no município de Alagoa Grande.
do domicílio. No estado da Paraíba apenas 14% dos domicílios possuem abastecimento ligados à rede geral, 24% utilizam água de poço/nascente, 35% de cisterna e 27% são abastecidos com água proveniente de rio/açude/barreiro e/ou outras formas como, por exemplo, carro-pipa, torneiras públicas e fonte do vizinho (Tabela 09). O estado de Sergipe possui a maior cobertura de domicílios cujo abastecimento provém da rede geral 57%.
Tabela 09. Distribuição dos estados em relação à principal forma de abastecimento de água disponível na residência.
PB RN SE Total Classificação Tipo de abastecimento F % F % F % F % Rede geral 11 14 54 48 62 57 127 42 Poço/nascente 19 24 38 34 18 17 75 25 Cisterna 27 35 7 6 1 1 35 12 Rio/açude/barreiro 13 16 - - 2 2 15 5 Outras formasa 9 11 13 12 25 23 47 16 Total 79 100 112 100 108 100 299 100
Fonte: Pesquisa de campo, 2006 (n= 299).
a Correspondente carro-pipa, torneira pública, rede geral/poço nascente, fonte do vizinho.
Quanto às instalações sanitárias constatou-se que a maioria dos domicílios possui banheiro, sendo a fossa comum a forma mais utilizada para o escoamento sanitário. O percentual dos domicílios que possuíam esse tipo de escoamento foi de 79% para o estado da Paraíba, 60% para o Rio Grande do Norte e 42% para Sergipe. Na figura 10 são apresentadas as outras formas de escoamento dos dejetos sanitários, de forma separada para cada estado.
6 79 0 15 21 60 7 12 31 42 5 22 0 10 20 30 40 50 60 70 80 % PB RN SE
Figura 10. Distribuição dos estados em relação às instalações sanitárias. Fonte: Pesquisa de campo, 2006 (n= 299).
a Correspondente a qualquer tipo de esgoto lançado a céu aberto (quintal, esgoto despejado na
maré/mangue).
4.2.4 “Nem só de pão vive o homem?”: desvendando o padrão alimentar.
Agora sim, café com pão Agora sim, voa, fumaça Corre, cerca Ai seu foguista Bota fogo na fornalha Que eu preciso Muita força Muita força Muita força (Trem de ferro Manuel Bandeira)
Investigar a alimentação de uma população específica não significa simplesmente questionar sobre o seu consumo diário, sobre uma lista de alimentos ou grupos de alimentos imposta pelo pesquisador ou pesquisadora. Na verdade, a complexidade que embute o “simples” ato de alimentar-se é tamanha que é capaz de transcender várias dimensões. O próprio conceito de SAN, por si só, caracteriza tal complexidade, seja para sua compreensão, seja para sua implementação.
O sentido de “desvendar o padrão alimentar das famílias rurais”, não contemplou, necessariamente, uma abordagem sobre as tradições, os valores, ou as crenças de suas práticas alimentares, mas sim o de analisar quantitativa e qualitativamente seu padrão de consumo alimentar (em termos de quantidade – se suficiente ou não; qualidade e variedade), sua forma de
importantes variáveis para analisar os interesses e conteúdos presentes na concepção de SAN. A ênfase está posta não só na representação do grupo de alimento, conforme estabelece o QFA, mas, também na análise das condições de acesso aos mesmos, seja através da produção para o autoconsumo, seja através da aquisição via mercado.
O guia alimentar orienta sobre a necessidade de um indivíduo realizar pelo menos, três refeições diárias, intercaladas com lanches saudáveis67. Já o
documento de referência do Consea compreende no seu conceito de segurança alimentar, que a dimensão do acesso permanente em quantidade e qualidade, é primordial. Por dispor desses parâmetros de análise, foi investigado como se configura a “jornada” 68 alimentar das famílias rurais.
Dentre as famílias que possuem uma jornada alimentar completa, isto é que cumpre o ritual de ter e fazer, ao menos, três refeições (café da manhã, almoço e jantar) por dia, diariamente estão em média 288 famílias, ou seja, 94% (Figura 11).
67 Como orientação para a escolha de alimentos mais saudáveis, o guia orienta sobre a importância de
consultar e interpretar a informação nutricional e a lista de ingredientes, contida nos rótulos de alimentos.
68 Essa terminologia foi empregada com o intuito de estabelecer um parâmetro de analise da quantidade
94 99 94 89 97 96 99 98 96 84 86 88 90 92 94 96 98 100 %
Desjejum Almoço Jantar
Figura 11. Freqüência da jornada alimentar entre as famílias rurais das famílias entrevistadas. Fonte: Pesquisa de campo, 2006.
É bem verdade, que há certo constrangimento em responder de forma negativa a esse questionamento. Isto é, afirmar que na sua residência não dispõem de alimentos suficientes para cumprir o ritual básico de café, almoço e jantar.
O percentual elevado das famílias que afirmaram ter e fazer as três refeições ao dia, pode refletir o que muitos profissionais nutricionistas vivenciam na sua prática quando questionam sobre a sua rotina alimentar, a omissão por parte dos entrevistados sobre a sua vulnerabilidade alimentar.
Ainda assim, algumas famílias afirmaram que têm a sua “jornada alimentar completa” apenas alguns dias por semana (em média, 11 famílias ou 4% do total de entrevistados). A freqüência da jornada alimentar completa, por um lado, desmistifica o pensamento de que as famílias rurais não tem o hábito de fazer o desjejum, ou seja, de tomar o café da manhã, por outro deixa a duplicidade de interpretação no que diz respeito a veracidade dessa resposta tendo em vista o constrangimento em responder de forma negativa.
A pesquisa mostrou que 94% dos entrevistados afirmaram tomar essa refeição diariamente, enquanto 18% responderam que o faz, apenas, alguns dias na semana. Ao serem questionados o porquê de não o fazê-lo todos os dias os entrevistados respondiam: “que nem sempre tem o que comer pela
manhã”.
percentual de famílias que não consomem pelo menos as três refeições. Esses resultados corroboram os dados da PNAD (IBGE, 2006) quando demonstrou, que na região Nordeste, esse estado é acometido com os maiores níveis de IA.
Caracterizar esse tipo de “jornada” permite construir o perfil de consumo dos alimentos das famílias, uma vez que a partir deste e, como o recurso do QFA é possível inferir o padrão alimentar. O fato da maioria das famílias terem, regularmente, as três refeições principais, foi inevitável, para a pesquisadora ou para algum membro da equipe de campo presenciar alguns desses momentos. E, mesmo observando a realidade da pouca comida disponível para a família, ainda assim, não foram poucos os convites para compartilhar da pouca comida que tinham.
Vai que vocês vão pra um lugar onde as pessoas sejam muito pobres e não possam oferecer um cafezinho e uma bolacha como eu posso. (Entrevistada do município de Antonio
Martins/RN).
Hoje lá em casa é fava. Vamos almoçar lá? A casa é de pobre, mas num cai não. Ou então faça o seguinte, vá de noite lá em casa pegar um quilo pra você. Pra você levar pra sua casa (Entrevistada do município de Alagoa Grande/PB).
Trazendo a análise de um dos pilares da SAN - acesso aos alimentos - foi questionada qual a principal origem destes para ao abastecimento familiar. Dentre as alternativas, o supermercado foi a mais significativa com (52%) dos entrevistados (Figura 12), seguido pela própria produção (roça) com 18% (Tabela 10). Esse fato demonstra a fragilidade das famílias frente à incapacidade de produzir, minimamente, para o consumo da família e da participação de outras rendas – provavelmente de políticas compensatórias – possibilitando a compra de alimentos em supermercados.
Figura 12. Distribuição da origem dos alimentos através do supermercado. Fonte: Pesquisa de campo, 2006.
A discussão sobre a produção para o autoconsumo remete ao fato de ela reduzir a dependência que as famílias têm em relação aos mercados. Especialmente, da sua necessidade de se apropriar de certa quantidade de renda para a aquisição de alimentos. Os dados dessa pesquisa demonstram o quanto é expressivo o percentual de famílias que obtém a maior parte dos alimentos consumidos pela família através do supermercado.
Em recente pesquisa realizada por Carneiro e Maluf (2004) junto a famílias rurais de várias regiões do país, ganhou proeminência a produção voltada para o autoconsumo no contexto de crise da produção familiar mercantil e do desemprego urbano e rural.
A avaliação feita pelos próprios entrevistados revelou, segundo os autores supracitados, dois aspectos:
1) o primeiro é a tendência da maioria dos agricultores subestimar o significado econômico da produção para o autoconsumo, equívoco que logo se desfaz quando perguntados sobre a renda que estimariam ser necessária para adquirir os produtos que cultivam;
2) um segundo aspecto diz respeito à qualidade da alimentação, sendo que a maioria dos entrevistados considerou sadios os alimentos produzidos por eles próprios, independentemente do padrão alimentar em questão (CARNEIRO; MALUF, 2005). 54% 55% 46% 52% PB RN SE Total
por parte das famílias, seja pela impossibilidade de produção, como sugerem os resultados apresentados anteriormente, seja pela aquisição via mercado (feira/bodega ou supermercado). Isso porque essas famílias residem em comunidades rurais cuja distância para a cidade (sede do município), na maioria das vezes, dificulta a locomoção.
A garantia de acesso é baseada no planejamento do abastecimento alimentar capaz de prover toda a família durante toda a semana e/ou todo o mês. Ou seja, qualquer situação que possa “modificar” essa chamada rotina alimentar resulta em situação grave de insegurança alimentar.
Tabela 10. Distribuição dos estados em relação à origem dos alimentos
PB RN SE Total Origem dos
alimentos F % F % F % F %
Vem da Produção (Roça) 17 21 16 14 21 19 54 18 Feira -livre 22 28 5 4 23 22 50 16 Supermercado 36 46 60 54 59 55 155 52
Bodega 4 5 31 28 4 4 40 14
Total 79 100 112 100 108 100 299 100
Fonte: Pesquisa de campo, 2006 (n= 299).
A feira livre que poderia servir como uma importante forma de estimular a produção desse agricultores, bem como a de viabilizar o acesso aos alimentos de melhor qualidade a um menor custo, foi citado como sendo a principal fonte de origem dos alimentos por apenas 16% dos entrevistados.
Com relação ao QFA utilizado foi enfatizado tanto a lista de alguns alimentos como o grupo de outros alimentos. No guia da pirâmide alimentar, os alimentos são classificados conforme sua composição química/nutricional, ou melhor, conforme seus nutrientes específicos. A FAO estabelece uma lista de grupos que os acomodam mediante sua composição (Quadro 3). Embora os grupos de alimentos de países e de organizações diferentes não sejam idênticos, em geral, eles são semelhantes.
No Brasil, o Guia Alimentar para a População Brasileira estabelece uma lista semelhante à FAO.
pela FAO e pelo Brasil.
FAOa BRASIL
Cereais e derivados de grãos Cereais, tubérculos e raízes Raízes contendo amido, tubérculos e
frutas
Legumes e verduras
Leguminosas e derivados Frutas
Nozes e sementes Feijões e outros alimentos vegetais ricos em proteínas
Vegetais e seus derivados Leite e derivados
Frutas Carnes e ovos
Açúcares e xaropes Gorduras e óleos Carnes, aves e insetos Açúcares e doces Ovos
Peixes e moluscos Leite e laticínios Óleos e gorduras Bebidas
Diretrizes especiais: água e prática de atividade física.
a GORAN; ASTRUP, 2005. In: Introdução à nutrição humana.
De acordo com o QFA aplicado foi constatada uma reduzida variedade de alimentos, ou melhor, uma extrema monotonia de um cardápio possível de ser chamado: imutável. De fato, não se trata de uma informação nova. Castro (1946) ao traçar a geografia da fome relatou:
As características da alimentação sertaneja é um tanto magra e despida de qualquer excesso de tempero harmonizam-se admiravelmente com os traços naturais da terra também magra dos sertões nordestinos. “Sertão de areia seca rangendo debaixo dos pés. Sertão de paisagens duras doendo nos olhos. Os mandacarus. Os bois e os cavalos angulosos. As sombras como umas almas do outro mundo com medo de sol”, na imagem evocativa de Gilberto Freire (CASTRO, 2005 p. 185).
Porém, mesmo diante dessa constatação tão longínqua é inconcebível pensar e, acima de tudo, aceitar que essa população permaneça à margem da discussão da SAN. Segundo os dados dessa pesquisa há uma situação perene de
perene de fome. A tabela 11 ilustra essa situação ao mostrar o percentual de 50% ou mais dos alimentos que possuem um consumo diário para os três estados.
Tabela 11. Distribuição dos alimentos consumidos diariamente por 50% ou mais dos entrevistados
PB RN SE