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10 DEPOSITIONAL ENVIRONMENT

10.3 The ecology of nummulites

Nos itens seguintes, retomaremos alguns conceitos básicos que nortearam a pesquisa. Termos como ocupação de solo ou de terra e a relação entre meio ambiente e espaço social serão tratados a seguir.

7.1 OCUPAÇÃO DE SOLO OU DE TERRA

Como o monopólio das terras pelo governo e pelo Estado influenciou, e continua in- fluenciando, até hoje, a relação da população mais carente com o meio ambiente em que vi- vem? Essa é uma questão que o trabalho tentou responder, buscando analisá-la em uma pers- pectiva multidisciplinar.

Para permitir um entendimento de quais critérios objetivos foram usados na constru- ção da análise dos dados, alguns termos devem ser devidamente conceituados.

Neste estudo utilizaremos o termo “ocupação de solo” e não “de terra”. Este último, aparentemente, seria o mais correto ao se tratar de ocupação urbana, já que remete à idéia de uso da terra em sua superfície. Mas como também será vista a questão do uso de águas subter- râneas, permeabilização do solo e erosões, elementos que implicam tanto o uso superficial da terra quanto o do subsolo, abordaremos os processos de uso do solo na construção das duas cidades e não somente do uso da terra.

No decorrer da pesquisa, ficou constatado como os efeitos nocivos das erosões e de inundações em períodos de chuva foram importantes no processo de implantação e na vida cotidiana de Samambaia e de Ceilândia. A reivindicação por soluções para conter as erosões dirigiu muitas vezes as demandas na relação entre população e governo, pois configuram de- sequilíbrio ambiental com sérias conseqüências para os habitantes.

Como houve um distanciamento de quase 18 anos entre a criação das duas cidades, Ceilândia em 1971 e Samambaia em 1989, sofrendo ambas dos mesmos problemas erosivos, não parece ter havido por parte do GDF um “aprendizado” nesse aspecto, pois os erros come- tidos em Ceilândia foram repetidos em Samambaia. Nota-se, dessa forma, os equívocos ocor- ridos na escolha das áreas para a implantação dessas cidades e o extenso tempo levado para se fazer as obras de infraestrutura, chamando a atenção para um provável descaso quanto à reali- zação de estudos ambientais prévios, que pudessem nortear as decisões durante o processo de

construção. Porém este tema será tratado, especificamente, com maior detalhamento, nos ca- pítulos 2 e 3.

7.2 ESPAÇO SOCIAL E MEIO AMBIENTE

Não há como perceber o meio urbano e o meio ambiente separadamente, visto que o meio urbano é parte do meio ambiente, sendo a relação entre ambos de interferência recípro- ca. O espaço usado pelo homem, e por ele urbanizado, adapta-se e transforma o meio físico numa relação de interdependência. Essa relação é fator determinante para as condutas do gru- po humano, presente em dado espaço físico, e é norteada de acordo com o que o ecossistema lhe oferece, e vice-versa. Ou seja, a ação humana também interfere nos meios disponíveis, no ecossistema, para o uso humano.

Segundo Guerra e Cunha, o espaço social é visto em sua dimensão material e objeti- va como:

[...] um produto da transformação da natureza (do espaço natural: solo, rios etc.) pelo trabalho social.”, que torna-se [sic] o campo físico das relações sociais, assim sendo o espaço é um pal- co “construído, modelado” com variados graus muito variados de intervenção e alteração pelo homem. Desde “as mínimas modificações induzidas por uma sociedade de caçadores e coleto- res (impactos ambientais fracos) até ambiente construído e altamente artificial como uma grande metrópole contemporânea (fortíssimo impacto sobre o ambiente natural), passando pe- las pastagens e pelos campos de cultivo, pelos pequenos assentamentos etc.33

Assim concebido o espaço social não é um espaço abstrato. Constitui-se como um espaço concreto, um espaço geográfico definido por certo grupo social. Dizem ainda os autores que:

[...] o ambiente ou meio ambiente é social e historicamente construído. Sendo que sua constru- ção se dá num processo de continua interação da sociedade, que está em constante movimento com um espaço físico em particular e que também passa por permanente modificação.34 Podemos compreender então o ambiente como algo em processo contínuo e dinâmico, sendo tanto ativo quanto passivo nas relações sociais. Ao ser alterado, torna-se condição para novas transformações, modificando também a sociedade.

Para a ecologia social, o meio urbano é resultado da ação transformadora da socieda- de em relação ao ecossistema natural, o que se configura em um novo ecossistema, em um

33

GUERRA, Antonio José Teixeira; CUNHA, Sandra Baptista da Cunha (orgs.). Impactos ambientais urbanos

no Brasil. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001. p. 23.

meio ambiente urbano. Morin afirma que o ecossistema urbano seria a “totalidade de relações e de interações no seio de uma unidade tão localizável como um nicho: o aglomerado urba- no”35, atuante no ecossistema natural. Já Milton Santos refere-se à cidade como “um meio ambiente construído, que é o retrato da diversidade das classes, das diferenças de renda e dos modelos culturais [...]”36.

7.3 RELAÇÕES SOCIAIS E AÇÕES SOCIAIS

Ao abordarmos os interesses políticos e econômicos presentes nas tomadas de deci- sões que envolveram a construção de Ceilândia e Samambaia, bem como a influência de tais interesses nos projetos e no encaminhamento da implantação destas cidades, usaremos — a título de reflexão sobre essas “tomadas de decisões” e os instrumentos institucionais técnicos e legais que as envolveram — a concepção de relação social de Max Weber que envolve o conceito de ação social:

Por “relação” social entendemos o comportamento reciprocamente referido quanto a seu con- teúdo de sentido por uma pluralidade de agentes e que se orienta por essa referência. A relação social consiste, portanto, completa e exclusivamente na probabilidade de que se aja socialmen- te numa forma indicável [sic], não importando, por enquanto, em que se baseia essa probabili- dade.37

7.4 IMPACTO AMBIENTAL URBANO

A concepção de impacto ambiental urbano tem como influência uma construção a- gregadora de teorias, que envolve economia política do ambiente e ecologia política urbana, tendo como base o trabalho de Guerra e Cunha:

O campo teórico de nossa reflexão é a economia política ou ecologia política (com base nas i- déias de Marx e Engels), que tem como pressuposto teórico a indissocialibidade entre natureza e sociedade e como objeto de investigação as dialéticas das mudanças sociais e ambientais (Harvey, 1996). Responde, assim, ao desafio, teórico e metodológico, de articular num modelo coerente as análises dos processos naturais e sociais (econômicos, políticos e culturais).38

35

Apud GUERRA, Antônio José Teixeira; CUNHA, Sandra Baptista da Cunha (Org.). Impactos ambientais

urbanos no Brasil. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001. p. 23.

36Apud ibidem. 37

WEBER, Max. Economia e sociedade. Fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília: Edunb, 1991, p. 16.

Impacto ambiental é, portanto, o processo de mudanças sociais e ecológica e causado por per- turbações (uma nova ocupação e /ou construção de um objeto novo: uma usina, uma estrada ou uma indústria) no ambiente. Diz respeito ainda à evolução conjunta das condições sociais e e- cológicas estimulada pelos impulsos das relações entre forças externas e internas à unidade es- pacial e ecológica, histórica ou socialmente determinada. É a relação entre sociedade e nature- za que se transforma diferencial e dinamicamente. Os impactos ambientais são escritos no tempo e incidem diferencialmente, alterando as estruturas das classes sociais e reestruturando o espaço.39

Assim sendo, o impacto ambiental não é só o resultado da ação do homem sobre o meio é a própria relação de mudanças sociais e ecológicas em movimento. Por isso o impacto dessas “cidades-satélites” no meio da região hoje chamada Distrito Federal será abordado no seu processo histórico e contínuo e, ainda, nas relações sociais, econômicas e políticas que as envolveram.