cena em “Impropose”, espetáculo apresentado pelos Imprudentes no Festival Universitário de Teatro de Improviso, na noite de 9 de novembro de 2017
Crédito da fotografia: Zeca Carvalho
Sob tal perspectiva, Hines (2016) reputa que um dos requisitos fundamentais da criação atoral em impro litigia a reunião de um grupo de indivíduos que dese- jam estar juntos apenas porque se gostam como seres humanos, e que construam coletivamente um ambiente criador no qual cada um não precisa ser o melhor, deve apenas sentir-se confortável entre seus companheiros de cena. Para o autor, o processo criativo em impro relaciona-se mais à confiança – em si mesmo e nos outros – do que ao virtuosismo ou à acurácia. Em síntese, quando se trata de grupos consagrados ao teatro de improviso de Keith Johnstone, por conta dos parâmetros dramáticos almejados, os processos criativos aos quais se devotam os atores devem ser ordenados de modo a “levar a conexão entre seus membros a um grau extremo” (STOKSTAD, 2003, p. 8), haja vista que a força de sua encenação deriva da sistematização de uma dinâmica de criação impreterivelmente coletiva, tendo-se como resultante uma equipe em que todos os integrantes sentem-se fa- miliarizados e seguros com as forças, fraquezas, aptidões, preferências, destrezas, tendências e inclinações uns dos outros.
Por último, Keith Johnstone (1990) adverte que, no Sistema Impro, diversas questões precisam ser criticamente analisadas e, oportunamente, enfrentadas, em decorrência de seu potencial destrutivo no que tange aos processos criativos, den- tre as quais se destacam: imposição forçosa da disciplina entre os participantes do jogo teatral; cristalização de formas estéticas; hierarquias injustificadas com respeito a melhores ou piores criações; submissão do processo criativo do ator às escolhas do diretor; desconsideração das diferenças entre processos atorais in- dividuais; deterioração das relações entre os integrantes dos coletivos de criação; predomínio das discussões teóricas em relação à experimentação prática; e supre- macia do texto em relação aos demais elementos da criação teatral.
A partir da literatura revista ao longo desta subseção – bem como das três subseções precedentes –, são compiladas na Figura 1, que aparece em seguida, as peculiaridades dos processos criativos em impro, desde as propriedades gerais da criação artística orientada para a improvisação como espetáculo, até as especifici- dades que particularizam o Sistema Impro.
Figura 1 – Características dos processos criativos no Sistema Impro 1. estímulo à autonomia criativa e à liberdade de expressão artística
individual e coletiva
2. recusa da cristalização em configurações fechadas, privilegiando antes as formas abertas da criação
3. confiança na intuição e na espontaneidade como propulsores da imaginação criativa
4. confluência no tempo do planejamento e da ação criadora, reduzindo os hiatos entre o processo e o produto da criação artística
5. abreviação ou contração das etapas criativas de preparação, incubação, iluminação e verificação
6. prevalência do pensamento divergente sobre o convergente
7. incorporação de elementos planejados e de fatores aleatórios nas dinâmicas criativas
8. eliminação de preconceitos pessoais, preconcepções estéticas e predeterminações psicofísicas para favorecer o desbloqueio da criatividade
9. ênfase na experimentação, renúncia a ideais estéticos de perfeição e desobrigação da necessidade de acabamento para a obra teatral 10. defesa da intervenção do público, que deve participar como co-autor
e testemunha da dinâmica criativa, interferindo em seus percursos inventivos
O COrpOnO TeaTrOde ImprOvIsO
11. compartilhamento do desejo de potencializar afetos com a plateia 12. investimento no desenvolvimento conjunto, solidário, democrático e
participativo de todo o coletivo de criação
13. persecução da experiência colaborativa na criação, por meio da capacidade de trabalhar em equipe, de refletir e agir em conjunto 14. consolidação de um jogo de confiança e desenvolvimento mútuos
na criação grupal, buscando uma relação orgânica das partes com o todo
15. enaltecimento da atitude de correr riscos como fundamento sistêmico da criação
16. apreciação do fracasso criativo como elemento habitual da prática artística, desde os ensaios até a encenação
17. excelência da transformação pessoal como incitamento do processo criativo
18. reconhecimento, validação e distinção da subjetividade criativa 19. assunção do dado imediato como ponto de partida para a criação
artística
20. estabelecimento do conceito de momento como unidade dramática fundamental
21. designação simultânea do ator como intérprete, dramaturgo, cenógrafo, editor e diretor da cena improvisada
22. estabelecimento de um programa de treinamentos para incrementar as competências de comunicação, performatividade e expressão verbal e não verbal do ator
23. realce da interrupção nas rotinas, tanto nos ensaios quanto na cena 24. percepção dos processos preparatórios de criação e daqueles
apresentados à audiência como jogos criativos
25. exaltação da qualidade de presença do ator, de maneira espontânea, comprometida, conectada e vívida
26. vinculação do ator ao fluxo da improvisação, sem aderir à racionalização na atuação
27. aprimoramento da capacidade de propor ofertas atrativas durante a contracenação, valorizando sugestões que sejam estimulantes para o outro, não apenas para si próprio
28. relevância da escuta, da recepção e da reação do improvisador a estímulos ambientais
29. proeminência da conexão do ator com os outros e consigo mesmo, de modo a possibilitar a resposta a impulsos criativos internos ou externos
30. valorização das memórias e experiências pessoais do improvisador, tidas como embriões de sua experiência artística
31. rejeição à primazia da palavra, de modo a permitir a eclosão de narrativas pautadas pelo equilíbrio entre os elementos verbais e corpóreos
32. balizamento das interações e das relações entre os elementos constituintes da cena por meio da ação física
33. ativação do aparato performativo para possibilitar que o corpo e a mente do ator reajam sincronicamente
34. indução espontânea da inovação artística e da criação dramática por meio da corporalidade
Fonte: elaboração própria pelo autor da presente investigação
Contempladas em seu conjunto, de uma maneira ampla e compreensiva, as 34 características relacionadas na Figura 1 adequam-se ao propósito de distinguir os processos criativos no Sistema Impro de Keith Johnstone de outras modalidades de gêneros performativos. Ainda assim, é obviamente impossível pretender que todas elas sejam exclusivas do teatro de improviso. Não é difícil perceber que muitos dentre os itens relacionados na Figura 1 prestam-se à pormenorização da criação artística em múltiplas variedades cênicas. Todavia, consideradas associada- mente, tais características são efetivas para singularizar o gênero teatral em estudo, por intermédio de seus processos de criação, os quais, como se pode constatar, dependem substancialmente da corporalidade.