• No results found

Luís Mauro Sá Martino questiona se não seria tentador pensar na Internet como uma elaboração contemporânea da Esfera Pública, entendida a princípio, como o espaço democrá- tico de troca de ideias entre cidadãos.

A Internet, lugar privilegiado para eventual discus- são sobre temas de relevância social, se destaca pelas possibilidades de interação entre públicos diferen- tes, de discutir assuntos de interesse geral e da parti- cipação política nos vários sentidos desta expressão (MARTINO, 2014, p. 90).

Em seguida, o próprio autor aponta que a resposta está na análise de vários pesquisadores que buscaram no conceito origi- nal de Esfera Pública proposto por Habermas e o confrontaram com as características próprias da Internet.

Diante do conceito apresentado por Habermas e no con- texto da pesquisa que estamos desenvolvendo, a Esfera Pública é item de extrema relevância, visto que há indícios de que conside- rável parcela dos temas e pontos de vistas abordados nesses blogs emerge do debate travado na Esfera Pública.

Muniz Sodré (2009) traz à tona as novas formas de narrar os fatos, a Internet, tida como “mídia instantânea” ou “mídia pes- soal” transforma o antigo “público-receptor” em fonte emissora ou “homem-mídia”, devido às possibilidades técnicas de que se investe todo e qualquer indivíduo munido de um computador e acesso à Internet.

Os blogs ou fontes informativas de natureza indivi- dual implicam uma intervenção pessoal nos discur- sos socialmente circulantes (ainda que, em princípio, limitados ao espaço das redes cibernéticas) e acabam influenciando a pauta jornalística profissional (...) o leitor se investe de chances de determinar a notícia, intervindo diretamente na competência logotéc- nica do especialista (o jornalista profissional) para dá maior relevância ao logotécnico amador ou, na opinião de muitos, ao ‘jornalista cidadão’ (SODRÉ, 2009, p. 100).

Toda essa reconfiguração causada pelo advento da tec- nologia e da Internet também implica mudanças no perfil e na vivência social dos receptores da produção jornalística. A pos- sibilidade de participação direta trouxe mudanças na produção e na distribuição das informações, o que interfere diretamente no cotidiano da sociedade. As relações com as fontes e a nova formatação e disposição do conteúdo também tem se modificado.

O molde da pirâmide invertida, já é considerado por mui- tos como ultrapassado e o modelo vigente agora é a pirâmide dei- tada (PALÁCIOS, 2003). Nesse novo paradigma há quatro níveis de leitura: a unidade base, ou lead, que responderá às perguntas essenciais e que poderá ser apenas uma notícia de última hora que, dependendo do desenrolar dos fatos pode evoluir ou não para o formato mais elaborado; o nível de explicação, que reponde ao “porquê” e ao “como” complementando as informações bási- cas; o nível da contextualização, que oferece mais informações em formato de texto, imagem, vídeo, som ou infográficos anima- dos; e por último, o nível da exploração, que conecta a notícia ao arquivo de publicações ou a arquivos externos, o que faz com que esta seja ligada a uma gama substancial de conteúdo relacionado à sua temática e a disponibilize em rede.

A quantidade e a variedade da informação disponibi- lizada é a variável de referência no webjornalismo. “A notícia desenvolve-se de um nível com menos informação para suces- sivos níveis de informação mais aprofundados e variados sobre o tema em análise” (CANAVILHAS, 2006, p.13). Diferentemente de outros momentos históricos em que os grandes conglomera- dos de comunicação detinham o poder e produziam o conteúdo distribuído como verdade absoluta, a notícia agora é construída constantemente e não só por jornalistas. Ao invés de apenas for- mulá-las e distribui-las, o profissional precisa acompanhar a evo- lução que se dá por meio da construção coletiva com o público, o que acontece em um ritmo muito mais frenético do que antes.

A responsabilidade na apuração e checagem das informa- ções também requer mais atenção e responsabilidade por parte do profissional. Uma vez postada na rede, a informação ganha vida própria e se espalha pelo mundo em questão de segundos.

Como bem lembra Benkler (2006 apud MARTINO, 2014), no passado, o custo de ser ouvido na Esfera Pública era conside- ravelmente alto, o que praticamente impedia o cidadão comum de participar com voz ativa nos debates públicos da mídia. Hoje em dia, a arquitetura horizontal da Internet permite que novas vozes entrem em circulação, aumentando potencialmente a capa- cidade da sociedade civil de se manifestar.

Nesse novo cenário de comunicação em rede, instanta- neidade e velocidade frenética de difusão dos acontecimentos, a

web constitui-se como espaço fundamental para a prática jorna-

lística na qual as informações ganham caráter dinâmico e instan- tâneo, tomando proporções inimagináveis há pouco tempo atrás. Diferentemente de outras mídias como o jornal impresso, o rádio e a televisão, a Internet proporciona que qualquer pessoa com conhecimentos elementares possa criar seu próprio espaço para divulgação de informação.

Uma das transformações propiciadas pela Internet é de deslocar para o receptor grande parte do poder de pautar os acon- tecimentos. De acordo com Sodré, o novo medium transforma o antigo receptor passivo em usuário ativo, pondo à sua disposição uma caixa de ferramentas editoriais, dentre elas os blogs, possibi- litado a programação de conteúdos audiovisuais e conversas em tempo real por meio de canais específicos (SODRÉ, 2009).

As novas tecnologias reconfiguram a escrita no sen- tido de um papel mais ativo por parte do leitor e alte- ram o código de leitura – esta é definitivamente uma prática plural: visual, sonora e auditiva -, mudam igualmente os critérios de pontuação rítmica. De fato, num mundo posto em rede técnica, modifica- -se profundamente a experiência habitual do tempo, a ordem temporal sucessiva, dando lugar à simulta- neidade e à hibridização (SODRÉ, 2009, p.101).

Os blogs agregam em si características bastante relevantes para a democratização da informação. Não há limite de espaço nem os caracteres correm o risco de serem cortados.

Os valores-notícia que orientam a prática jornalís- tica cotidiana modificam-se no universo dos blogs – não é necessário ter um gancho para se tratar de um assunto: o autor do blog ao se pautar, já seleciona as informações das quais pretende tratar e, como resul- tado, escolhe os critérios de seleção de notícias con- forme sua ética particular – e, nesse sentido, pode dá espaço para temas distantes das pautas tratadas nas empresas de comunicação (MARTINO, 2014, p. 172).

CONSIDERAÇÕES

Diante da realidade apresentada, pode-se dizer que os blogs atuam como Esfera Pública porque se constituem como estrutura intermediária entre a opinião pública e o Estado, e fazem as vezes de espaço de vida social humana que permite a formação de uma opinião pública sobre assuntos de interesse geral.

O advento da web tem posto em cena novos paradigmas. Elencá-los para poder mensurar o impacto que propiciam nas comunidades e contrapor como o local é tratado nesse contexto do universal e da democratização da produção de notícias é um dos propósitos da presente pesquisa que aqui se apresenta um breve recorte. Diversos estudos subsidiam a investigação das transformações sociais decorrentes dessa nova prática de receber e produzir informação.

Compreender como os blogueiros do interior do Rio Grande do Norte estão se adaptando às novas formas de produção e apuração das informações e como o público recebe e participa dessa produção é a pretensão deste estudo.

As respostas elucidadas a partir dos diversos questiona- mentos e ponderações proporcionadas por esta pesquisa obje- tivam proporcionar uma reflexão sobre o webjornalismo, sua prática e suas possibilidades no contexto dos blogs do interior do RN.

A caracterização da produção de conteúdo jornalístico para web feita pelos blogs pode elucidar, ao longo das análises, questões como até onde as estratégias utilizadas pelos blogueiros correspondem às expectativas dos internautas e como estes con- tribuem para a customização da produção.

Por fim, vale refletir ainda sobre o dilema aplicado à definição de Esfera Pública em diferentes contextos. Talvez essa relatividade toda e essas contrariedades devam-se ao fato de que

a ciência tende a categorizar demasiadamente as coisas para estudá-las esquecendo-se de que fazem parte de uma realidade dinâmica e volátil. Há ainda mais disparidade entre a forma como se investiga esses fenômenos e a velocidade com que eles se dão e modificam-se, até pelo ritmo frenético do compartilhamento de informações no qual estamos inseridos.

REFERÊNCIAS

CANAVILHAS, João. Webjornalismo: da pirâmide invertida à pirâmide deitada. Biblioteca on-line de Ciências da Comunicação, 2006. Disponível em: < http://www.bocc.ubi.pt/pag/canavilhas-joao-webjornalismo- piramide-invertida.pdf >. Acesso em: 01/09/2014.

HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da Esfera Pública: investigações quanto a uma categoria da sociedade burguesa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.

LEVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 2000.

MARTINO, Luís Mauro Sá. Teoria das mídias digitais: linguagens, ambientes e redes. Petrópolis/RJ: Vozes, 2014.

MELO, José Marques de. Teoria do jornalismo: identidades brasileiras. São Paulo: Paulus, 2006. p. 126

MORETZSOHN, Sylvia. Jornalismo em tempo real: o Fetiche da Velocidade. Rio de Janeiro: Revan, 2002.

NEIVA, Eduardo. Dicionário Houaiss de Comunicação e Multimídia. São Paulo: Publifolha, 2013.

PALÁCIOS, Marcos y Machado, Elias (org.). Modelos de jornalismo digital. S. Salvador: ed. GJOL, 2003.

PERUZZO, C.M.K. Desafios da comunicação popular e comunitária na cibercultur@: aproximações à proposta de comunidade emergente de conhecimento local:. Oficios Terrestres: Revista de Ciencias Sociales desde la Comunicación y la Cultura (UNLP), v. n. 27, p. 1-24, 2011. Disponível em: < http://perio.unlp.edu.ar/ojs/index.php/ oficiosterrestres/article/viewFile/1250/1142.>. Acesso em: 26/08/2014. RECUERO, Raquel. Redes sociais na Internet. Porto Alegre/RS: Sulina, 2009.

SILVERSTONE, Roger. Por que estudar a mídia? São Paulo: Loyola, 2002.

SODRE, Muniz. A Narração do Fato: Notas para uma Teoria do Acontecimento. Petrópolis/RJ: Vozes, 2009.