Relegado durante boa parte do século XX ao ostracismo, o conceito de território ficou fechado a estudos geopolíticos e se viu preterido dentro do próprio campo da geografia diante do pensamento regional. A suposta neutralidade fez com que um conceito originalmente político fosse abandonado. Assim, “com a despolitização da reflexão geográfica, subjacente à hegemonia da geografia regional francesa, o conceito de território foi praticamente banido desse campo de investigação” (CAZELLA; BONNAL; MALUF, 2009, p. 27).
A retomada do conceito de território não acontece de maneira espontânea, a aproximação do pensamento geográfico aos movimentos sociais nos países da Europa é
um dos elementos decisivos (SAQUET, 2010). Nesse sentido, o conceito de território retorna imerso no movimento de reaproximação da ciência geográfica com a política. De maneira que “o território é determinado por condições bem específicas dos anos 1960-70: corresponde ao uso e à apropriação material do espaço e aos conflitos sociais, para além da atuação do Estado [...]” (SAQUET, 2010, p. 33).
O pensamento geográfico aproxima-se, assim, das lutas dos movimentos sociais surgidos nos anos de 1960 e 1970, o próprio papel do intelectual é objeto de reflexão diante de novas leituras de Marx, com destaque para Gramsci, entre outros. Ou seja:
O resgate desse conceito [território] pela Geografia ocorre no âmbito da repolitização do temário da disciplina subjacente ao movimento de renovação do pensamento geográfico a partir dos anos 1960, com base numa orientação metodológica marxista que propõe uma reflexão essencialmente econômica e política, e resulta numa concepção que qualifica o território pelo seu uso social (CAZELLA; BONNAL; MALUF, 2009, p. 27).
No tocante ao tema, Moraes (2005, p. 33) complementa lembrando que o processo de mudanças no pensamento de uma ciência:
[...] não é isento de tensões, antagonismos, e muito menos autônomo em relação ao movimento político da sociedade. Ao contrário, tais valores são componentes fundamentais desse movimento, na medida em que o espaço (sua gestão, sua representação, os projetos e imagens a seu respeito) representa um dos condutos mais eficazes do poder.
A própria compreensão das relações de poder alteram-se significativamente.
O desvendamento das relações de poder e da ideologia se faz fundamental porque, nesta, age-se na orientação e constituições do eu, do indivíduo, integrando-o à dinâmica socioespacial através das mais distintas atividades da vida em sociedade. [...]. O território, nesta multidimensionalidade do mundo, assume diversos significados, a partir de territorialidades plurais, complexas e em unidade. E esta é uma questão fundamental, que marcou a redescorberta do conceito de território sob novas leituras e interpretações: mudam os significados do território conforme se altera a compreensão das relações de poder (SAQUET, 2010, p. 33) (grifos no original).
As mudanças nos padrões de acumulação capitalista traziam novos desafios às ciências humanas e, com isso, impulsionam a geografia a mudar de caminho para a superação de antigos paradigmas da ciência moderna.
Na geografia, nessa transição que se dá a partir dos anos 1950, até o final da década de 1970, busca-se romper e superar as abordagens positivista e neopositivista, pragmática, quantitativa e meramente descritiva, muito presente, por exemplo, na geografia regional francesa até este período, que negligencia o conceito de território em
como um recorte espacial com determinadas características naturais (físicas) e humanas (SAQUET, 2010, p. 38).
A crítica ao conceito de região fundamenta-se, segundo Saquet (2010), apoiado no pensamento de Yves Lacoste, ao considerar a região como um conceito-obstáculo à medida que, para o período da geografia regional, as análises geográficas são superficiais “centradas na descrição de paisagens, mascarando a análise de relações de classe, a atuação do Estado e outros processos” (SAQUET, 2010, p. 38).
A superação do conceito de região e o ressurgimento do conceito de território estão, portanto, profundamente ligados às mudanças nos paradigmas das ciências humanas; e estas, por sua vez, fortemente influenciadas pelo contexto histórico de mudanças no padrão de acumulação do capital, assim:
É preciso superar as concepções simplistas que compreendem os territórios sem sujeitos sociais ou esses sujeitos sem territórios e apreender a complexidade e a unidade do mundo da vida, de maneira (i) material, isto é, as interações no e com o lugar, objetiva e subjetivamente, sinalizando para a potencialização de processos de desenvolvimento (SAQUET, 2010, p. 24).
E continua Saquet (2010, p.39): “havia necessidade de superação de estudos dicotomizados e descritivos, tanto na geografia como na sociologia e na economia, diante da complexidade cada vez mais intensa do capitalismo e seus aspectos culturais”. Fica evidente que o conceito de território não apenas se renova, como se torna mais complexo, pois se encontra no interior das discussões sobre a própria ciência e o método científico, no interior da reaproximação do campo científico com a sociedade.
Neste conturbado final de século XX, sente-se que, por um processo dialético, a Geografia se renova, até certo ponto voltando às origens. E volta às origens ao abandonar uma posição falsamente apresentada como neutra, face às deliberações políticas, e descomprometida com os grupos políticos e as classes sociais (ANDRADE, 1984, p. 13).
Manuel Correa de Andrade (1984) marca bem essa reaproximação da geografia com a sociedade, como se pode ver no trecho supratranscrito, critica ainda o pensamento positivista como falsamente neutro, na mesma linha de Lacoste ao criticar o pensamento regional.
Esqueceram-se estes geógrafos [positivistas] da contribuição de cientistas sociais de áreas afins, e em nome de uma neutralidade científica, deixaram de lado as noções de espaço e de território e as implicações sociais da produção dos mesmos, dando ênfase à noção de paisagens e de regiões, ligando-se esta noção, este conceito à idéia de região natural (ANDRADE, 1984, p. 15) (grifos no original).
Reconhecida, por Andrade, como um processo dialético, a renovação do pensamento geográfico não ficaria imersa no seu próprio campo, como menciona Saquet (2010), é na relação da geografia com outras ciências que o pensamento geográfico se renova, dialogando principalmente com a filosofia, a sociologia e a economia ─ seja na crítica ao Estado como única forma de poder, como faz Rafestin (1993); seja pelo reconhecimento de uma nova sociologia do poder, como se inspiram diversas leituras contemporâneas baseadas em Foucault (2004); ou mesmo em reconhecer no materialismo histórico as relações de poder e dominação, como fazem Santos (1998) e Andrade (1984). Compreender a emergência do conceito de território implica em passar por esses autores e reconhecer que o aspecto comum à abordagem territorial é a sua ligação com as relações de poder.