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O enveredar pelos caminhos leitores de uma cidade, no caso Fortaleza, na segunda metade do século XIX, traz à tona a necessidade de compreender os traçados da memória. Essa urgência se faz necessária, uma vez que como seres históricos, os sujeitos, precisam se adequar aos ditames sociais de cada época e de cada cultura. Falar de leitura é, portanto, remeter simultaneamente a memórias coletivas e individuais, assim como a questões da formação da própria identidade dos sujeitos e de um povo.

O estudo da memória, inicialmente, pode ser compreendido pela sua acepção mitológica das civilizações da antiguidade, como a grega e a romana, que tinham a memória como uma divindade em seu panteão de deuses.

76 É possível encontrar referências à Memória na Mitologia da Grécia Antiga. A obra de Hesíodo, a Teogonia, que trata da genealogia dos Deuses, conta que a Memória era filha de Urano (o céu) e de Gaia (a terra), além de ser irmã de Cronos (o tempo). Chamada de Mnémosine, era uma titânia, deusa primordial. Conta o mito que era muito temida por todos, uma vez que tinha a capacidade de causar o esquecimento. Dentre as várias histórias envolvendo a Mnémosine, em uma delas, Zeus ao destronar seu pai, Cronos, deitou-se com Mnemosine por nove noites, dando origem a nove entidades, as Musas, proclamadoras de glorias, a cantar o presente, passado e futuro.

A origem mítica da memória remete a muitas interpretações, pois ao ser filha do céu e da terra, é passiva à existência da esfera humana, tendo, além disso, o tempo como irmão ela está sempre a par do fluxo histórico. Mostra, ainda, o seu poder de traçar destinos, uma vez que tem como filhas as Musas, fato que implica o poder narrativo de perpetuar a história, organizar informação e conhecimento e ser detentora do poder implícito nos discursos.

Com ligação direta aos fenômenos humanos, a memória, pode ser compreendida “[...] como propriedade de conservar certas informações, remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele representa como passadas” (LE GOFF, 1990, p. 366).

A forma como se atualizam essas informações se relaciona aos processos cognitivos de rememoração, recordação e esquecimento, ao acesso ao passado pelo que se chama ‘materialização de lembranças’, coisificação de experiências ou informações – remetendo, novamente, ao conceito cunhado por Buckland (1991) de ‘informação como coisa’ – É uma capacidade inerente à memória e à informação de materializar-se e facilitar o acesso a essas informações ou lembranças. É também uma atividade de reconstituição histórica, como a defendida por Connerton (1993), que vem a servir de base para a ritualização das memorias de um povo.

Como guardiã do tempo e de suas realidades, a memória, não segue a lógica temporal do tempo físico que é linear e, nesse movimento, não retém nada, apagando os instantes. O tempo mnemônico é de outra ordem, é um eterno devir, teima em perpetuar-se na matéria e, nas palavras de Bergson, citado por Schöpke (2009), seria o próprio élan vital, a própria vida a tecer-se sobre narrativas.

Se Bergson diz, contrariando a tese einsteiniana, que existe um tempo único e universal, não é porque ele concorde com aquele tempo abstrato de Newton, que passa e apaga os instantes anteriores, sem se conservar jamais. A este ele chama de

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ilusório (e nós) também, como já dissemos. O tempo ali é defendido, como duração em si, desvencilhada de toda matéria. O misto se desfez. O tempo puro não passa, dura, porque passar é apagar o que passou e isso é o mesmo que dizer que não existe o tempo. Mas o tempo é memória, é colagem dos instantes, assim como duração interior é a colagem das lembranças. É um instante que não pode morrer, mas que que se conserva num passado, que tem de existir em si, ou então seria apenas psicológico. O passado em si é a dimensão real do tempo, mais do que o presente ou o futuro, porque o ser é memória. O presente é um instante, mas o ser é o prolongamento do passado no presente, é a insistência da vida que se materializa no seio do caos material. Também aqui somos bergsonistas, porque – num certo sentido – também defendemos uma memória do mundo que se conserva, a única questão é que ela se conserva na própria matéria. A matéria inventou uma maneira de permanecer, de se perpetuar, de ‘continuar’. (SCHÖPKE, 2009, p. 239-240).

Sem memória, o homem estaria fadado à repetição de erros, à ignorância, a uma estagnação evolutiva que impediria o nascimento do mundo como se tem atualmente. Sendo necessário recordar, para tanto, são criados os registros do conhecimento e outras formas de perpetuar as experiências e marcas no mundo.

Nessa perspectiva, a memória materializa-se, onde se torna necessário remeter à história dos suportes de registro do conhecimento, do surgimento da escrita, passando pelas tabuletas de argila da Antiguidade, até a popularização do papel e do códex. Isso evidencia a passagem de uma memória oral, biológica, na concepção de Eco (2010), pois é aquela memória que passa, hereditariamente, pela tradição.

[...] com a invenção da escrita, assistimos ao nascimento de uma memória mineral. Digo mineral porque os primeiros signos foram gravados em tabuinhas ou esculpidos sobre a pedra; porque faz parte da memória mineral também a arquitetura, visto que, das pirâmides egípcias a catedrais góticas, o templo era também um registro de números sacros, de cálculos matemáticos, e por intermédio de suas imagens ou de suas pinturas transmitia historias, ensinamentos morais; em suma, constituía, como também já foi dito, uma enciclopédia em pedra. (ECO, 2010, p.14).

Essa memória mineral que Eco (2010) associa à arquitetura, também se faz presente, atualmente, nos suportes eletrônicos de registro do conhecimento. Os componentes minerais são a matéria prima para construção dos circuitos de computadores, celulares e outros eletrônicos.

Nessa evolução dos suportes de registro da memória, surge uma terceira memória, para além daquela biológica e mineral, tida como vegetal. Segundo Eco (2010, p. 15):

[...] nasceu pouco a pouco o terceiro tipo de memória, que decidi denominar vegetal porque, embora o pergaminho fosse feito com peles de animais, o papiro era vegetal e, com o advento do papel (desde o século XII), produzem-se livros com trapos de linho, cânhamo e algodão – e por fim a etimologia tanto de biblos como de liber remete à casca da árvore. (ECO, 2010, p. 15).

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Desse modo, o caminhar pela evolução dos registros da memória evidencia a inserção desse fenômeno ao da informação, uma vez que, se decompostas, as memórias são consideradas como conjuntos de informação. Em uma perspectiva idenitária, é possível recorrer aos estudos de Candau (2011) sobre memória e identidade, onde:

A memória, ao mesmo tempo em que nos modela, é também por nós modelada. Isso resume perfeitamente a dialética da memória e da identidade que se conjugam, se nutrem mutuamente, se apoiam uma na outra para produzir uma trajetória de vida, uma história, um mito, uma narrativa. (CANDAU, 2011, p. 16).

Os usos que se fazem das memórias registradas em relação às memórias pessoais e às memórias de outros sujeitos, exercem uma função formadora do próprio sujeito. Ainda segundo Candau (2011, p.18): “a memória é a identidade em ação. [...] o jogo da memória que vem fundar a identidade é necessariamente feito de lembranças e esquecimento.”

Como rememorar remete a uma ação, sob a ótica das atividades em sociedade, o rememorar acontece diariamente, como nas conversas com o outro ou no próprio ato de leitura. Assim, o coletivo exerce influência na construção de memórias coletivas e o inverso também acontece.

Há nessa dinâmica entre o indivíduo e o coletivo na constituição de uma memória e, consequentemente, de uma identidade na concepção de que, segundo Halbwachs (1990), a memória individual só é possível pela memória coletiva, uma vez que essa última é uma coletânea de memórias individuais. Uma define, portanto, e ampara a outra.

[...] a memória individual. Ela não está inteiramente isolada e fechada. Um homem, para evocar seu próprio passado, tem frequentemente necessidade de fazer apelo às lembranças dos outros. Ele se reporta a pontos de referência que existem fora dele, e que são fixados pela sociedade. Mais ainda, o funcionamento da memória individual não é possível sem esses instrumentos que são as palavras e as ideias, que o indivíduo não inventou e que emprestou de seu meio. Não é menos verdade que não nos lembramos senão do que vimos, fizemos, sentimos, pensamos num momento do tempo, isto é, que nossa memória não se confunde com a dos outros. Ela é limitada muito estreitamente no espaço e no tempo. (HALBWACHS, 1990, p. 36).

Do mesmo modo, a memória coletiva também se realiza pelas temporalidades de uma época e está sempre a evocar as memórias individuais dos sujeitos. Ainda, segundo Halbwachs (1990, p. 37):

A memória coletiva o é também: mas esses limites não são os mesmos. Eles podem ser mais restritos, bem mais remotos também. Durante o curso de minha vida, o grupo nacional de que eu fazia parte foi o teatro de um certo número de

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acontecimentos, dos quais digo que me lembro, mas que não conheci a não ser pelos jornais ou pelos depoimentos daqueles que deles participaram diretamente. Eles ocupam um lugar na memória da nação. Porém eu mesmo não os assisti. Quando eu os evoco, sou obrigado a confiar inteiramente na memória dos outros, que não vem aqui completar ou fortalecer a minha, mas que é a única fonte daquilo que eu quero repetir. Muitas vezes não os conheço melhor, nem de outro modo, do que os acontecimentos antigos que ocorreram antes de meu nascimento. Carrego comigo uma bagagem de lembranças históricas, que posso ampliar pela conversação ou pela leitura. Mas é uma memória emprestada e que não é minha. No pensamento nacional, esses acontecimentos deixaram um traço profundo, não somente porque as instituições foram modificadas, mas porque a tradição nelas subsiste muito viva em tal ou qual região do grupo, partido político, província, classe profissional ou mesmo em tal ou qual família; e em certos homens que delas conheceram pessoalmente as testemunhas. Para mim, são noções, símbolos; eles se apresentam a mim sob uma forma mais ou menos popular; posso imaginá-los; é-me quase impossível lembrá- los. Por uma parte de minha personalidade, estou engajado no grupo, de modo que nada do que nele ocorre, enquanto dele faço parte, nada daquilo que o preocupou e transformou antes de que nele entrasse me é completamente estranho. Mas se eu quiser reconstituir em sua integridade a lembrança de um tal acontecimento, seria necessário que eu juntasse todas as reproduções deformadas e parciais de que é o objeto entre todos os membros do grupo. Pelo contrário, minhas lembranças pessoais são inteiramente minhas, estão inteiramente em mim. (HALBWACHS, 1990, p. 37).

Em resumo, o entendimento de uma memória puramente individual sempre irá remeter a um aspecto da memória do grupo ao qual se pertence, pois se estabeleceram relações com o ambiente e com as pessoas que integram esse grupo, ao mesmo tempo em que, ao remeter a memória do coletivo, eu estaria a reclamar as visões sobre os fatos que aconteceram nesse grupo, pela ótica dos seus componentes. Em síntese:

Seria o caso, então, de distinguir duas memórias, que chamaríamos, se o quisermos, a uma interior ou interna, a outra exterior; ou então a uma memória pessoal, a outra memória social. Diríamos mais exatamente ainda: memória autobiográfica e memória histórica. A primeira se apoiaria· na segunda, pois toda história de nossa vida faz parte da história em geral. Mas a segunda seria, naturalmente, bem mais ampla do que a primeira. Por outra parte, ela não nos representaria o passado senão sob uma forma resumida e esquemática, enquanto que a memória de nossa vida nos apresentaria um quadro bem mais contínuo e mais denso. (HALBWACHS, 1990, P. 37).

A memória, coletiva ou individual, permite, portanto, que os traços de identidade e diferenciação cultural sejam perpetuados, uma vez, que os traços culturais singulares são preservados na memória coletiva e individual.

Assim, os estudos mnemônicos evidenciam as características sociais e as formas de assimilação, produção e disseminação do conhecimento pelas civilizações permeadas sempre pelo espaço e tempo vivenciados pelas pessoas.

Na perspectiva da Ciência da Informação, contudo, a memória é percebida como ato de armazenamento e preservação de informação tanto para a sociedade atual quanto para as do porvir. Desse modo, enquanto a memória histórica alude ao passado, ao

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que foi feito ou dito, a memória, para o presente campo de estudos, é projetada para o futuro, ou seja, para o que está sendo feito ou precisa ser feito, objetivando a preservação e a disseminação de informação. (GALINDO, 2012, p. 213).

É evidente a associação de memória com informação na própria CI, levando em consideração os aspectos de preservação e disseminação da informação. A leitura entra nesse bojo, uma vez que a memória pode ser decomposta em narrativas que, somente pelos processos comunicacionais da linguagem, como a leitura, podem ser acessadas pelas pessoas.

A memória ressignifica a leitura, enquanto a leitura remete a sensações e a evocação de lembranças. O que se quer dizer é que o ato mnemônico, constituinte de identidade, age sobre a leitura mediando o texto através do repertório informacional de cada sujeito relacionando-o com as informações obtidas no momento da interpretação do escrito. Do mesmo modo, o conteúdo escrito pode remeter às memórias individuais armazenadas.

Ao se trabalhar com a noção de memória, que se entrelace com a materialidade da informação, a constituição de traços identitários e as práticas leitoras – uma vez que se acessam as narrativas mnemônicas pela leitura –, também se evoca a noção de imaginário.

Uma vez que o imaginário remete à constituição de tradições e culturas de uma coletividade e ao se investigar, aqui, um grupo de leitores que são tidos como fundadores de uma tradição literária e leitora, o entendimento do imaginário serve de base para a compreensão dessa cultura leitora, em construção na ótica dos referidos grupos leitores.