Após a discussão das diferenças gerais entre N e nominal, a unidade lingüística ‘sintagma nominal’ (SN) merece uma análise mais aprofundada, sobretudo em termos semânticos e morfossintáticos. Em relação à organização conceitual, Taylor (2002) enfatiza a relação entre o tipo e a ocorrência, isto é, entre o lexema e sua instanciação na palavra-
ocorrência. Para o autor, são as caracterísitcas do SN a seguir que formam a base para a realização morfossintática, em conjunto com os tipos de N (4.2.2):
i) a especificação: um modificador, por exemplo adjetival, especifica o tipo; ii) a instanciação: a relação entre o tipo e suas ocorrências;
iii) a quantificação: número e quantidade da instância designada;
iv) de ancoragem (ou: grounding): a localização da instância designada pelo falante, vista pelo ponto de vista do evento de fala.
Já foi mostrado que o SN constitui uma categoria sintática com características e funções que combinam recursos gramaticais (por operadores) e lexicais (por modificadores). Embora a distribuição desses recursos entre gramatical e lexical possa ser abordada de várias formas, há de se considerar que esses basicamente se encarregam da dupla função de um SN (Rijkhoff, 2002):
• descrever um referente fisicamente, com suas propriedades qualitativas, quantitativas e posicionais;
• ser expressão referencial, em que o referente é uma entidade sobre a qual se fala e que está sendo atualizada no discurso.
Em relação à função descritiva, sobressai o papel dos recursos lexicais, já que estes permitem uma especificação detalhada e precisa do referente. Além disso, é a descrição do referente também completada nas suas propriedades interpessoais e contextuais, principalmente quando, no caso mais típico, o SN é referido e atualizado. Assim, a função referencial está estreitamente ligada à descrição da entidade, mas também ao tipo de entidade expresso no núcleo.
É a dupla função mencionada que estabelece os critérios básicos para o modelo de SN de Hengeveld (2004b e n.p.), também abordada em Keizer (2004), Rijkhoff (2002), Vossen (1995), assim como em Butler (n.p.). Segundo Hengeveld, o SN constitui um tipo de nominal que pode ser estudado na aproximação a um protótipo com as características de i) ter presença de núcleo nominal; ii) designar uma Ent-1 concreta por meios lexicais; e iii) ter uso referencial. É este último ponto que leva um SN a se tornar um SRef, contando que a denominação SN apenas realça os aspectos formais. Para a FDG, interessam os fatores funcionais e semânticos, bem com seu lugar no modelo de gramática.
As características que mais sobressaem são, portanto, lexicalidade e referencialidade, mas não o tipo de entidade do núcleo. Por causa disso, a noção de protótipo pode ser aplicado para entidades de ordem mais alta, desde que expressas pela categoria lexical N, por exemplo, ‘investimento’, ‘exportação’, ‘produção’, todas Ent-2; ‘fato’, ‘idéia’, ‘plano’, todas entidades de ordem mais alta. Com isso, pode-se afirmar que a prototipicalidade está mais na categoria N do que no tipo de entidade. Dessa forma, busca-se uma adaptação para um modelo que também considere entidades de diversas ordens, como aquelas que são designadas por formas nominalizadas, e que explique regularidades que aparecem no nível morfossintático do SN do português.
Para o exame dos outros elementos que podem integrar um SN, são de interesse as especificações dadas em Rijkhoff (2002) sobre os modificadores no constituinte.26 Em torno do predicado (na presente análise, o núcleo), as camadas de Qualidade (Qual), Quantidade (Quant) e Locação (Loc) arranjam-se por meio de expressões lexicais (modificadores) e recursos gramaticais (operadores). Reconhecem-se, no exemplo ‘estes dois livros novos de lingüística em cima da mesa’ (Quadro XXIV), as noções semânticas já discutidas na subseção anterior, que especificam o núcleo ‘livros’. Não é relevante se cada camada está representada por operadores ou modificadores, ou se não tem expressão, mas a presença de modificadores importa em termos de ordenação relativa com o núcleo. Para o SN do português, a ordenação é como aquela mostrada no SN a seguir27:
QUADRO XXIV:NOÇÕES SEMÂNTICAS NO NP(RIJKHOFF,2002)
Exemplos: ‘estes dois livros novos de lingüística em cima da mesa’
estes dois - livros
novos de lingüística
- em cima da mesa
Loc Quant Qual Núcleo Qual Quant Loc
26
Para criar o modelo de SN e dividir as camadas semânticas em Qualidade, Quantidade, Localização, o autor baseia-se em Aristóteles e em ampla pesquisa tipológica. Restringe o modelo de SN a Ent-1 concretas e, entre outros, traça um paralelismo interessante entre a ordenação de constituintes na oração e os componentes no sintagma nominal, recriando a estrutura de camadas elaboradas em Hengeveld (1989).
27
A camada Quant, expressa por numerais e medidas, já foi abordada anteriormente. A camada Locação, a mais externa, prioriza os recursos lexicais e freqüentemente é expressa em construções mais complexas com relatores, partículas, adposições. Abrange a locação em termos de discurso (pronomes possessivos, demonstrativos que se referem aos participantes e à situação comunicativa) e em termos de localização do conteúdo em relação ao mundo físico (demonstrativos que se referem à dêixis extradiscursiva, locuções locativas e sintagmas adposicionais). Desta forma, estão incluídos os sintagmas de posse, que substituem o chamado ‘genitivo’ de outras línguas (33), a relativa (34), os sintagmas adposicionais (35) e as estruturas subordinadas (encaixadas), muitas vezes com a estrutura argumental preservada (36).
(33) o livro de João
(34) o livro que o João me emprestou (35) o livro na estante
(36) o livro emprestado ao João
Os modificadores de Qual, assim como os de Loc, também obedecem os outros princípios internos de ordenação, entre os quais estão os princípios ditados por LIPOC (Language-Independent Preferred Order of Constituents, Dik, 1997a; Rijkhoff, 2002). Estes principios estabelecem um conjunto de regularidades de ordenação que podem ser observados nas línguas. Por exemplo, conclui-se que os componentes mais complexos, como os introduzidos por relatores, como ‘de’ ou as preposições do português, são modificadores frasais e localizam-se mais longe do núcleo, à direita, por serem mais complexos e ‘lingüisticamente pesados’, ou seja, contêm muito material lingüístico. Isso vale tanto para modificadores de Qual (‘de lingüística’, no Quadro XXIV), quanto para Loc (‘em cima da mesa’). De qualquer modo, pesa, na morfossintaxe do SN, a distinção entre Qual e Loc, assim como entre lexema simples e locução. Esse assunto será exposto e discutido no capítulo 6.
A análise dos modificadores de qualificação, localizadas na camada Qual de Rijkhoff, encontra importante explicação no modelo de FDG. Hengeveld (n.p.) cita três tipos de modificadores que atuam no SN, em dois níveis distintos: no nível interpessoal, modificadores de discurso ΣR; no nível representacional, modificadores σx ou modificadores de referência, e σf, modificadores de referente. A distinção entre modificadores de referência e de referente (Bolinger, 1967; apud Hengeveld, n.p.) aplica-se para o uso de lexemas da categoria lexical ADJ, muitas vezes com os mesmos ADJs. Sua caracterização baseia-se em
valores semânticos. Assim, os modificadores de referente σf são mais inerentes, pois especificam subpropriedades da propriedade expressa pelo N nuclear (variável f). Já os modificadores de referência especificam propriedades da entidade designada como um todo e têm escopo maior; são indicados pela variável x sobrescrita. Com a mesma forma, os ADJs distinguem-se por outros recursos: ordenação no SN (gramático) e entonação.
No português, muitas vezes, um grupo de ADJ segue essa distinção pelo posicionamento: os ADJs que representam σx permitem a anteposição ao núcleo N, enquanto os de σf sempre estão na posição default, ou seja, seguem o esquema previsto de modificação no sintagma e são pospostos. As relações de escopo articulam-se, então, por recursos morfossintáticos. Nesse sentido, cabe a observação que, também nesse nível, não é justificada a separação nítida entre operadores e modificadores, uma vez que recursos gramaticais, como a ordem no SN, interagem, na qualificação, com recursos lexicais (ADJ), por exemplo, os modificadores. Como exemplo, cita-se a diferença semântica entre ‘um amigo velho’ e ‘um velho amigo’. No primeiro, há um modificador de referente, que espedifica o amigo por uma propriedade mais inerente (a idade dele), enquanto, no último exemplo, como modificador de referência, a idade se refere ao tempo de haver amizade e não ao amigo. Observam-se as alterações na ordem e na entonação.
Em termos de posicionamento, as diretrizes para um ADJ ser anteposto estendem-se para o terceiro tipo de modificadores, os de discurso (ΣR), que expressam atitude subjetiva por meio lexical. De acordo com LIPOC, isso vale apenas para modificadores em forma de lexema simples, e não para modificadores complexos, ou frasais. Hengeveld ilustra a questão com o exemplo do ADJ poor do inglês (Hengeveld, n.p.) Para o português, o tipo de modificador de discurso é mais raro no nível do sintagma, sobretudo para lexemas da CL ADJ, embora seja possível com modificadores com forma e função de ADV, como será discutido mais adiante. Mas, o recurso de estruturação pelo mesmo esquema morfossintático de modificadores de referente, ou seja pela anteposição, também vale para os do nível interpessoal. Isso é ilustrado nos esquemas do Quadro XXV. No decorrer da discussão sobre ADV, verificar-se-á que os esquemas para ADV são os mesmos (capítulo 6).
QUADRO XXV:ESQUEMAS MORFOSSINTÁTICOS PARA NÚCLEO/MODIFICADOR NO SN DO PORTUGUÊS:
1. Esquema para σf: 2. Esquema para σx e ΣR:
[[lexemaN]RefP [lexemaAdj]ModP]
[[[lexemaAdj]ModP lexemaN]RefP]
‘um amigo velho’ ‘um velho amigo’ σf = modificador de referente σx = modificador de referência[ ΣR = modificador de discurso
A interpretação dada, na literatura do português, à ordem no sintagma, restringe-se ao rótulo de ‘subjetividade’ quando há anteposição (Ilari et al., 2002). De qualquer modo, a anteposição parte da decisão do falante e, assim, realmente constitui uma estratégia do falante, com resultado na expressão morfossintática do SRef. No entanto, a explicação pela tipologia de modificadores nas ocorrências de anteposição ao núcleo do português, é superior, uma vez que a ordem alterada é acompanhada por distinções semânticas.
A diferenciação desse grupo de qualificadores, nos quais o falante se mostra presente por meio de avaliação e perspectiva sobre a entidade ou o evento designado, nem sempre é fácil. Keizer (2004) tem uma proposta interessante sobre a distinção entre subjetividade do falante e influências do contexto comunicativo. Nos exemplos do inglês da autora (Keizer, 2004:15), a splendid ideia contém um modificador que indica atitude relacionada à avaliação, e a tentative answer aponta para modo ou atitude em relação ao contexto comunicativo. Para o português, ficou claro que a anteposição de ADJs constitui um exemplo de modificação interpessoal, que é incompatível com a função classificadora dos ADJ. Esse fato tem conseqüências na ordenação dos componentes quando houver um núcleo que designa uma entidade de ordem mais alta do que Ent-1, mas também na especificação de termos básicos do discurso de especialidade. A especificação de um termo básico por meios lexicais, por exemplo, ADJs ou locuções adjetivais, somente é possível pelo primeiro esquema do Quadro XXV (modificador de referente σf).
Por último, a referenciação representa uma característica fundamental do sintagma nominal. É o nível interpessoal que se encarrega da referenciação por meio do subato referencial (R). Um constituinte sintagmático com núcleo N foi tratado, nessa seção, como SN, quando visto sob ângulo morfossintático e de análise interna, mas é referencial (SRef)
quando integrado ao discurso. A presença de operadores e modificadores de discurso (ΠR e ΣR
), por exemplo, representa um desses distintivos.