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No ano de 1875 Alencar sofre as primeiras hemoptises. Planeja uma viagem para a Europa, na busca de uma cura para sua saúde já bastante debilitada. É neste mesmo ano que retorna à Corte, vindo de Paris, Joaquim Nabuco. Jovem, bem educado, filho do Senador Nabuco. Sua primeira ação política é iniciar-se na imprensa. E, assim como Alencar o fez em seu início de carreira, insurgir contra uma personalidade consolidada no cenário literário e político com paus e pedras na mão – no caso, o nosso biografado - em busca de algum reconhecimento. Traz da Europa um livro de poemas, publicado em francês, que consegue certa consideração. Assume a redação dos folhetins do jornal “O Globo”, tecendo críticas mais centradas nos literatos que à literatura “dos brasileiros”. Joaquim Nabuco

tomava para si o lugar do novo, da modernidade, da esperança e das ideias novas. O lugar que pertencera ao Alencar por algumas décadas e que havia, segundo Nabuco, ficado no passado.

A polêmica que se deu veio da necessidade de Nabuco se afirmar no cenário da Corte a partir de um modelo intelectual e artístico que se confrontaria com o romantismo, um realismo baseado nas ideias positivistas e evolucionistas. Modelo não assumido somente por ele, mas por toda uma geração que estava se estabelecendo. Pesavento nos mostra o cenário:

Imbuída das teorias europeias de Darwin, Spencer, Comte, Taine, Renan, esta geração buscava o universal de forma explícita, assumindo um cosmopolitismo declarado: o Brasil deveria acertar o passo com a história, ingressando na modernidade de seu tempo. A Europa fornecia o padrão de refinamento civilizatório e de patamar cultural. Dela vinham as ideias, a moda, as novas técnicas, e o Brasil precisava acompanhar o trem da história, nem que fosse no último vagão... (PESAVENTO, 1998. p. 27)

Assumir um modelo europeu não era uma novidade. Mas, como tal modelo se renova, as ideias são “assumidas” pelas novas gerações, como a pouco nos referimos, sustentando uma continuidade do sistema sem que uma mudança radical seja conseguida (ou pretendida).

O tema central do debate era a ideia de Nabuco de que a literatura de Alencar estava superada. Começa com o fracasso de público da peça “o jesuíta”, apresentada ainda naquele ano. Alencar rebate e segue na peleja, como era de seu gosto. Não é nossa intenção aprofundar aqui uma discussão sobre a literatura do período; para nós importa a questão: qual modelo de sociedade era sustentado por Alencar, e qual era defendido por Nabuco e dos grupos que se instalavam, ditos a

geração de 1870? Foi um momento em que vínculos foram criados entre intelectuais

brasileiros e europeus. Podemos apresentar uma caracterização do período na análise de Antônio Cândido, mostrando que:

(...)o movimento das novas ideias filosóficas e literárias que começou mais ou menos em 1870 e se estendeu até o começo do século XX, tendo como

núcleo inicial a cidade do Recife, capital de Pernambuco, e sua Faculdade de Direito. Lá e em outros centros, como o Ceará e sobretudo o Rio de Janeiro, desenvolveu-se um agudo espírito crítico, voltado para analisar de maneira moderna a sociedade, a política, a cultura do Brasil, com inspiração, primeiro no Positivismo, de Augusto Comte; em seguida, nas diversas modalidades de Evolucionismo, das quais teve aqui maior voga a filosofia de Herbert Spencer. Acrescente-se a divulgação das novas ciências como Biologia, Linguística, Etnografia, Antropologia, Física (CÂNDIDO, 1999. p. 51).

Não só Nabuco, mas também escritores como Franklin Távora e Feliciano de Castilho protagonizaram ataques ao Alencar, e suas ideias em favor da escravidão estavam totalmente distantes do modelo sociais e científicos apresentados. Alencar era a pedra da vez, e seu estado de saúde debilitado provavelmente contribui pra piorar o humor do genioso deputado. A literatura precisava deixar o reino do simbólico e chegar-se para a realidade, representada pelo cientificismo. Alencar refuta as acusações porque acredita no que escreve; não é um cientista e nem pretende ser. O que tem em mente não é tão somente a análise do real, mas uma possibilidade de “melhorar” o real, moralizando-o. Influenciar a sociedade, em busca sempre de um caminho de purificação do social.

O debate aberto interessa aos dois: Alencar, um pouco desgastado pelos recentes arranhões da política, e Nabuco buscando ainda o reconhecimento do público. Precisam do jornal. Precisam de um veículo que os fortaleça frente à opinião pública, construindo ali sua arena de luta. É no jornal que as ideias alcançam um público variado e seleto, visto que a alfabetização do povo não era um fato; mas também não podemos cair no mito do analfabetismo “total” da população, em que ainda não seja possível atingir um grupo tamanho que há de se considerar enquanto uma opinião pública; como prova disso temos a venda de livros – romances de folhetim em sua maioria, para o período – e a presença de salas de leitura e bibliotecas onde já se cativava um público fiel entre mulheres e estudantes24, e o próprio Alencar admite ter na infância lido para grupos. Era comum, em estabelecimentos comerciais e mesmo em casa de família, uma leitura coletiva de

24 É interessante uma consulta a o trabalho de Sandra G. Vasconcelos sobre a formação do romance no Brasil e o levantamento sobre os romances ingleses em circulação no Brasil no XIX.

jornais, informando as notícias aos que não são alfabetizados, o que possibilitava que as informações e opiniões chegassem a grupos maiores (SCHWARCZ, 1999).

A guerra que deixa de ser particular e toma à imprensa, Nabuco representa a proposta de um novo liberalismo que vai ganhando corpo a partir do final da década de 1860, que se contrapõe ao nacionalismo conservador concebido na obra de Alencar. Depois de dois meses, o debate termina, sem necessariamente abalar quaisquer dos lados. Nabuco se retira para tentar a política e Alencar deixa-se estar até maio seguinte, quando embarca com a família para a Europa. Sofrendo de depressão, a viagem o angustia. Paris, Londres, Portugal. Alencar está velho, consumido pela doença pulmonar. Só melhora um pouco com a volta ao Rio de janeiro. À Tijuca.

Alencar ainda combate na Câmara. É eleito para um quarto mandato como Deputado. Com a saúde já muito debilitada, não comparece a todas as seções e diminui as saídas de sua casa para os costumeiros passeios. Uma descrição construída por Lira Neto nos dá uma clara visão de Alencar nesse momento em que a tuberculose já chegara à situação terminal:

(...) era impressionante como o homem definhara nos últimos meses. Virara uma garatuja.

Os olhos miúdos haviam perdido o brilho característico e agora praticamente sumiam em meio as negras olheiras. Na outrora vasta cabeleira, uma entrada pronunciada alongava-lhe a testa e ajudava a conferir-lhe o ar de velhice precoce. A barba tomava conta do rosto magro e descera abundante sobre o peito, a ponto de os fios desgrenhados esconderem-lhe o nó da gravata. Tinha apenas 48 anos de idade. Parecia ter, no mínimo, vinte a mais (NETO, 2006, p.13)

Já não é mais o mesmo político agressivo, mas ainda encontra fôlego para se arranhar com Caxias – então chefe do executivo – e mais uma vez com Cotegipe, arrancando aplausos e risos do plenário sempre com suas críticas bem vivas a família real. Há de se admitir que houvesse um pouco de rancor pela sua não indicação para o senado, que lhe acompanharia até os últimos dias de vida, aguçando sua “implicância” e por vezes chegando a contradições, como quando

ataca seu próprio partido, enquanto o Imperador passeava pelo mundo com parte da família. A regente, Isabel, também não lhe enchia os olhos. Se não era alvo constante de suas críticas é porque pouca importância lhe dava o deputado.

Em abril de 1877 chega à capital notícia da seca que castiga a províncias do Ceará e vizinhas, como não acontecia a décadas. Vai à tribuna o Alencar para pedir esclarecimentos aos Ministros sobre a situação real da região e cobrar providências. Os jornais de Fortaleza acusam o conselheiro de descaso, ao mesmo tempo em que este se propõe a recolher, junto a uma comissão, donativos para as vítimas. Também algumas folhas do Rio de Janeiro, que divulgam litografias sobre os retirantes, chamam a responsabilidade. Vale lembrar que, José do Patrocínio, um dos jornalistas responsáveis pela divulgação do problema da seca no Ceará, é um abolicionista ferrenho. É notório que Alencar piora dia a dia, sentindo-se desprezado até por seus colegas do partido. Não se propõe mais ao debate público e deixa por menos as provocações dirigidas a ele. Sua preocupação é com a família, com o desamparo que pode vir a acorrer em função de sua morte. Vai definhando lentamente; abandona de vez a caminhada pelo passeio público e também se distancia dos amigos é quando a doença finalmente o alcança. Aos 12 dias de dezembro de 1877 falece José de Alencar. Às 10 horas da manhã do seguinte dia seu corpo é levado em cortejo até o cemitério de São Francisco Xavier, aonde vem a ser sepultado por um pequeno grupo de jornalistas e amigos próximos. O imperador, se dirigindo à Petrópolis na ocasião – como o fazia habitualmente - do falecimento, ao ser comunicado reage com uma expressão ressentida: “Homem de valor... Porém, muito mal-educado” (MENEZES, 1965).

O necrológio é escrito por Capistrano de Abreu, e estampado na primeira página da “Gazeta de Notícias”, mas sem a assinatura do autor. É o primeiro trabalho publicado por Capistrano de Abreu na imprensa carioca. O novo jornalista viria a fazer o sucesso que Alencar profetizara, e ainda mais, como escritor. Política é assim: Mesmo com sua morte, o deputado elege um “filhote”25.