No século XVII, o termo „sujeito‟ adquire sua conotação moderna, em função da ciência, então emergente, que colocou em questão o conhecimento até então tradicional, ligado à religião; porém este não pode ser considerado um questionamento qualquer, pois estabeleceu novas bases para o que se passou a entender como verdadeiro; desse modo, a verdade calcada nos princípios teológicos, que nortearam todo o período medieval, foi posta em cheque pelos novos valores que surgiam com a Modernidade.
Inserido nesse contexto, o filósofo Descartes propôs-se a estabelecer um meio e um fundamento que pudessem garantir, então, o valor de verdade de um saber. Nesse sentido, a operação cartesiana consistia em exercer um ceticismo metodológico que fazia duvidar de qualquer garantia baseada na percepção, que, afinal, não podia ser diferenciada de um sonho. No limite dessa dúvida metodológica, Descartes encontra uma certeza: não é possível duvidar da própria dúvida, pois ela se mostra evidente por si mesma, no próprio ato de duvidar. Sendo esse ato inquestionável, enquanto durasse era necessário que ele, Descartes, existisse; para duvidar-se, então, era preciso antes ser. No final de seu processo, portanto, há uma substância que é puro pensamento.
177Há certo consenso de que Freud praticamente não utilizou o termo „sujeito‟ em sua extensa obra. Há uma referência, contudo, no texto Pulsões e seus destinos; quando trata de questões relacionadas aos conceitos de sadismo e masoquismo, ele utiliza o termo „subjekt‟ numa acepção próxima à de Lacan. Antônio Cabas trabalha melhor essa questão (em CABAS, A. G. O sujeito na psicanálise de Freud a Lacan: da questão do sujeito ao sujeito em questão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009), que não será, contudo, desenvolvida neste trabalho.
A partir desse momento, a subjetividade humana é inventada!178 É por essa razão que Lacan, a partir das obras de Koyrè, entende que a ciência moderna estabelece um marco absolutamente inédito na história do conhecimento humano; sendo que, sem essa ciência, a psicanálise não seria possível.179
O sujeito, tal como trabalhado por Lacan, é aquele que provém do cogito de Descartes; sendo assim, é um conceito que apresenta a interessante característica de ser datado, por ter sido inventado180 em um determinado contexto histórico e social. Entretanto, ser datado não significa, evidentemente, que ele não produza efeitos até os nossos dias; ao contrário, o sujeito cartesiano parece ter se estabelecido como um sintoma de nossa contemporaneidade. Quem afirma isso é José Filipe Duarte Pereirinha:
[...] se o sujeito cartesiano ainda não parou (completamente) de fazer sintoma, talvez seja porque ele deva ser apreendido como sintoma. O sujeito cartesiano faz sintoma porque ele é essencialmente, enquanto sujeito, um sintoma. E isso num duplo sentido: não apenas porque o velho sujeito (cartesiano) entrou em „crise‟ (sendo esta um dos nomes do sintoma, por excelência), como também este, o sintoma, é suposto-sujeito, isto é capaz de dar conta de uma posição subjectiva e não meramente de um desarranjo disfuncional que importa eliminar, como pretendem, por exemplo, a medicina farmacológica ou as terapias correctivas. É neste sentido que poderíamos dizer que o sintoma com que lida a psicanálise é cartesiano, na
178 Ver, a esse respeito, FIGUEIREDO, L. C. M. A invenção do psicológico: quatro séculos de subjetivação (1500- 1900). São Paulo: Escuta, 1992.
179 Em sua obra Estudos de história do pensamento científico, Koyré aponta que a ciência não avança no tempo de forma progressiva ou acumulativa, mas se constrói através de cortes epistemológicos (KOYRÉ, A. Estudos de história do pensamento científico. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1991). De forma bastante simples, um corte epistemológico é uma ruptura ocorrida no desenrolar da história da ciência, algo que transforma, de forma radical, a compreensão das evidências colhidas pelo saber da ciência, isto é, a leitura do que poderia ser chamado o “livro da natureza”, dos fenômenos conhecidos e a serem descobertos, passa a ser realizada através de uma nova matriz, que é, estruturalmente, diversa da anterior. Assim, por ser um corte radical, o presente, agora compreendido a partir da nova matriz interpretativa da realidade, desata seus laços com o passado, o que significa, em termos da ciência, que “o passado de uma ciência atual não se confunde com essa mesma ciência no seu passado”, nas palavras de Canguilhen (op. cit., p. 20-21). Já em Do mundo fechado ao universo infinito, Koyré procura esclarecer e situar no tempo a ocorrência do corte epistemológico que deu origem à ciência moderna, o qual, segundo ele, deu- se na passagem de uma concepção finita de mundo, de existência de um cosmo fechado sobre si mesmo e hierarquicamente ordenado, para uma concepção de um universo infinito e homogêneo. Isso implicou em um divórcio “do mundo do valor e do mundo dos fatos”, o que ocasionou a exclusão, do campo das considerações científicas, de tudo aquilo que fosse da ordem dos conceitos de valor (KOYRÉ, 2006, p. 5-6).
180 É importante esclarecer que o termo „inventado‟ não se refere à existência de um inventor, no sentido a que nos referimos quando dizemos que “Santos Dumont inventou o avião”. A ideia de invenção do sujeito remete a uma situação história e social específica, cujo ambiente cultural, em sentido amplo, permite o surgimento de uma nova concepção de homem.
CIÊNCIA, CAPITALISMO E PSICANÁLISE 124
medida em que pressupõe um sujeito que, de um modo ou de outro, responda por isso.181
As relações entre o sujeito cartesiano e o sujeito da psicanálise, portanto, são de muita proximidade. Entretanto, a principal herança do sujeito cartesiano para Lacan é a certeza de que, no cogito, o sujeito é desprovido de quaisquer qualidades. O cogito indica, de fato, um vazio, uma suspensão de todas as certezas para além da única certeza possível, de que há um “pensamento do eu” a respeito de sua própria existência, mas essa suspensão indica um sujeito sem conteúdos, sem propriedades sensoriais ou psicológicas de qualquer natureza.
Lacan nega, ipso facto, que a subjetividade possa ser caracterizada pela transparência dos atos de consciência, pela interioridade como instância destes atos e pela autonomia da vontade. A estratégia é subverter a teoria moderna do sujeito, propondo o sujeito não mais como fundamento do conhecimento e da vontade livre, mas como efeito de determinações da ordem do imaginário, do simbólico e do real; não mais como unidade e interioridade, mas como marcado por uma divisão que lhe é essencial (a „Spaltung‟).182