11 Stability and calculations
11.4 Temperature changes of the film during the exposure
Tratando da divisão do trabalho na manufatura e na sociedade, Marx (2013) afirma que “A divisão social do trabalho surge [...] da troca entre esferas da produção originalmente distintas e independentes entre si”. Assim, a troca de produtos estaria por estabelecer relações econômicas e sociais entre comunidades diferentes, caracterizando a divisão social do trabalho, cuja transformação possibilitaria relações de produção mais “independentes de uma produção social total” (MARX, 2013, p. 426).
Essa divisão do trabalho na sociedade, conforme Marx (2013), corresponde, também, a limitações particulares dos sujeitos a partir de pontos opostos. Por isso,
Numa família ou, com o desenvolvimento ulterior, numa tribo, surge uma divisão [...] natural e espontânea do trabalho fundada nas diferenças de sexo e idade, portanto, sobre uma base puramente fisiológica, que amplia seu material com a expansão da comunidade, com o aumento da população, e especialmente, com o conflito entre as diversas tribos e a subjugação de uma tribo por outra (MARX, 2013, p. 425).
Por conseguinte, a divisão do trabalho na sociedade, conforme Marx (2013, p. 425), “é mediada pela compra e venda dos produtos de diferentes ramos do trabalho [...] [o que] pressupõe a fragmentação dos meios de produção entre muitos produtores de mercadorias entre si”. Isso significa que a divisão manufatureira do trabalho, na qual apenas o produto comum dos trabalhadores parciais converte-se em mercadoria, estabelece uma conexão desses trabalhos parciais por meio da venda de diferentes forças de trabalho ao mesmo capitalista, que as emprega como forças combinadas para aprimorar a sistematização da produção, na qual o empregador é o único proprietário (MARX, 2013).
Enquanto a divisão do trabalho no todo de uma sociedade, seja ela mediada ou não pela troca de mercadorias, encontra-se nas mais diversas formações socioeconômicas, a divisão manufatureira do trabalho é uma criação absolutamente específica do modo de produção capitalista (MARX, 2013, p. 428).
Ao analisar a relação da divisão social e técnica do trabalho no processo de racionalização da produção, segundo a lógica do mercado, Braverman (1987) considera ser a “divisão manufatureira do trabalho o mais antigo princípio inovador do modo de produção capitalista, visto que, com a divisão do trabalho, permaneceu o princípio fundamental da organização industrial”, que gera processos gradativos de divisão nas atividades operacionais e configura mudança nos saberes do trabalhador. Dessa maneira,
A divisão do trabalho na indústria capitalista não é de modo algum idêntica ao fenômeno da distribuição de tarefas, ofícios ou especialidades da produção através da sociedade, porquanto, embora todas as sociedades conhecidas tenham divido seu trabalho em especialidades produtivas, nenhuma sociedade antes do capitalismo subdividiu sistematicamente o trabalho de cada especialidade produtiva em operações limitadas. Esta forma de divisão do trabalho tornasse generalizada apenas com o capitalismo (BRAVERMAN, 1974, p. 70).
Esse modo capitalista de produção, segundo Braverman (1987, p. 79), “[...] destrói sistematicamente todas as perícias à sua volta e dá nascimento à qualificação e ocupações que correspondem às suas necessidades.” Nessa perspectiva de organização do sistema produtivo e de preparação do trabalhador para responder a ideais capitalistas, “a divisão manufatureira do trabalho transforma numa necessidade técnica o aumento do número de trabalhadores empregados” (MARX, 2013, p. 433).
Com a intensificação do trabalho, da produção e, consequentemente, com o fortalecimento cada vez maior do capitalismo, cresce a necessidade de organização do trabalho sob novas demandas produtivas, que requerem processos permanentes de aprimoramento na formação do trabalhador, exigindo deste melhor correspondência profissional em conformidade à “divisão do trabalho previamente dada” (MARX, 2013, p. 433).
Esse processo produtivo com “a divisão do trabalho aumenta a produtividade”, ao impor maior controle e rigor sobre o movimento de trabalho, como observa Braverman (1987, p. 77): “[...] este importantíssimo princípio significa que dividir os ofícios barateia suas partes individuais, numa sociedade baseada na compra e na venda da força de trabalho”.
Referindo-se à “heterogestão33 como pedagogia do trabalho capitalista”, Kuenzer (2011) afirma que a fragmentação do conhecimento direcionado à preparação profissional temporária do trabalhador desenvolve-se de acordo com a demanda em que se dá um ciclo de produção. Além disso, a transmissão parcelada do conhecimento, direcionada somente para o trabalho, contribui para desarticular eventuais formas de mobilização que permitam o fortalecimento dos trabalhadores, uma vez que nega formação integral a esses sujeitos.
Como a origem da divisão do trabalho, segundo Kuenzer (2011), não resulta somente da sabedoria humana, mas também da tendência natural do homem de negociar e trocar uma coisa por outra, ao analisar como o capital se apropria da divisão do trabalho, a partir de estratégias de preparação profissional dos trabalhadores, demonstra-se que a política capitalista articulada à tendência de negociação do homem leva à exploração da força de trabalho e ao domínio das ações do trabalhador.
Desse modo, o capitalismo busca manter uma forte relação de dependência política, econômica e cultural com os sujeitos, a fim de disciplinar o comportamento humano e social, conforme seus próprios interesses. Para isso, o capitalismo utiliza diversos procedimentos educativos que servem para ampliar a exploração do trabalho, bem como para preservar as desigualdades sociais, entendidas como a base de produção e reprodução do sistema capitalista. Nesse sentido, pode-se verificar que:
[...] o capital se utiliza da heterogestão como forma de dominação sobre o trabalho, a qual, na medida em que incorpora o saber sobre o trabalho ao capital e expropria dele o operário, promove a educação do trabalhador. Esta pedagogia do trabalho capitalista representada pela heterogestão se dá tanto ao nível de coerção quanto do consenso, inscrevendo-se no quadro mais amplo das relações hegemônicas (KUENZER, 2011, p. 48).
Esse processo de exploração do trabalho, que gera fragmentação nos saberes, contribui para o enfraquecimento profissional e político do trabalhador. Além disso, conforme será demonstrado no próximo capítulo, afeta o trabalho dos artesãos na carpintaria naval regional, à medida que exigem mudanças nas habilidades operacionais.
Tais mudanças caracterizam uma subdivisão de tarefas nas operações profissionais e demandam uma reorganização nos saberes e práticas, reconfigurando o trabalho artesanal e
33 “A heterogestão, tal como ela ocorre no modo de produção capitalista, é fruto tardio do racionalismo, que só começa a atingir a organização do trabalho a partir do século XVIII para que se institucionalizasse definitivamente no fim do século XIX e começo do século XX. Embora a crescente racionalização nos séculos XVIII e XIX tivessem fornecido o pano de fundo para o emprego dos métodos racionais na execução e organização do trabalho, isto só foi possível com o surgimento de novas relações de produção, que determinaram o abandono violento do sistema artesanal pela introdução da máquina no processo produtivo” (KUENZER, 2011, p. 25).
contradizendo a maneira como os carpinteiros realizam sua produção, haja vista se tratar de uma atividade que requer domínio profissional em todas as operações do trabalho.
Por outro lado, a contradição presente na dinâmica de transmissão dos saberes e dos conhecimentos do trabalho também pode gerar processos de formação profissional, fortalecendo o homem como trabalhador e como sujeito histórico, pois, “as formas de coerção do capital sobre o trabalho acabam por criar focos de resistência operária que funcionam como limitadores do próprio desenvolvimento capitalista”, uma vez que possibilitam ao trabalhador refletir sua condição de trabalho e agir visando à emancipação e à transformação social (KUENZER, 2011, p. 65).
Esse estudo da fragmentação do trabalho, que permite melhor compreender como o capital articula formas de expansão e de manutenção do seu poder político e econômico sobre as relações do trabalho, revela uma dinâmica da produção e reprodução do sistema capitalista, que gera exploração e alienação do trabalho, a partir da utilização de procedimentos educativos e tecnológicos que levam, por sua vez, à subdivisão do trabalho.
Ademais, conhecer a dinâmica de organização da produção do trabalho como uma condição necessária à existência humana torna-se fundamental para se compreender as relações sociais, profissionais e educativas que configuram a realidade dos sujeitos na sociedade capitalista, pois a “formação do trabalhador no capitalismo [...] traz, como um dos resultados, a exploração do trabalho humano e sua alienação” (KUENZER, 2011, p. 32).
Dessa maneira, a apropriação do conhecimento resultante das experiências de trabalho, quando utilizadas com finalidades capitalistas, pode caracterizar inovação na produção, possibilitando novas formas de alienação ao trabalhador. Consequentemente, o trabalho alienado, além de “produzir mercadoria; o produto do trabalho se traduz em puro meio de subsistência e não em uma atividade vital; o operário é separado do seu produto e dos meios de produção, que são apropriados pelo capitalista” (KUENZER, 2011, p. 33).
Dentro dessa lógica da produção e da reprodução do capital, a formação política dos trabalhadores, mediada pela relação com o trabalho, é compreendida como forma de ameaça à organização do sistema capitalista, porque a força de trabalho da classe trabalhadora constitui toda a estrutura responsável pela geração e acúmulo de riqueza que firma a classe burguesa no processo de dominação e controle do poder econômico, político e ideológico social.
Por fim, considera-se que a organização dos trabalhadores pode contribuir com a construção de uma relação de ruptura na sistematização do modelo de produção capitalista,
fomentando possibilidades de reversão da sua ordem. Por isso, no estudo dos saberes do trabalho na carpintaria naval, é importante conhecer a elaboração das estratégias de organização dos saberes e das práticas sociais, dinamizadas nas reações políticas e sociais que tomem os trabalhadores como sujeitos ativos e cientes de suas funções sociais e históricas.