Desde o período colonial, a Amazônia chamou a atenção dos colonizadores portugueses. Contra a cobiça dos espanhóis, os portugueses construíram vários fortes para a proteção das fronteiras amazônicas durante o período pombalino. “A expansão para além do que definia o Tratado de Tordesilhas acabou por gerar outro tratado, o de Madri, que garantiu posse aos portugueses da maior parte da Amazônia segundo o princípio do uti possidetis (COELHO apud SILVA, 2004, p.35).
Gonçalves (2005) explica que a posição geográfico-política da Amazônia era disputada entre Portugal e Espanha no período colonial, mesmo não dispondo de condições materiais e demográficas para colonizar a região. A prática do mercantilismo pelos dois países em busca de metais preciosos e de outros produtos fizeram com que os colonizadores vissem a Amazônia como uma região de grande potencial em recursos naturais, que estava disponível para a exploração imediata.
Nos séculos XV e XVI, Portugal e Espanha perceberam que sua hegemonia estava sendo ultrapassada por novas potências como França, Inglaterra e Holanda e temiam perder seus poderes sobre a Amazônia. Inglaterra e França também disputavam a hegemonia da região amazônica e, com isso, a região passsou a ser utilizada como trunfo do jogo diplomático entre as potências colonizadoras. Assim, o intuito de Portugal seria se manter na região com o apoio inglês e a Espanha, com o francês (GONÇALVES, 2005).
Picoli (2006) destaca que o processo de ocupação do território amazônico começou no século XVI, porém somente um século depois, os portugueses se instalaram na foz do rio Amazonas, expulsando os holandeses e ingleses. A ocupação portuguesa, inicialmente, foi motivada por razões geopolíticas e nem tanto econômicas. Tratava-se de uma região de fácil acesso pelos rios e de um espaço de soberania duvidosa. O autor considera que as drogas do sertão despertaram o interesse na região, uma vez que a Amazônia poderia substituir o Oriente
como fonte de especiarias. No entanto, é com a mineração, na metade do século XVIII, que se intensifica o fluxo migratório europeu para o Brasil.
A colonização brasileira começou em 1500, tendo na extração do pau-brasil a primeira forma de exploração econômica do território brasileiro. Segundo Picoli (2006, p.23), “a colonização brasileira e o povoamento das diferentes regiões foram formados pelos marginalizados no processo histórico e se justificavam pelos interesses dos colonizadores europeus nos produtos brasileiros”.
Com a Independência do Brasil, a Amazônia é incorporada ao Estado brasileiro, mas mesmo assim as elites dominantes em nada se diferiram das elites regionais que compuseram a época do Império. A defesa da escravidão foi estimulada contra as idéias de liberdade. Os antigos colonizadores, livres do controle que a antiga metrópole lhes impunha, ficaram à vontade para explorar a população e a região. Esse fato gerou um sentimento de insatisfação muito grande por parte dos brancos, negros e indíos, ou seja, da população oprimida da Amazônia desencadeando a Revolta dos Cabanos (1823-1839), mais conhecida como Cabanagem. Os cabanos chegaram a propor a criação de um movimento separatista, reivindicando o Paiz do Amazonas (GONÇALVES, 2005; PICOLI, 2006).
Com o extrativismo, o Brasil projetou-se no mercado mundial uma vez que possuía a maior reserva mundial de seringueiras nativas. De acordo com Picoli, “[...] os povos originários tinham amplo conhecimento das propriedades da borracha em 1720. Os índios da Amazônia já conheciam a elasticidade da borracha e faziam bolas com as quais praticavam esportes” (PICOLI, 2006, p.26). Iniciou-se, portanto, o ciclo da borracha.
O clico da borracha alcançou o seu auge durante a República, dando um impulso à região Amazônica. Por volta de 1830, a Amazônia começou a exportar sapatos e tecidos emborrachados, principalmente para os Estados Unidos. Manaus e Belém atraíram muitos nordestinos, que fugiam da seca, para a extração do látex em larga escala. Nesse contexto, o Acre tornou-se alvo de conflitos entre o Brasil e a Bolívia. A solução para esse conflito ocorreu, em 1903, com o Tratado de Petrópolis, que determinou a incorporação do Acre pelo Brasil, mediante indenizações (CASTRO, 1992; SILVA, 2004).
Na passagem do século XIX para o século XX, a produção da borracha atingiu o seu auge. Os Estados Unidos tinham interesse nesse produto para que fosse utilizado como matéria-prima na fabricação de peneumáticos da indústria automobilística. Segundo o autor, a borracha
provocou a corrida para a Amazônia e “[...] o produto extrativo passou a fazer parte do mercado mundial. Com essa alternativa econômica, os Estados Unidos tornaram-se a potência estrangeira mais interessada na Amazônia brasileira” (PICOLI, 2006, p.27).
A ocupação do espaço amazônico foi incentivado pelo ciclo da borracha. A partir daí, algumas propostas para ocupação foram feitas como a Fordlândia55 e, posteriormente, a tentativa de formação dos grandes lagos de Herman Khan, diretor do Hudson Institute56. Tais iniciativas contribuíram para que os rumores sobre a cobiça internacional na Amazônia passassem a figurar dentre as percepções de ameaças do pensamento militar-político nacional. O receio da internacionalização só aumentou no momento em que as questões ambientais começaram a ser amplamente divulgadas na agenda internacional (SILVA, 2004).
A partir de 1912, o ciclo da borracha, que durou 100 anos, começou a declinar. A queda da produção da borracha ocorreu em decorrência da substituição do produto pelos derivados de petróleo e pela concorrência mundial de outros países que passaram a cultivar a seringeira com sementes pirateadas da Amazônia. Com o seu declínio, a região passou a investir em outras atividades como o extrativismo florestal e mineral. Além disso, a produção asiática de borracha colaborou para a crise do complexo seringalista da Amazônia (GONÇALVES, 2005; PICOLI, 2006).
Picoli (2006) considera que se a Primeira Guerra Mundial impulsionou a industrialização brasileira, a Segunda Guerra aumentou ainda mais a interferência dos Estados Unidos sobre a América Latina. Segundo ele, através do acordo firmado em 1952, “[...] os Estados Unidos forçavam os brasileiros à obediência, proibindo a venda de produtos minerais estratégicos para os países da área socialista” (PICOLI, 2006, p. 31).
Franklin Roosevelt propôs ao presidente do Brasil, Getúlio Vargas, transferir parte da população nordestina para trabalhar com a produção de borracha na região Norte, com o intuito de suprir as carências da indústria norte-americana. Sendo assim, o governo brasileiro realizou, em 1937, a “Marcha para o Oeste” deslocando um grande contingente de pessoas para a região a
55 Henry Ford, em 1927, estabeleceu um acordo com o governo do Pará e iniciou seus trabalhos na chamada
Fordlândia, nas margens do rio Tapajós. O empresário queria criar a cultura do plantio das seringueiras. Tinha a vontade de sair da extração nativa para produzir projetos florestais de extrativismo na floresta, uma vez que as sementes eram da própria região (PICOLI, 2006).
56 A proposta do Instituto Hudson, do Sr. Herman Khan, era de se barrar o rio Amazonas, formando grandes lagos. O
projeto Grandes Lagos, que pretendia dar acesso ao “pré-cambriano” amazônico, riquíssimo em recursos minerais, paradoxalmente, mantinha uma relação mais próxima com o padrão de organização do espaço tradicional da região, em torno dos rios, do que o novo padrão em torno das estradas (GONÇALVES, 2005, p. 103).
fim de trabalhar no extrativismo e na agropecuária. Picoli (2006) ressalta que os Estados Unidos asssumiram a representação capitalista mundial e, por isso, entendiam que era possível interferir nas decisões de outros países periféricos, se preciso, para que a ordem capitalista fosse restabelecida.
Em 1946, o governo Vargas criou a Superintendência para a Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA), sendo parte integrante da política de desenvolvimento para a região amazônica. O principal projeto da SPVEA foi a construção da rodovia Belém-Brasília cuja função seria abrir caminho para a circulação de mercadorias, transportes, informações e processos migratórios (SILVA, 2003)
Observa-se que pelo potencial de sua biodiversidade e pela grandiosidade, o território amazônico precisava, num primeiro momento, ser efetivamente ocupado. A preocupação posterior do governo brasileiro era incentivar a migração direcionada para o trabalho nas reservas extrativistas e a segurança nacional.