5.5 Individualistisk kultur
5.5.1 Tilbakemeldingskultur
São vários os escritos que repetem ter sido a independência dos Estados Unidos da América festejada com Vinho Madeira.
Apesar de não querermos alongar-nos demasiado sobre um assunto de que se tem já bastante falado, não podemos, porém, deixar de citar, pela grande curiosidade que encerra, uma passagem de Edgar Allan Poe nas suas Aventuras Extraordinárias de Gordan Pym.
Todos nós sabemos como são pormenorizados os contos fantásticos deste escritor norte-americano. No capítulo XII da tradução portuguesa, referia mesmo que um barco, o brigue Grampus, em que seguiam, apenas flutuava, e que os quatro sobreviventes morriam de fome, isto no ano de 1827.
Tiraram então à sorte, para saber qual deles seria morto, para assegurar a sobrevivência de todos os restantes. O condenado foi aquele que teve a ideia, Parker. Devoraram o condenado em cerca de quatro dias. Três dias depois, ao romper do dia, pensaram que teria chegado o seu fim. Porém, um deles, Peter, mergulhou nos escombros, onde estava situada a dispensa do barco, e encontrou um pote com azeitonas.
De seguida, lançou-se novamente e o êxito desta vez excedeu todas as suas esperanças: regressou imediatamente, com um enorme presunto e uma garrafa de Vinho Madeira. Cada um deles apenas bebeu uma pequena golada de vinho, por saberem de antemão e por experiência que grandes perigos haveriam de suportar se a ele se entregassem imoderadamente. Cerca do meio-dia sentiram-se um pouco recuperados e fortalecidos, recomeçando novamente os ataques às provisões, isto até ao pôr-do-sol. Mergulhando Peter outra vez e o próprio narrador, tiveram a sorte de encontrar
pequenos potes de azeitonas, um presunto e uma bojuda garrafa de verga contendo quase três galões de Madeira1.
O facto é que o Vinho da Madeira, além de ser de crucial importância no comércio entre Portugal e os EUA, apreciado entre as famílias mais destacadas, era também mencionado na literatura norte-americana, sendo que estes escritos passaram a ser também conhecidos na Ilha da Madeira. Criava-se, assim, uma espécie de espectro pelo EUA, o país da liberdade e também da riqueza, a contar pela moeda forte que possuía.
Desde 1750, existia uma moeda insulana de cobre que circulava. O comércio dos vinhos trouxera à Madeira moedas de diversos países, especialmente inglesas, espanholas e americanas. A necessidade obrigou ao livre curso da libra estrelina, cujo valor cambial era de 4.600 réis, conforme o decreto de 10 de Outubro de 1835. Posteriormente, os decretos de 7 de Dezembro de 1836 e o de 4 de Maio de 1842, deram-lhe o valor de 4.800 réis, bem como à moeda de prata inglesa, à de ouro e de prata espanhola, à dos Estados Unidos da América e de outros estados americanos.
A lei de 2 de Maio de 1879 revogou finalmente todos estes decretos que, de certa foram, vieram prejudicar as transacções comerciais2.
Conseguimos encontrar um livro de um escritor anónimo português publicado em Londres, no ano de 1830, o qual mostra ser contra os Miguelistas, fazendo a apologia do sistema de federalismo dos Estados Unidos da América: Nem o brado da religião foi o menor ou menos eficaz dos que na América do norte suscitarem o povo à liberdade, e defendê-la a morrer por ela.
Sobre a máquina federativa, o autor, que deveria ser um liberal, acrescentava também: A Holanda certo é que havia começado a melhorar o invento, mas ainda tinha
1 POE, Edgar Allan. The Narrative of Arthur Gordon Pym of Nantucket (Tradução de Anael Nunes).
Lisboa: Livros Unibolso - Editores Associados, pp. 97-98.
muita imperfeição o sistema aí adoptado: assim ele falhou muitas vezes. Mas os Estados Unidos de Septentrião foram os verdadeiros descobridores dessa pedra filosofal das repúblicas – Essa federação maravilhosa, que, assim como no interior dividia o Estado em menos porções, com que mais facilmente obsta à usurpação de qualquer ambicioso; assim o exterior apresenta regular e magnífico edifício cuja fortaleza e formosura é o terror dos inimigos, inveja dos vizinhos e admiração de todos3.
A Madeira passara por uma Guerra Civil que terminara em 1834. Os anos que se seguiram não foram economicamente famosos, isto devido à diminuição das exportações de vinho. Atento, o Governador Civil procurava remediar a situação. Para o efeito, em 1840, disponibilizou 200.000 réis e encarregou o vice-cônsul dos Estados Unidos da América, pedindo-lhe que comprasse, na América do Norte, plantas de árvores de açúcar mappelestres4. Fomos informados de que existem ainda alguns exemplares das conhecidas árvores do açúcar na Quinta do Palheiro Ferreiro.
Existia um intercâmbio tal entre a Madeira e os EUA que mesmo algumas espécies vegetais norte-americanas eram introduzidas nas quintas madeirenses, as quais passaram então a vegetar nos recantos pitorescos dessas casas apalaçadas, pertencentes a famílias opulentas desta Ilha.
Entre os visitantes ilustres da Madeira contavam-se alguns estudiosos norte- -americanos. Descrições sobre a economia, os costumes e mesmo a geologia passaram a ser inseridas na Literatura Norte-Americana. Segundo um comentário do almirante Muellersfort, em 1858, o geólogo americano Dana dizia que as massas asperamente
3 Portugal na Balança da Europa – do que tem sido e do que ora lhe contém ser na nova ordem das coisas do mundo civilizado. Londres, 1830, pp. 25 e 28.
cortadas na zona do Pico Ruivo, lhe traziam à memória as paredes das crateras de Kilaneah em Hawai5.
Finalmente, vale sempre a pena referir aqui o poema À luz dos astros (depois de uma leitura de Edgar Poe), inserido no livro Folhas dispersas do poeta madeirense Luís Ornelas Pinto Coelho, em que se versa também, de um modo peculiar, o tema:
Que o sol inunde o céu, dourando os montes, Ou traga a noite o véu meditabundo,
Só acho o desconforto neste mundo, Mar imenso, sem luz nem horizontes.
Há no fundo d’est’alma, sempre triste, Um desejo sem fim, que não se apaga, A sede indefinida, ardente e vaga, D’um afecto talvez que não existe.
Quem me dera subir, em voo aberto, Aos mundos que diviso pelo espaço; Quisera ao infinito erguer o braço Do profundo areal d’este deserto.
Prelibar, sorrir, toda a ventura Nuns lábios que sonhei, seria doce; Mas quisera-a fruir, que mais não fosse, N’uma d’amor fugaz lágrima pura.
Quisera-a no albergue cor de neve, Que se abriga do vale entre ramagem, Ouvindo prepassar na frescura aragem O suspirar da linfa branda e leve.
Quisera-se onde não se ouvisse nada Dos túmulos infrenes d’esta vida, Pousando minha fronte enlanguecida Num seio de mulher idolatrada.
Que poemas de afecto eu comporia, Esquecido do mundo, a sós com ela, Quando à noite cantasse a Philomela, Vindo a lua espreitar da ramaria!
Mutuamente sentindo o mesmo ardor, Unidos um ao outro em doce abraço, Vendo as nuvens rolando pelo espaço, Com as ondas sem fim do nosso amor.
Inefável prazer, almo destino,
Vem sorrir em meus sonhos sossegado; Que ventura teria em ser amado
Mas, se existe a ventura nesta vida,
Lançando a vista ao largo eu não abranjo; Distila-se porventura um lábio d’anjo, Ou seio amante de mulher querida?6.
( Ver gravura nº 7 capa do livro de Luís Ornelas Coelho )
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