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A pesquisa em ICT4D envolve suposições sobre a natureza da inovação das TIC e a forma como a inovação contribui para o desenvolvimento (AVGEROU, 2010). As pesquisas nessa área muitas vezes centram-se na utilização de infraestruturas de tecnologia da informação para trazer desenvolvimento econômico, social e humano, auxiliando nas decisões políticas para realização dos objetivos de desenvolvimento socioeconômico das regiões (KAMAL; QURESH; ROZTOCKI, 2009).

Apesar dos avanços na área, Avgerou (2010) sugere dois desafios teóricos que devem ser aprofundados nas pesquisas em ICT4D. Um deles está relacionado à capacidade das pesquisas em abordar a inter-relação da inovação das TIC com o seu contexto cognitivo e sócio-político, ou seja, identificar o contexto relevante e a sua importância para cada caso de inovação das TIC. Nesse sentido, segundo a autora, são necessários esforços de teorização sistemática para entender como o contexto socioeconômico de um país permite ou restringe significados e ações baseadas nas TIC que contribuam para a melhoria de vida nos países em desenvolvimento e sua capacidade explicativa. O segundo desafio teórico consiste da capacidade de compreensão de como o contexto socioeconômico de um país permite ou restringe que ações baseadas nas TIC contribuam para a melhoria de vida nos países em desenvolvimento, incluindo o papel das TIC para a transformação das condições de vida da

população (AVGEROU, 2010). Nesse sentido, Avgerou (2010) sugere que a pesquisa deve avançar no desenvolvimento de uma base teórica para a análise da economia política e da sociologia do desenvolvimento apoiados nas TIC, em que os modelos econômicos e o potencial tecnológico são traduzidos em indústrias, infraestrutura de informação e sociedades com maior autonomia e poder.

Com o objetivo de contribuir para tais desafios, esta pesquisa sugere a análise de diferentes contextos em iniciativas de cidades inteligentes, buscando a influência do ambiente em um país em desenvolvimento. ICT4D tem emergido como um campo diversificado na pesquisa em Sistemas de Informação, com ênfase na utilização das TIC para governança e na melhoria do desempenho das organizações públicas e privadas (NJIHIA; MERALI, 2013). No contexto de ICT4D, as TIC referem-se a qualquer tecnologia com propósito de coletar, processar e divulgar informações, ou ainda apoiar o processo de comunicação (KLEINE, 2013).

Com o primeiro computador instalado em um país em desenvolvimento em 1956, originou-se o uso das TIC para desenvolvimento, tendo até os anos 1990 duas frentes de atuação (HEEKS, 2008). Uma delas ocorreu no setor público, que usava as TIC principalmente na administração interna. A outra, em meados dos anos 1980, foi no setor privado, que via nas TIC oportunidades para o crescimento econômico do setor. Porém, segundo Heeks (2008), o uso das TIC para o desenvolvimento está se movendo para uma nova fase em que são exigidas novas tecnologias, novas abordagens para a inovação e uma nova visão do mundo, principalmente com relação aos pobres.

Heeks (2008) sugere que há uma evolução nas ICT4D cujo foco está na relação das TIC com os pobres. A fase ICT4D 1.0 impõe projetos preexistentes, nos quais a população mais pobre deve se adaptar, e utilizam a tecnologia como ferramenta para o desenvolvimento. Já a ICT4D 2.0 sugere projetos que girem em torno dos recursos, capacidades e demandas específicas dos pobres, utilizando a tecnologia como plataforma para o desenvolvimento (HEEKS, 2008).

Conforme Heeks (2008), as mudanças nas questões de ICT4D possuem 4 fases distintas ao longo do tempo. “Readiness” consiste em ter as políticas e a infraestrutura necessárias para disponibilizar as TIC. A “Disponibilidade” sugere a implementação das TIC para os pobres, permitindo que se tornem usuários. A “Captação” consiste da implementação e aplicação das TIC para torná-las úteis. E o “Impacto” engloba a utilização das TIC com o intuito de gerar maior benefício no desenvolvimento. As fases iniciais (Readiness, Disponibilidade e Captação) se mantêm relevantes considerando o surgimento de novas tecnologias que exigem inovações de infraestutura, hardware e software.

Diante do crescente acesso a celulares e computadores conectados à Internet mesmo na população mais pobre, principalmente em áreas urbanas, os desenvolvedores de ICT4D 2.0 podem pensar mais sobre sustentabilidade, escalabilidade e impacto da tecnologia ao invés do simples fornecimento da mesma, como na fase 1.0 (HEEKS, 2008). Assim, segundo Heeks (2008), essa nova fase de desenvolvimento apresenta três grandes desafios: (i) dar aos pobres as ferramentas para produzir conteúdo e serviços digitais, (ii) gerar incentivos para que criem novas rendas e empregos através das TIC e (iii) garantir interesses de escala e valor sobre as inovações baseadas nas TIC produzidas por eles.

A prioridade na aplicação das TIC para os pobres em países em desenvolvimento é justificável principalmente quando se considera os benefícios de novas tecnologias para resolução de megaproblemas do planeta (HEEKS, 2008). Dentre esses problemas estão as mudanças climáticas, conflitos, doenças e esgotamento de recursos, gerando mais sofrimento aos mais pobres, apesar de em algum momento poderem afetar também o topo da pirâmide. Mesmo considerando a pobreza em si, a sua redução pode trazer benefícios para todos com o aumento do consumo de bens e serviços pelos pobres. Além disso, o investimento em TIC em países em desenvolvimento pode se tratar de uma experiência mais interessante por dois motivos: em nível macro, considera-se que a vida econômica, social e política será cada vez mais digital e aqueles sem acesso as TIC serão cada vez mais excluídos; em nível micro, percebe-se que, mesmo nas comunidades mais pobres, a prioridade da população está no consumo de tecnologia (HEEKS, 2008).

A mudança nos interesses com relação à avaliação de ICT4D trouxe novos desafios relacionados à melhor forma de avaliar o impacto das TIC no desenvolvimento social e econômico (KIVUNIKE et al., 2013). Essa preocupação é maior em países em desenvolvimento, onde aspectos como captação, uso e impacto das TIC são mais dependentes de fatores contextuais.

O progresso das atividades em ICT4D pode ser investigado usando o modelo de cadeia de valor de ICT4D que interliga recursos e processos para analisar sistematicamente as etapas que uma iniciativa de TIC atravessa ao longo do tempo (KIVUNIKE et al., 2013). Heeks e Molla (2009) sugerem que a base de avaliação de projetos de ICT4D gira em torno da sua cadeia de valor, composta por quatro alvos principais de avaliação. O modelo segue um padrão de entrada – processo – saída, criando uma sequência de recursos de ICT4D vinculados. Os conceitos apresentados no modelo são (HEEKS; MOLLA, 2009; HEEKS, 2010):

 Readiness: avaliação que analisa os pré-requisitos sistêmicos para qualquer iniciativa de ICT4D, como presença de infraestrutura de TIC, competências em TIC e políticas

de TIC. Pode incluir também a avaliação da estratégia que transforma estes “precursores” em “entradas” específicas do projeto, bem como a presença/ausência desses insumos.

o Precursores: sistemas de dados, legal, institucional, humano, tecnológico, de liderança ou drivers/demanda.

o Entradas: dinheiro, trabalho, valores e motivações, apoio político e metas.

 Disponibilidade: a implementação do projeto de ICT4D transforma as entradas em um conjunto de resultados tangíveis no domínio das TIC, podendo-se avaliar a presença e a disponibilidade dessas deliverables.

o Deliverables: Telecentros, bibliotecas, telefonia compartilhada e outros sistemas de acesso público.

 Captação: avaliação que mede a extensão em que as entregas de TIC do projeto estão sendo utilizadas por sua população-alvo. Uma avaliação mais ampla poderia olhar para a sustentabilidade desse uso ao longo do tempo, e para o potencial ou realidade de aumento de escala.

 Impacto: avaliação do impacto do projeto. Pode ser dividido em três sub-elementos: o Saídas: as mudanças comportamentais de nível micro associadas ao projeto de

ICT4D. Podem ser novos padrões de comunicação, novas informações e decisões e novas ações e operações.

o Resultados: os custos e benefícios específicos associados com o projeto de ICT4D. Podem ser financeiros e outros benefícios quantitativos, benefícios qualitativos e desvantagens.

o Impactos de desenvolvimento: a contribuição do projeto de ICT4D para as metas de desenvolvimento mais amplas. Pode incluir objetivos públicos como o Millennium Development Goals (MDGs).

A cadeia de valor é representada por uma intervenção de ICT4D (entrada) que resulta em deliverables (como um telecentro), que uma vez exploradas pelos beneficiários-alvo produzem saídas, que levam aos resultados e, finalmente, aos seus impactos (KIVUNIKE et al., 2013). A avaliação se torna mais difícil, mais cara e mais valiosa conforme os projetos se movem da esquerda para a direita ao longo da cadeia de valor, representando também uma cronologia (HEEKS; MOLLA, 2009). O foco de interesse nas avaliações dos projetos de ICT4D se alterou ao longo do tempo, com a forte difusão de projetos ICT4D, sendo o principal aspecto a avaliação de impactos ao invés de outras etapas da cadeia de valor.

Um dos maiores guias para avaliação de impacto de ICT4D é o desenvolvimento humano como um conceito multidimensional (KIVUNIKE et al., 2013). Nesse caso, o desenvolvimento engloba o que as TIC podem permitir que as pessoas façam ou sejam, considerando aspectos contextuais. Kivunike e outros (2013) propõem uma abordagem holística, multidimensional e hierárquica para a avaliação de iniciativas de ICT4D, que foca na avaliação de impacto, ou seja, nos componentes de resultado da cadeia de valor. O modelo está centrado na avaliação das contribuições das TIC para o desenvolvimento econômico e social em vários níveis de análise no contexto dos países em desenvolvimento (KIVUNIKE et al., 2013).

Os critérios de avaliação de ICT4D propostos consistem em três níveis (dimensões, resultados e saídas) e os indicadores são propostos para os resultados e níveis de saída (KIVUNIKE et al., 2013). As dimensões são consideradas os principais aspectos que formam o desenvolvimento social e econômico, e baseadas em Sen (1999) são compostas por oportunidades sociais, oportunidades econômicas, liberdade política e bem-estar psicológico, fornecendo uma visão holística do desenvolvimento (KIVUNIKE et al., 2013).

As oportunidades sociais são os arranjos disponíveis na sociedade para permitir que um indivíduo tenha uma vida melhor (educação e cuidados de saúde). As oportunidades econômicas referem-se às oportunidades que as pessoas têm de utilizar os seus recursos com a finalidade de consumo, produção ou troca. As liberdades políticas são as oportunidades disponíveis para que as pessoas exerçam os seus direitos políticos. O bem-estar psicológico refere-se às oportunidades de desenvolvimento emocional e pessoal (KIVUNIKE et al., 2013).

Os resultados são as conquistas (custos ou benefícios) associadas com a iniciativa de desenvolvimento e para o qual as saídas são um pré-requisito, sendo definidos para cada dimensão. Os indicadores de resultados que medem o resultado proposto servem como medidas da eficácia da iniciativa para a realização de determinados objetivos (KIVUNIKE et al., 2013).

As saídas são as mudanças de comportamento que resultam de uma iniciativa de ICT4D, sendo definidas como as oportunidades permitidas pela iniciativa. As categorias principais de saída são propostas com base no modelo de Heeks (2010): novas informações (informação que uma iniciativa aceita ou oferta), nova comunicação ou interações (novos modos de comunicação ou interação que uma iniciativa apoia) e novas ações ou operações (operações que uma iniciativa apoia).

Buscando uma compreensão do desenvolvimento que vai além da criação de oportunidades, mas considerando o valor que os usuários finais atribuem às iniciativas de ICT4D, os indicadores de saída avaliam a percepção dos mesmos sobre a qualidade e o nível de uso das iniciativas (KIVUNIKE et al., 2013). Avaliando a qualidade busca-se compreender

se os usuários finais realmente valorizam a oportunidade, determinando a natureza da utilização e os resultados do desenvolvimento. O uso avalia a percepção dos usuários sobre a extensão pela qual eles exploram a oportunidade de TIC.

Percebe-se ainda que no âmbito de projetos em ICT4D, um dos interesses primordiais consiste em compreender como as TIC, no sentido de progresso tecnológico, contribuem para o desenvolvimento social (ZHENG, 2009). A abordagem das capacidades nesse sentido enfatiza a incorporação das TIC na busca do desenvolvimento humano, permitindo que os indivíduos levem uma vida que eles valorizam, por meio da avaliação de aspectos como pobreza, desigualdade e desenvolvimento (ZHENG, 2009).