Os Clubes de Protagonismo pretendem promover e estimular o trabalho em equipe a partir da integração dos estudantes em atividades relacionadas às suas habilidades pessoais. Um dos passos descritos no manual destinado a explicar o que são os clubes e como implantá- los, é o contrato de convivência. Segundo o material cedido pela SME, todo grupo organizado
necessita de um contrato cujas regras tenham como finalidade a garantia do bom funcionamento das atividades e das relações internas da equipe.
É no Contrato de Convivência que estão presentes as regras que, se cumpridas, garantem que todos se relacionem muito bem em torno do trabalho a ser realizado. Nem sempre todos estão atentos aos seus direitos e aos seus deveres e, por isso, deixar as coisas claras poderá evitar uma série de problemas. (...) Nos Clubes isso também é importante, pois como se trata de um trabalho que envolverá diversas formas de agir e pensar sobre um mesmo objetivo, conhecer as regras e cumpri-las evitará conflitos desnecessários. (MANUAL CLUBES DE PROTAGONISMO, 2015, p. 25)
Tendo em vista que os Clubes de Rádio são gestados dentro de comunidades escolares e que essas estruturas institucionais objetivam o fortalecimento de vínculos baseados em compartilhamento, colaboração e unidade, sobretudo, por funcionarem sob a proposta de tempo integral, onde os sujeitos comunitários permanecem juntos por dois turnos consecutivos, de segunda a sexta-feira, e o senso de participação coletiva é uma ordem necessária. Por essa razão, a coletividade torna-se uma categoria fundante para esta pesquisa, pois a proposta e o contexto em que se inserem os Clubes de Rádio, objeto desse estudo, fundamenta-se em bases coletivas de gestão e desenvolvimento das atividades e na convivência diária de seus integrantes. Nesse sentido, a categoria será verificada nos processos de gestão, produção e recepção das atividades desenvolvidas pelos Clubes de Rádio e analisada a partir das visões compartilhadas, principalmente, por Martín-Barbero (2014) e Freire (1977), dois pensadores que destacam a comunicação, o diálogo e a convivência como elementos-chave para o êxito da construção coletiva.
No que Martín-Barbero (2014) chamou de primeira teoria latino-americana de Comunicação, Paulo Freire “vinculou o sentido da comunicação à geração de uma linguagem capaz de nomear o próprio mundo” (p.19). Dessa forma, a comunicação se coloca como imperativa no sentido de “pôr em comum”, de forma harmoniosa ou não, todos os elementos inerentes à convivência humana, a partir da linguagem. Vejamos:
A porta para a comunicação que nos abre Paulo Freire é basicamente para a sua estrutura dialógica. Pois há comunicação quando a linguagem dá forma à conflituosa experiência do conviver, quando se constitui em horizonte de reciprocidade de cada homem com os outros no mundo. (idem, p. 29)
Essa experiência do conviver mediante o processo comunicativo nos aponta para as relações de convivência que podem ser observadas dentro da comunidade escolar. Convivência essa complexa e conflituosa, mas, ainda assim, um lugar onde os sujeitos dividem vivências, saberes e aprendizados, um ambiente de trocas extremamente fecundo às possibilidades de construção coletiva e democrática.
O sujeito pensante não pode pensar sozinho; não pode pensar sem a coparticipação de outros sujeitos no ato de pensar sobre o objeto. Não há um “penso”, mas um “pensamos”. É o “pensamos” que estabelece o “penso” e não o contrário. Esta coparticipação dos sujeitos no ato de pensar se dá na comunicação. (FREIRE, 1977, p. 66)
Esse “pensamos” do qual fala Freire (1977) acompanha a proposta de gestão coletiva dos espaços sintetizada para os Clubes de Protagonismo. Por essa razão, além de estabelecerem um contrato de convivência para o bom desenvolvimento dos relacionamentos, os clubes também precisam pensar coletivamente um Plano de Ação. O manual que rege essa proposta pedagógica aponta o Plano de Ação como a “bússola do Clube” e deve conter: a missão, que representa o sonho dos integrantes do Clube; o objetivo, que deve estar atrelado às pretensões do grupo; os valores; os resultados esperados; as prioridades, estratégias, funções da equipe, plano de atividades e os resultados alcançados durante o ano letivo. Dessa forma, verifica-se que todo o plano exige um pensar coletivo, planejado e organizado.
As experiências e as aprendizagens na comunidade escolar se estabelecem a partir do coletivo, do compartilhado e ainda que cada indivíduo vivencie sua forma específica de aprendizado, todo o conhecimento se desenvolve na partilha. Nos Clubes de Rádio, a percepção da relevância da dimensão coletiva é ainda mais urgente, pois o resultado do trabalho desenvolvido internamente pela equipe responsável destina-se à toda escola, ou seja, é uma experiência coletiva para o coletivo. Portanto, assim como a escuta pretende dar-se de forma coletiva nos espaços coletivos/compartilhados da escola, o que acontece no estúdio (ou ao vivo no palco do auditório), antes e depois precisa ser participativo, integrado, dialogado.
A dimensão coletiva de todo e qualquer propósito precisa se estabelecer mediante o diálogo e este pela comunicação, pelas palavras que são lançadas ao outro em busca de respostas, de outras palavras, semelhantes ou diferentes. Diálogo implica alteridade, mais “nós” do que “eu”. Nesse sentido, portanto, Martín-Barbero (2014) propõe a assertiva de que “dialogar é descobrir na trama de nosso próprio ser a presença dos laços sociais que nos sustentam. É lançar as bases para uma posse coletiva, comunitária, do mundo”. (p. 33).
Nesse contexto, em tempos de convergência, as possibilidades de experiências serem gestadas coletivamente se ampliaram significativamente. Jenkins (2009) refere-se, nessa ordem, à cultura participativa, que incentiva as interações a partir dos consumos midiáticos protagonizados pelos indivíduos. Para o autor, o consumo tornou-se um processo coletivo e, por essa razão, a ideia de inteligência coletiva, discutida por Pierre Lévy (2003) constitui-se uma fonte alternativa de poder midiático operante nas interações cotidianas, que funciona de forma a agregar conhecimentos, habilidades, recursos de diversos indivíduos num mesmo
espaço, construindo, portanto, coletivamente, inteligência e poder. Ainda que esse poder esteja sendo usado principalmente para finalidades de entretenimento, as possibilidades dessas trocas se ampliarem para questões de finalidades políticas são reais e iminentes.
Desta forma, a dimensão coletiva das construções realizadas em torno dos Clubes de Rádio será também analisada a partir da cultura da convergência, sobretudo, mediante a verificação de como e quais recursos estão sendo utilizados com o propósito de potencializar a participação dos integrantes do Clube, da comunidade escolar com a rádio, e mesmo perceber como tem se caracterizado a recepção da programação radiofônica após o uso dos
smartphones (em que medida tem sido alterado o propósito de escuta coletiva).
Tendo em vista que as tecnologias não garantem a horizontalidade participativa, mas as formas como são utilizadas é que podem ou não definir esse propósito, torna-se interessante, portanto, identificar de que forma os elementos da cultura convergente têm sido incorporados nesses processos experimentados em ambientes escolares.