Muitas dos significados já descritos se conectam no planejamento de ensino, que interfere de forma significativa na educação das relações étnico-raciais no ensino de Ciências.
Conforme o relato das participantes, as definições tomadas coletivamente, no início do ano, pelo grupo de docentes da escola em que trabalham têm papel importante no planejamento. É a partir dessa elaboração inicial, cujo produto é, geralmente, uma lista de temáticas a serem abordadas ao longo do ano, que se inicia o planejamento individual. Essas decisões coletivas envolvem também outro aspecto central, a escolha dos livros didáticos a serem utilizados. Essa escolha é importante porque o livro eleito, ou livros vão direcionar grande parte das ações a partir daí, fornecendo, ao mesmo tempo, planejamento a longo e curto prazo, isto é, anual e de cada aula.
31 Gênero musical, com influência no Punk Rock, que se estabeleceu no Brasil sob forte influência
estadunidense em meados de 2003, na cidade de São Paulo, espalhando-se para outras capitais do Sul e Sudeste. Influenciou também uma moda de adolescentes, caracterizada não somente pela música, mas pelo comportamento geralmente emotivo e tolerante, e pelo visual, que consiste, geralmente, de trajes pretos, listrados, cabelos coloridos e franjas caídas sobre os olhos maquiados (WIKIPÉDIA, 2009).
133 De forma geral, o planejamento de uma aula inicia-se na definição dos conteúdos conceituais que serão abordados. A partir dessa definição, procedimentos de ensino e outros materiais serão avaliados, se identificada necessidade de complementar o planejamento. Temáticas que tomam relevância em determinados momentos, geralmente veiculadas pela mídia, são incluídas no planejamento de aulas. Por exemplo, Samira, ao explicar como prepara suas aulas, explicitou: “Sigo o conteúdo do livro didático. Quando há um assunto em evidência nos meios de comunicação, procuro inseri-lo na aula, buscando relações com os temas já estudados, seja na série em que os alunos estão ou nas que já passaram”. Informações veiculadas na mídia são entendidas como “complementos” aos conteúdos conceituais definidos e promovem “desenvolvimento da crítica” por parte dos/as estudantes, contribuindo para conectar o ensino à realidade.
O planejamento de ensino envolve tempo e, como já anunciado anteriormente, ele é geralmente escasso no dia a dia das professoras. No caso específico de planejar aulas para educar relações étnico-raciais justas, essa situação torna-se ainda mais grave, porque, devido à ausência quase total dessa discussão nos livros didáticos, é necessário realizar um planejamento mais complexo, que envolve pesquisas e criação de atividades novas. Sobre essa situação, Renilda disse: “Por que eu acho importantíssimo esse trabalho, porém não tenho tempo para pesquisar, para aplicar esses conhecimentos em minhas aulas. Infelizmente, não tenho tempo para trabalhar dessa forma”. As docentes foram capazes de elaborar atividades no contexto do curso de formação continuada, porém, apontam que é difícil encontrar tempo e materiais adequados para tal intento.
Ao planejar aulas é necessário refletir, independentemente do componente curricular trabalhado, sobre algumas habilidades que os/as estudantes devem dominar e que são pré-requisitos para qualquer atividade. Entre elas estão as capacidades de leitura e interpretação, indicadas como grande problema enfrentado nas escolas públicas. Nesse sentido, Samira questionava: “Como fazer várias interpretações do que seja Ciência se os alunos não sabem nem ler e escrever?”. Sobre essa mesma preocupação, Isolda, professora de português, ao explicar como planeja suas aulas, escreveu: “E, geralmente, a maior dificuldade é na leitura e interpretação de textos. Portanto, além dos conteúdos programados, priorizamos sempre a prática de leitura, interpretação e produção de textos”.
Os conteúdos conceituais, e seu domínio pelos/as estudantes, também geram expectativas que interferem no planejamento de ensino. Muitas vezes, os/as alunos/as
134 não possuem conhecimentos básicos para compreender os conteúdos que devem ser trabalhados, situação que gera a necessidade de inserir conceitos/temas prévios, alterando os objetivos de ensino planejados ou atrasando sua consecução.
Outra questão importante no planejamento de ensino é a experiência junto aos/as alunos/as, em que são geradas expectativas sobre seu comportamento. As expectativas sobre como os/as estudantes provavelmente se comportarão frente às atividades propostas direciona a forma pela qual as aulas serão conduzidas, procedimentos e estratégias de ensino. Essa relação aparece, por exemplo, na explicação de Anita sobre como prepara suas aulas:
“Procuro abordar o assunto de maneiras diferenciadas, de acordo com a classe no dia da aula. Quando estão mais participativos, a aula é apresentada na forma de debates, trabalhos em grupo, pesquisa (levo material para a sala de aula). Quando estão mais agitados, a aula permanece na forma de resumos, questionários”.
Refletindo sobre esse planejamento, a docente explica que a complexidade do ambiente não permite generalizações muito precisas sobre como deve ser a ação docente para proporcionar uma boa aula. Mesmo assim, essas previsões ajudam a refletir tanto sobre a viabilidade das atividades quanto em sua forma de aplicação. Mudanças no comportamento de alunos/as, a partir de atividades ou intervenções realizadas, ficam guardadas na memória das professoras, sendo resgatadas sempre que for necessário preparar uma nova aula. Nesse sentido, Renilda deixa claro o alívio que sentiu quando, após uma atividade planejada para discutir as interações entre os/as estudantes, eles/as se comportaram de forma diferente: “Graças a deus não aconteceu nada [ênfase], ontem não aconteceu nada, puxa vida. Ontem não aconteceu nada, foi tudo na santa paz, fizeram as atividades, participaram, ninguém xingou ninguém (...) Eu falei nosssssaaaaa”. Essa melhora, entendida como fruto do trabalho planejado, serviu de base para análise de como devem ser realizadas outras atividades com tal finalidade, com ênfase na ação imediata.
Além de suas reações/comportamentos, também é necessário conhecer as idéias e concepções dos/as alunos/as, a fim de planejar o ensino de forma adequada. Essa necessidade é evidente quando se objetiva melhorar a interação entre os/as estudantes, muitas vezes tensas, devido a conflitos envolvendo relações étnico-raciais. Por exemplo, Renilda explicava a necessidade de, para interferir nas brigas que ocorriam na sala, sentar e conversar com os/as alunos/as. Conhecendo os pensamentos e sentimentos
135 dos/as estudantes, é mais fácil para as docentes agirem como “mediadoras” de conflitos e identificar ações necessárias para, por exemplo, superar preconceitos.
A Mídia
Outra dimensão que foi possível captar analisando os dados da pesquisa envolve significados atribuídos à mídia e seu papel social. As docentes, cotidianamente, informam-se na mídia, processo que tem forte impacto em seus conhecimentos sobre as relações étnico-raciais.
Informações adquiridas na mídia sobre Ciências Naturais, história, política, educação, história e cultura africana e afro-brasileira, relações étnico-raciais, entre outras, frequentemente interferem na prática docente. Esse contato se dá na leitura de jornais e revistas e ao assistir televisão, fornecendo informações que, muitas vezes, são transmitidas aos/as estudantes nas aulas.
A mídia contribui para a formação da opinião das professoras sobre questões envolvendo as relações étnico-raciais na sociedade brasileira. Notícias veiculadas por jornais e revistas que abordavam as relações étnico-raciais, principalmente as desigualdades a elas relacionadas, foram destacadas por elas. Por exemplo, Samira compartilhou com o grupo uma notícia publicada em jornal de Campinas, que apontava as mulheres negras como as principais “vítimas” de aborto no país. A mídia também interfere na compreensão de políticas públicas como as ações afirmativas.
As docentes apontam que refletir criticamente sobre a mídia pode ser uma forma importante de compreender melhor as relações étnico-raciais e as ideologias que orientam discursos a elas relacionados. Anita, ao analisar uma reportagem, destacou que a reportagem manipulava as falas dos/as entrevistados/as e que, por trás de tal manipulação estavam interesses de certos grupos que controlam a mídia, identificados no discurso da reportagem. Vanda, que analisou outra reportagem da mesma revista, comentou ter a sensação de que a revista usou as pessoas negras, a fim de construir um argumento que, no mesmo sentido apontado na reportagem analisada por Anita, confundia o conceito biológico já superado de raças humanas com a contemporânea visão de construção social do pertencimento étnico-racial. As mencionadas reportagens referiam-se a pesquisas científicas que provavam que as “raças humanas”, entendidas unicamente do ponto de vista biológico, não existem. Assim, o discurso da revista
136 dificultava a compreensão tanto das políticas em pauta quanto das relações étnico- raciais vividas na sociedade.
Ao mesmo tempo, as docentes apontam que reportagens podem ajudar a compreender as relações étnico-raciais e a história e cultura africana e afro-brasileira, ao veicularem informações novas e de qualidade. Nesse sentido, Samira relatava no início de um encontro: “Saiu uma matéria também interessante há pouco tempo no jornal, mostrando quantos escravos que vieram da África para cá e chegaram a retornar, para a África; então, o governo brasileiro, em alguns países da África, estão procurando conservar as casas que eles fizeram depois da volta, do retorno”.
Na visão das participantes, a mídia, de forma geral, não representa bem a diversidade étnico-racial presente na população brasileira nem as populações negras em diferentes países, principalmente africanos, pois distorce informações e veicula estereótipos que acabam interferindo na compreensão da realidade. Os veículos de comunicação transmitem informações que reforçam estereótipos étnico-raciais de inferioridade da população negra e que acentuam tensões existentes entre negros e não- negros. Nas palavras de Renilda e Vanda:
“(...) a mídia e/ou imprensa manifesta através das reportagens escritas e audiovisuais a clara demonstração de pensamentos e ações discriminatórias que favorecerão resultados políticos para uma minoria dominante. Exemplos: em novelas as empregadas domésticas são sempre negras; nos telejornais o crescimento da marginalidade é associado a imagens de negros e descendentes; folders de analfabetismo trazem pessoas negras em destaque; etc. perpetuando assim uma ‘possível’ inferioridade da raça negra, desfavorecendo e desestimulando cada vez mais este povo, de cultura tão rica e pouco conhecida e valorizada”.
Essas distorções marcam também a visão sobre o continente africano, como apontou Renilda: “Muitos professores que não têm essas informações, pensaram e ensinaram sobre a África, a partir do senso comum sobre ela, ou seja, através de informações imprecisas e tendenciosas divulgadas pelos meios de comunicação de massa”.
Na visão das docentes, “às vezes” a mídia pode divulgar informações diferentes, isto é, não preconceituosas, que podem ser utilizadas como recurso pedagógico. Como apontava Samira: “Ontem eu achei interessante, não sei bem em que canal, se na Globo, propaganda do dias das mães com criança negra(...) Porque a gente não vê”. Essa visão diferente foi identificada em alguns programas e/ou reportagens, como disse Renilda:
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“Mas, super legal, eu fiquei assim Nossa! fiquei boba. Foi a primeira
vez que mostrou, nossa os africanos todos coitadinhos, aquelas caras de(...) Não, mostrou um povo alegre, brincalhão, rindo, conversando. Claro que não entrou em detalhes, mas foi assim primeira vez passam um repórter da África, só mostra as girafas caminhando [risos], as pessoas, aquele povo mais primitivo, todo não sei como se chamam aquelas roupas, aqueles africanos magrinhos, né, as crianças tudo descalços, só mostrou isso, não mostra outro tipo de imagem. Mas, mostrou tudo isso que daria pra usar, pra mostrar para os alunos(...)”.
Também foi identificado o uso de informações “científicas” em reportagens e programas de televisão, no contexto da veiculação de estereótipos relativos às relações de gênero, reforçando o machismo e a homofobia. Por exemplo, analisando uma reportagem que tratava da violência na “natureza” humana, Isolda questionava a linguagem utilizada, sentindo-se incomodada com a visão da revista de que “às vezes a violência é o melhor jeito para resolver as coisas”. A reportagem tinha um “discurso científico” e utilizava como exemplo de violência necessária o rapto de mulheres nas sociedades ocidentais antigas, como a Grécia e Roma. A participante sentia que tal exemplo pode reforçar a violência que se pratica hoje contra mulheres.
Também sobre esse tipo de estereótipo, a mesma professora identificou outra reportagem, que, também pautada em um discurso repleto de citações de pesquisas científicas, relacionava orientação sexual e características físicas. Nas palavras de Isolda:
“Então eu até (risos) trouxe um negócio absurdo que saiu no jornal para mostrar para vocês e que tem a ver olha ‘redemoinho do cabelo pode indicar opção sexual’. Risos. Quer dizer, é mais ou menos isso que eu estou falando. Aí fala, pesquisador tal (...) Aqui fala do tamanho dos dedos: ‘estudos concluíram que a maioria dos homens heterossexuais tem o dedo indicador um pouco menor do que o anular’”.
Na mesma situação mencionada, Samira ressaltou que reportagens como a aquela podem gerar agressividade e discriminação. Cabe destacar, por fim, as participantes também consideram que a mídia pode ter uma função inversa, a de questionar a função social da pesquisa e do conhecimento científico, papel que alguns programas de televisão têm assumido.