4.4 Bearbeiding og analyse av datamaterialet
4.4.5 Tematisk nettverksanalyse
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O golpe militar de 1964 marcou uma transformação nos encaminhamentos culturais da sociedade brasileira, e este trabalho objetivou verificar alguns desses momentos: desde a escrita da peça Corpo a Corpo e seu papel na dramaturgia de Vianna até sua encenação em 1995. Devemos retomar aqui a assertiva de Peter Gay1 com que iniciamos este trabalho: o passado está sempre aberto a revisões e estas são marcadas pelo olhar de cada presente, mediado pelo ofício do historiador. Ao refletirmos sobre 2006, percebemos que as práticas culturais de responsabilidades dos governos se mostram ainda passíveis de muitas críticas. Esse tema permeou todo o trabalho: desde sua verificação por Vianna, em 1968, até sua retomada na fala dos artistas Eduardo Tolentino e Zé Carlos Machado.
Na análise de Corpo a Corpo, isso pode ser explicitado claramente. Ora, os questionamentos presentes na peça encontram hoje uma reestruturação assustadora; e a forma assumida pela publicidade em dias atuais valida essa afirmação. Sua forte conexão com a política transformou essa última em shows televisivos esvaziados de qualquer luta. E ainda assistimos a um momento em que os escândalos envolvendo negociações milionárias estabelecem novo papel para a publicidade aliada à política. As mediações construídas nos momentos de encenações da peça indicam que o processo de que participava Vianinha na década de 1970 continua aberto e sujeito a revisões. Portanto, taxar o texto Corpo a Corpo de datada ou condicioná-lo a um tempo específico não tem sentido. Os questionamentos da peça continuam latentes.
A atualidade dessas questões nos remete à idéia de tradição, entendida na forma como uma dada sociedade valoriza suas tradições – sejam elas culturais ou políticas – ou
1 GAY, Peter. Conclusão sobre o estilo na história. In: O estilo da história. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
seja, a maneira com que se projetam no futuro podendo ser entendidas como tradição tornando possível a reflexão presente e o futuro segundo aspectos que considerem as práticas passadas. Aliás, uma pesquisa que se orientou pelo trato com objeto artístico não se mostrou separada dessas outras instâncias (políticas e econômicas). Isso pode ser verificado, por exemplo, nos problemas financeiros experimentados pelo teatro em 1960 e discutidos por Vianna, assim como naqueles relatados por Eduardo Tolentino. No caso específico desta pesquisa, verificamos que o fazer teatral no Brasil esteve sempre conectado a tais questões, de ordem política podemos citar o golpe de 1964 que começa por abortar uma efervescência cultural começada na década de 1950, pautado na censura; o mesmo golpe impõe à sociedade um estrangulamento econômico que passa a inviabilizar as produções.
A produção do artista Oduvaldo Vianna, então, possibilitou questionar uma sociedade que se originava nos anos de 1960, e os desdobramentos desta pensados a partir de 1964 identificam uma questão primordial: as formas de constituição de uma sociedade de massas e a efetivação de novos ideais de consumo contribuíram para uma constante alienação do homem quanto à sua participação na vida cultural e política do país. Obviamente, essa desmobilização pode ser explicada pela censura, pela instauração de uma força repressiva; mas ainda assim é necessário construir idéias que façam o homem deixar de se preocupar com essas questões mais amplas e se voltar ainda mais para suas conquistas imediatas.
Em texto de 1943, Simone Weill identifica essas questões no que chama de desenraizamento. Para ela, o alienar-se do social é prática constantemente elaborada pelos governantes. A autora ressalta que:
O enraizamento é talvez a necessidade mais importante e mais desconhecida da alma humana. É uma das mais difíceis de definir. O ser humano tem uma raiz por sua participação real, ativa e natural na existência de uma coletividade que conserva vivos certos tesouros do passado e certos pressentimentos do futuro. Participação natural, isto é, que vem automaticamente do lugar, do nascimento, da profissão, do ambiente. Cada ser humano precisa ter múltiplas raízes. Precisa receber quase que a totalidade de sua vida moral, intelectual, espiritual, por
intermédio dos meios de que faz parte naturalmente.2
É essa supressão de tal participação natural que governos ditatoriais, como na realidade brasileira, empreendem. A efetivação desses procedimentos no Brasil não é
2 WEILL, Simone. O desenraizamento. In: A Condição Operária e outros estudos sobre a opressão. (Org. Eclea Bosi). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p. 347.
pensada sem mediação da televisão e, por conseqüência, da publicidade. O surgimento da televisão contribui decisivamente para mudar o comportamento e para um acirramento cada vez maior de uma sociedade de consumo marcada pelo individualismo, e a publicidade tem papel capital no sucesso dessas mudanças: é a propaganda quem “produz” os desejos que se tornam necessidades de muitos, mas cuja realização é para poucos. Dessa forma, a complexidade das formas capitalistas cria o ambiente para afirmação da publicidade como necessidade das empresas, cria produtos diversificados, que supõem nova mão-de-obra — mais qualificada e, portanto, com salário maior —, que passa a compor um novo mercado consumidor. A própria criação de produtos engendra o necessário para a circulação. Ao discutir sobre a produção das necessidades do consumo, Marx diz que:
A necessidade que se sente desse objeto é criada pela percepção deste. O objeto de arte — tal como qualquer outro produto — cria um público capaz de compreender a arte e de apreciar a beleza. Portanto, a produção não cria somente um objeto para o sujeito, mas também um sujeito para o
objeto. Logo a produção gera o consumo: 1o fornecendo-lhe a sua
matéria, 2o, determinando o modo de consumo, 3o, criando no
consumidor a necessidade de produtos que começaram por simples objetos. Produz por conseguinte o objeto de consumo, o modo de consumo, o instinto do consumo. De igual modo o consumo engendra a vocação do produtor, solicitando-lhe a finalidade da produção sob a
forma de uma necessidade determinante.3
É papel da publicidade, portanto, moldar esse sujeito às necessidades de um mercado consumidor, e não para o que necessita.
A verificação dessas questões foi mediada pelo artefato artístico, e por ela foi possível perceber que os debates sobre as transformações ou afirmações estéticas estiveram sempre conectados com o meio social vivido. A análise da encenação de Corpo
a Corpo pelo grupo Tapa evidenciou isso de forma singular, ou seja, mostrou como os
encaminhamentos estéticos soam políticos; a encenação recompôs os temas conforme seu presente. Também foi possível entender que a própria interpretação de uma obra é historicamente dada pelo momento. Assim, contra um pressuposto de obra universal que carrega em si seus significados, está uma obra aberta com conceitos que se transforma e aglutina novos significados.
Corpo a Corpo propiciou o encontro com diferentes tragédias da realidade
brasileira e possibilitou, na instituição de novos entendimentos, verificar aquelas
3 MARX, Karl. Manuscritos econômicos e filosóficos e outros textos escolhidos. Seleção de textos de José Arthur Giannotti. São Paulo: Abril Cultural, 1978. 46.
realidades. Como preconizava Vianinha, a necessidade de dominar os problemas e a necessidade da não-alienação são mecanismos centrais para se discutir cada tempo. A urgência das propostas de Vianinha e a poesia de suas palavras fizeram parte e transformaram não só esta pesquisa, mas também a forma de olhar para o meio em que vivemos. O desfecho deste texto se dará pela repetição, e que suas palavras finais marquem apenas mais uma etapa:
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Documentação
Textos teatrais:
VIANNA FILHO, Oduvaldo. A Longa Noite de Cristal. Rubrica inicial da peça. Cópia datilografada, Centro Cultural São Paulo.
VIANNA FILHO, Oduvaldo. Corpo a Corpo. In: Cultura Vozes. São Paulo, 1999, número 1.
Cultura Vozes. São Paulo: Editora Vozes. 1999. Volume 93. Entrevistas:
ARAÚJO, Eduardo Tolentino de (diretor do Grupo Tapa de São Paulo). Concedida a Rosangela Patriota e Sandra Rodart Araújo em 12, out/ 2002.
MACHADO, Zé Carlos. Entrevista de Zé Carlos Machado concedida a Rosangela Patriota e Sandra Rodart Araújo em 11, set/2005.
Espetáculo em Vídeo:
CORPO A CORPO. Direção de Eduardo Tolentino. Grupo Tapa de São Paulo. Espetáculo gravado nos dias 18 e 19 de novembro de 2000. Encenação do Grupo Tapa de São Paulo e atuação de Zé Carlos Machado.
Slides com fotos do espetáculo produzidos por Fernando Nasser.