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Como indicado no capítulo anterior, no período entre 2000 e 2010, os dados analisados da construção de empreendimentos multifamiliares do RJ obtidos junto à ADEMI revelam que a Barra da Tijuca tornou-se o principal alvo do mercado imobiliário residencial da cidade, concentrando o maior índice de lançamentos na cidade, fato que atesta o modelo de ocupação vigente.

Entretanto, a urbanização da Barra da Tijuca, provocada principalmente pela especulação imobiliária, voltada a atender expressiva “classe média e a nova classe média carioca”1, causou tanto o surgimento de aterros indiscriminados, como a ocupação ordenada

e desordenada às margens do sistema lagunar que deveria, segundo o Plano Piloto, ficar imune à ação antrópica.

As figuras (3.1 e 3.2) ilustram com precisão a ocupação ocorrida na Barra da Tijuca desde o final dos anos de 1960. Na primeira imagem a observa-se a Comunidade Rio das Pedras, com um modelo de ocupação desordenada às margens da Lagoa da Tijuca, favorecendo maior degradação do sistema lagunar da Baixada de Jacarepaguá. Nesta imagem ainda observa-se ao fundo o Bairro Condomínio Península, localizado na outra margem da lagoa. Na imagem seguinte, por meio de zoom, é possível observar que o entorno da Península possui uma densa arborização. Ao contrário da Comunidade Rio das Pedras a Península é um bairro planejado, predominantemente vertical, com baixa ocupação.

Figura 3.1: Comunidade Rio das Pedras, modelo de ocupação desordenada.

Fonte: http://agoravirtualipatinga.blogspot.com/2009/04/milicias-e-o-crime-organizado.html. Acesso em 02/2012.

1 Ledilson (2009) aponta que na Barra da Tijuca atualmente reside uma expressiva classe média, o autor também redefini a elite da Barra da Tijuca como a nova classe média.

Figura 3.2: Península, modelo de ocupação ordenada. Fonte: Menezes, 2011.

Atualmente, a preocupação e a valorização ambiental na região estão presentes nas relações entre estado e mercado, onde se observa que tanto estado quanto o capital imobiliário, segundo Harvey (2004), vêm incorporando valores e práticas ecológicas e ambientais, transformando os possíveis custos ambientais em lucro.

Tardin (2008, p.28) destaca a importância de considerar os espaços livres como um agente ativo na construção do território, “como espaços repletos de conteúdo dentro da estrutura territorial e não apenas como áreas não urbanizáveis, manchas abstratas”, ou, até mesmo, “como restos das construções das vias, como reservas de mercado”, como foi considerado no bojo do Movimento Moderno. Desta forma, “o sentido de espaços livres ocuparia o lugar central e não residual, cuja determinação tenderia a ordenar aquilo que “deve” permanecer livre e aquilo que “pode” receber algum grau de ocupação” (TARDIN, p.53).

A urbanização da Barra da Tijuca vem se apropriando de espaços livres por meio do lançamento de grandes condomínios fechados, que, ora estão inseridos em Unidades de Conservação, valorizando e elitizando o acesso à moradia, ora estão em áreas passiveis de proteção ambiental.

Costa (2006, p. 101) destaca que “em particular, a progressiva incorporação de princípios da modernização ecológica na produção do espaço”, de certa forma, cria área de preservação exclusiva por meio de artifícios (portarias) que restringem o aceso do público, o que, ao final, valoriza e elitiza o empreendimento. Segundo a autora, esse modelo de urbanização contemporânea de “grandes condomínios fechados” pode até ser um produto de boa qualidade urbanística e ambiental.

Para Caldeira (2000), os grandes condomínios fechados contribuem com a segregação social. Costa (2006, p.102) alerta para o “aprofundamento da demarcação rígida de espaços excludentes, cada vez mais caracterizados pela homogeneização” social da paisagem arquitetônica e urbanística.

A autora denomina os condomínios fechados de enclaves fortificados, espaços privatizados, fechados e monitorados para residência, consumo, lazer e trabalho, que trazem em seu bojo a justificativa da violência, do medo e do crime. O modelo, no final, resulta na perda do caráter coletivo dos espaços públicos e torna-se apenas espaços coletivos de uso privado pela população local.

Fonseca (2005) enfatiza as precárias condições das cidades brasileiras, geralmente abandonadas pelo poder público, onde normalmente prevalece a insegurança, os problemas ligados à tráfico de drogas e à falta de qualidade do espaço público, fatores que contribuem para reforçar a opção da população pelos espaços públicos fechados.

Neste sentido, para Sobarzo (2004) os loteamentos fechados constituem a mais clara manifestação, “[...] evidente e inegável da privatização do espaço público. Neles, ruas e áreas de lazer ficam confinadas atrás dos muros que os rodeiam, disponíveis exclusivamente para os seus moradores”. (p. 101)

Para Fonseca (2005. p. 388), esse novo modelo “denota a adoção de uma atitude conservadora das elites, que, em lugar de criar novas formas de relações entre grupos

diferentes, caminham no sentido de soluções excludentes, que resultam no abandono do espaço público”. O modelo configura uma nova cultura de espaços da contemporaneidade “confinados e privatizados”, em substituição à “cultura das ruas”.

Segundo Caldeira (2000), os condomínios fechados são enclaves fortificados, são espaços privatizados, fechados e monitorados para residência, consumo, lazer e trabalho, que trazem em seu bojo a justificativa da violência, do medo e do crime. O modelo, no final, resulta na perda do caráter coletivo dos espaços públicos e tornam-se apenas espaços coletivos de uso privado pela população local.

O estudo de caso escolhido, o Bairro Condomínio Península, exemplifica, por um lado, processos de recuperação ambiental que viabilizaram o empreendimento, recuperando parte importante daquele território; por outro, indica mecanismos de privatização de áreas que deveriam ter acesso público, como veremos a seguir.