fizeram felizes e uniram às tribos de homens.
Platão neg ava decididamente que os demônios fossem uma fonte de mau, e representava ao Eros, o g uardião das paixões sexuais, como um g ênio ou demônio, não um deus, “nem mortal nem imortal”, “nem bom nem mau”. Mas todos os platonistas posteriores, incluindo os neoplatonistas que influíram poderosamente na filosofia cristã, sustentavam que havia alg uns demônios bons e outros maus. O pêndulo ia de um lado a outro. Aristóteles, o famoso discípulo do Platão, considerou seriamente a ideia de que os sonhos estivessem escritos por demônios. Plutarco e Porfírio propunham que os demônios, que enchiam o ar superior, vinham da Lua. Os primeiros Pais da Ig reja, apesar de haver-se empapado do neoplatonismo da cultura em que nadavam, desejavam separar-se dos sistemas de crença “pag ã”. Ensinavam que toda a relig ião pag ã consistia na adoração de demônios e homens, ambos interpretados mal como deuses. Quando são Pablo se queixava (Efésios 6, 14) da maldade nas alturas, não se referia à corrupção do g overno a não ser aos demônios, que viviam ali:
Porque nossa luta não é contra a carne e o sang ue, a não ser contra os Principados, contra as Potestades, contra os Dominadores deste mundo tenebroso, contra os Espíritos do Mal que estão nas alturas.
Desde o começo se pretendeu que os demônios eram muito mais que uma mera metáfora poética do mal no coração dos homens.
A Santo Ag ostinho aflig iam os demônios. Entrevista o pensamento pag ão prevalecente em sua época: “Os deuses ocupam as reg iões mais altas, os homens as mais baixas, os demônios a do meio... Eles possuem a imortalidade do corpo, mas têm paixões da mente em comum com os homens.” No livro VIII da cidade de Deus (começado em 413), Ag ostinho assimila esta antig a tradição, substitui aos deuses Por Deus e demoniza aos demônios, arg uindo que são malig nos sem exceção. Não têm virtudes que os redimam. São o manancial de todo o mal espiritual e material. Chama- os “animais etéreos... ansiosos de inflig ir maus, completamente alheios à
retidão, cheios de org ulho, pálidos de inveja, sutis no eng ano”. Podem afirmar que levam mensag ens entre Deus e o homem disfarçando-se como anjos do Senhor, mas sua atitude é uma armadilha para nos levar a nossa destruição. Podem assumir qualquer forma e sabem muitas coisas —”d emôn i o” quer dizer “conhecimento” em g reg o—, especialmente sobre o mundo material. Por intelig entes que sejam, sua caridade é deficiente. Atacam “as mentes cativas e burladas dos homens”, escreveu Tertuliano. “Moram no ar, têm às estrelas por vizinhas e comercializam com as nuvens.”
No século XI, o influente teólog o bizantino, filosofo e turvo político Mig uel Psellus, descrevia aos demônios com estas palavras:
Esses animais existem em nossa própria vida, que está cheia de paixões, porque estão pressentem de maneira abundante nelas e seu lug ar de residência é o da matéria, como o é sua fila e g rau. Por esta razão estão também sujeitos a paixões e encadeados a elas.
Um tal Richalmus, abade do Schonthal, ao redor de 1270 cunhou um tratado inteiro sobre demônios, cheio de experiências de primeira mão: vê (embora só quando fecha os olhos) incontáveis demônios malevolentes, como bolinhas de pó, que revoam ao redor de sua cabeça... e a de outros. Apesar das ondas sucessivas de pontos de vista racionalista, persa, judeu, cristão e muçulmano, a pesar do fermento revolucionário social, político e filosófico, a existência, g rande parte do caráter e inclusive o nome dos demônios se manteve inalterável desde o Hesíodo até as Cruzadas.
Os demônios, os “poderes do ar”, descem dos céus e mantêm prefeitura sexual ilícita com as mulheres. Ag ostinho acreditava que as bruxas eram fruto dessas uniões proibidas. Na Idade Média, como na antig uidade clássica, quase todo mundo acreditava essas histórias. chamava-se também aos demônios diabos ou anjos cansados. Os demoníacos sedutores das mulheres recebiam o nome de íncubos; os dos homens, súcubos. Há alg uns casos em que as monjas, com certa perplexidade, declaravam um parecido assombroso entre o íncubo e o padre confessor, ou o bispo, e ao despertar à manhã seg uinte, conforme contava um cronista do século XV, “encontravam-se poluídas como se tivessem jazido com varão”. Há relatos similares, mas não em conventos, a não ser nos haréns da antig a a China.
Eram tantas as mulheres que denunciavam íncubos, conforme arg umentava o relig ioso presbítero Richard Baxter (em sua Certeza do mundo dos espíritos, 1691), “que é impudicícia neg á-lo”.
Quando os íncubos e súcubos seduziam, percebiam-se como um peso sobre o peito do sonhador. Mare, apesar de seu sig nificado em latim, é a antig a palavra ing lesa para desig nar ao íncubo, e nightmare (pesadelo) sig nificava orig inalmente o demônio que se sinta sobre o peito dos que dormem e os atormenta com sonhos. Na Vida de Santo Antonio do Atanásio (escrita ao redor do 360) descrevia-se que os demônios entravam e saíam a vontade de habitações fechadas; mil e quatrocentos anos depois, em sua obra Do Daemonialitae, o erudito franciscano Ludovico Sinistrari nos asseg ura que os demônios atravessam as paredes.
Virtualmente não se questionou a realidade externa dos demônios da antig uidade até finais da época medieval. Maimónides neg ava sua existência, mas uma maioria lhe esmag uem dos rabinos acreditavam em dybbuks. Um dos poucos casos que pude encontrar em que inclusive se cheg a a insinuar que os demônios poderiam ser internos, g erados em nossas mentes, é quando perg untou a Abba Poemen, um dos Pais do Deserto da primeira Ig reja:
—Como lutam contra mim os demônios?
—Os demônios lutam contra ti? —perg untou a sua vez o pai Poemen—. São nossas próprias vontades as que se convertem em demônios e nos atacam.
As atitudes medievais sobre íncubos e súcubos estavam influenciadas pelo Comentário sobre o sonho do Escipião de Macróbio, escrito no século XIV, do que se fizeram dúzias de edições antes da Ilustração europeia: Macróbio descreveu os fantasmas que se viam “no momento entre a vig ília e o torpor”. O sonhador “imag ina” aos fantasmas como depredadores. Macróbio tinha um torcido cético que os leitores medievais tendiam a ig norar.
A obsessão com os demônios começou a alcançar um crescendo quando, em sua famosa Bula de 1484, a batata Inocêncio VIII declarou: cheg ou a nossos ouvidos que membros de ambos os sexos não evitam a relação com anjos maus, íncubos e súcubos, e que, mediante suas bruxarias, conjuros e
feitiços sufocam, exting uem e estrag am as iluminações das mulheres, além de g erar outras muitas calamidades.
Com esta bula, Inocêncio iniciou a acusação, tortura e execução sistemática de incontáveis “bruxas” de toda a Europa. Eram culpados do que Ag ostinho havia descrito como “uma associação criminal do mundo oculto”. Apesar do imparcial “membros de ambos os sexos” da ling uag em da bula, perseg uida eram principalmente mulheres jovens e adultas.
Muitos protestantes importantes dos séculos seg uintes apesar de suas diferenças com a Ig reja católica, adotaram pontos de vista quase idênticos. Inclusive humanistas como Desidério Erasmo e Tomam Mouro acreditavam em bruxas. “Abandonar a bruxaria —dizia John Wesley, o fundador do metodismo— é como abandonar a Bíblia.” William Blackstone, o célebre jurista, em seus Comentários sobre as Leis da Inglaterra (1765), afirmou:
Neg ar a possibilidade, é mais, a existência real da bruxaria e a feitiçaria equivale a contradizer sinceramente o mundo revelado Por Deus em várias passag ens tanto do Antig o como do Novo Testamento.
Inocêncio elog iava a “nossos queridos filhos Henry Kramer e James Spreng er” que, “mediante Cartas Apostólicas foram deleg ados como Inquisidores dessas depravações heréticas”: Se as “abominações e atrocidades em questão se mantêm sem castig o”, as almas das multidões se enfrentam à condenação eterna.
A batata nomeou ao Kramer e Spreng er para que escrevessem um estudo completo utilizando toda a artilharia acadêmica de finais do século XV. Com entrevistas exaustivas das Escrituras e de eruditos antig os e modernos, produziram o Malleus Maleficarum, “martelo de bruxas”, descrito com razão como um dos documentos mais aterradores da história humana. Thomas Ady, em Uma vela na escuridão, qualificou-o de “doutrinas e invenções infames”, “horríveis mentiras e impossibilidades” que serviam para ocultar “sua crueldade sem comparação aos ouvidos do mundo”. O que o Malleus devia dizer, virtualmente, era que, se a uma mulher a acusam de bruxaria, é que é bruxa. A tortura é um meio infalível para demonstrar a validez da acusação. O acusado não tem direitos. Não tem oportunidade de enfrentar-se aos acusadores. Se disposta
pouca atenção à possibilidade de que as acusações possam fazer-se com propósitos ímpios: ciúmes, por exemplo, ou ving ança, ou a avareza dos inquisidores que rotineiramente confiscavam as propriedades dos acusados para seu próprio uso e desfrute. Seu manual técnico para torturadores também inclui métodos de castig o desenhados para liberar os demônios do corpo da vítima antes de que o processo a mate. Com o Malleus em mão, com a g arantia do fôleg o da batata, começaram a surg ir inquisidores por toda a Europa.
Rapidamente se converteu em uma proveitosa fraude. Todos os custos da investig ação, julg amento e execução recaíam sobre os acusados ou suas famílias; até as dietas dos detetives privados contratados para espiar à bruxa potencial, o vinho para os sentinelas, os banquetes para os juízes, os g astos de viag em de um mensag eiro enviado a procurar um torturador mais experiente a outra cidade, e os faz de lenha, o alcatrão e a corda do verdug o. Além disso, cada membro do tribunal tinha uma g ratificação por bruxa queimada. O resto das propriedades da bruxa condenada, se as havia, dividiam-se entre a Ig reja e o Estado. À medida que se institucionalizavam estes assassinatos e roubos maciços e se sancionavam leg al e moralmente, ia surg indo uma imensa burocracia para servi-la e a atenção se foi ampliando das bruxas e velhas pobres até a classe média e enriquecida de ambos os sexos.
Quantas mais confissões de bruxaria se conseg uiam sob tortura, mais difícil era sustentar que todo o assunto era pura fantasia. Como a cada “bruxa” a obrig ava a implicar a alg umas mais, os números cresciam exponencialmente. Constituíam “provas temíveis de que o diabo seg ue vivo”, como disse mais tarde na América nos julg amentos de bruxas de Salem. Em uma era de credulidade, aceitava-se tranquilamente o testemunho mais fantástico: que dezenas de milhares de bruxas se reuniram para celebrar um ritual nos lug ares públicos da França, e que o céu se obscureceu quando doze mil delas puseram-se a voar para a Terra- nova. Na Bíblia se aconselhava: “Não deixará que viva uma bruxa.” queimaram-se leg iões de mulheres na fog ueira. E se aplicavam as torturas mais horrendas a toda acusada, jovem ou velha, uma vez os padres tinham bento os instrumentos de tortura. Inocêncio morreu em 1492,
depois de vários intentos faltados de mantê-lo com vida mediante transfusões (que provocaram a morte de três jovens) e amamentando do peito de uma mãe lactante. Choraram-lhe seus amantes e seus filhos.
Em Grã-Bretanha se contratou a buscadores de bruxas, também chamados “punçadores”, que recebiam uma boa g ratificação por cada g arota ou mulher que entreg avam para sua execução. Não tinham nenhum estímulo para ser precavidos em suas acusações. Estavam acostumados a procurar “marcas do diabo” —cicatrize, manchas de nascimento ou nevi— que, ao as cravar com uma ag ulha, não produziam dor nem sang ravam. Uma simples inclinação da mão estava acostumada produzir a impressão de que a ag ulha penetrava profundamente na carne da bruxa. Quando não havia marcas visíveis, bastava com as “marcas invisíveis”. Nas g aleras, um punçador de meios do século XVII “confessou que tinha causado a morte de mais de duzentas e vinte mulheres na Ing laterra e Escócia pelo benefício de vinte xelins a peça”.
Nos julg amentos de bruxas não se admitiam provas atenuantes ou testemunhas da defesa. Em todo caso, era quase impossível para as bruxas acusadas apresentar bons álibis: as normas das provas tinham um caráter especial. Por exemplo, em mais de um caso o marido testemunhou que sua esposa estava dormindo em seus braços no preciso instante em que a acusavam de estar pulando com o diabo em um ritual de bruxas; mas o arcebispo, pacientemente, explicou que um demônio tinha ocupado o lug ar da esposa. Os maridos não deviam pensar que seus poderes de percepção podiam exceder os poderes de eng ano de Satanás. As mulheres jovens e belas eram enviadas forçosamente à fog ueira.
Os elementos eróticos e misóg inos eram fortes... como pode esperar-se de uma sociedade reprimida sexualmente, dominada por varões, com inquisidores procedentes da classe dos padres, nominalmente celibatários. Nos julg amentos se emprestava atenção minuciosa à qualidade e quantidade dos org asmos nas supostas copulações das acusadas com demônios ou o diabo (embora Ag ostinho estava seg uro de que “não podemos chamar fornicador ao diabo”) e à natureza do “membro” do diabo (frio, seg undo todos os informe). As “marcas do diabo” se encontravam “g eralmente nos peitos ou partes íntimas”, seg undo o livro de 1700 do
Ludovico Sinistrari. Como resultado, os inquisidores, exclusivamente varões, barbeavam o pelo púbico das acusadas e lhes inspecionavam cuidadosamente os g enitálias. Na imolação da jovem Joana D'arc vinte anos, depois de haver lhe incendiado o vestido, o verdug o do Ruão apag ou as chamas para que os espectadores pudessem ver “todos quão secretos pode ou deve haver em uma mulher”.
A crônica dos que foram consumidos pelo fog o só na cidade alemã do Wurzburg o no ano 1598 revela a estatística e nos dá uma pequena amostra da realidade humana:
O administrador do senado, chamado Gering ; a anciã senhora Kanzier; a roliça esposa do alfaiate; a cozinheira do senhor Meng erdorf; uma estrang eira; uma mulher estranha; Baunach, um senador, o cidadão mais g ordo do Wurtzburg o; o antig o ferreiro da corte; uma velha; uma menina pequena, de nove ou dez anos; sua irmã pequena; a mãe das duas meninas pequenas antes mencionadas; a filha do Liebler; a filha do Goebel, a g arota mais bonita do Wurtzburg o; um estudante que sabia muitos idiomas; dois meninos da ig reja, de doze anos de idade cada um; a filha pequena do Stepper; a mulher que vig iava a porta da ponte; uma anciã; o filho pequeno do oficial da prefeitura; a esposa do Knertz, o açoug ueiro; a filha pequena do doutor Schuitz; uma g arota ceg a; Schwartz, côneg o do Hach...
E assim seg ue. Alg uns receberam uma atenção humana especial: “A filha pequena do Valkenberg er foi executada e queimada na intimidade.” Em um só ano houve vinte e oito imolações públicas, com quatro a seis vítimas de médio em cada uma delas, nesta pequena cidade. Era um microcosmos do que ocorria em toda a Europa. Ning uém sabe quantos foram executados no total: possivelmente centenas de milhares, possivelmente milhões. Os responsáveis pela perseg uição, tortura, julg amento, queima e justificação atuavam desinteressadamente. Só terei que lhe perg untar no se podiam equivocar. As confissões de bruxaria não podiam basear-se em alucinações, por exemplo, nas tentativas desesperadas de satisfazer os inquisidores e deter a tortura. Neste caso, explicava o juiz de bruxas, Pierre de Lancre (em seu livro de 1612, Descrição da Inconstância dos anjos Maus), a Ig reja católica estaria cometendo um
g rande crime por queimar bruxas. Em consequência, os que advog am estas possibilidades atacam a Ig reja e cometem ipso facto um pecado mortal. Se castig ava aos críticos das fog ueiras de bruxas e, em alg uns casos, também estes morriam na fog ueira. Os inquisidores e torturadores realizavam o trabalho de Deus. Estavam salvando almas, aniquilando os demônios.
Não se podiam equivocar. As confissões de bruxaria não podiam apoiar- se em alucinações, por exemplo, ou em intentos se desesperados para satisfazer aos inquisidores e deter a tortura. Neste caso, explicava o juiz de bruxas Pierre do Lancre (em seu livro de 1612, Descrição da inconstância dos anjos maus), a Ig reja católica estaria cometendo um g rande crime por queimar bruxas. Em consequência, os que expõem estas possibilidades atacam à Ig reja e cometem ipso facto um pecado mortal. castig ava-se aos críticos das queimas de bruxas e, em alg uns casos, também eles morriam na fog ueira. Os inquisidores e torturantes realizavam o trabalho de Deus. Estavam salvando almas, aniquilando aos demônios.
Certamente, a bruxaria não era a única ofensa merecedora de tortura e queima na fog ueira. A heresia era um delito mais g rave ainda, e tanto católicos como protestantes a castig avam sem piedade. No século XVI, o erudito William Tyndale cometeu a temeridade de pensar em traduzir o Novo Testamento ao ing lês. Mas, se a g ente podia ler a Bíblia em seu próprio idioma em lug ar de fazê-lo em latim, poder-se-ia formar seus próprios pontos de vista relig iosos independentes. Poderiam pensar em estabelecer uma linha privada com Deus sem intermediários. Era um desafio para a seg urança do trabalho dos padres católicos romanos. Quando Tyndale tentou publicar sua tradução, acossaram-lhe e perseg uiram por toda a Europa. Finalmente lhe detiveram, passaram a pau e depois, além disso, queimaram-lhe na fog ueira. Continuando, um g rupo de pelotões armados foi casa por casa em busca de exemplares de seu Novo Testamento (que um século depois serve de base da deliciosa tradução ing lesa do rei Jacobo). Eram cristãos que defendiam piedosamente o cristianismo impedindo que outros cristãos conhecessem as palavras de Cristo. Com esta disposição mental, este clima de convencimento absoluto de que a recompensa do conhecimento era a tortura e a morte, era difícil ajudar aos
acusados de bruxaria.
A queima de bruxas é uma Característica da civilização ocidental que,