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Para Mannheim, são os traços presentes em uma afirmação que permitem caracteriza-la e atribuí-la a uma determinada época ou situação. Para identificar esses traços e possibilitar a caracterização de uma afirmação quanto às suas origens no processo histórico-social, ele sugere: “a análise dos conceitos utilizados; o fenômeno do contraconceito; a ausência de certos conceitos; a estrutura do aparato categórico; os modelos dominantes de pensamento; o nível de abstração; e a ontologia pressuposta” (MANNHEIM, 1968, p. 294).

Num primeiro momento é importante ressaltar que o mesmo conceito tem significados muito diferentes se usado por pessoas situadas em diferentes contextos sociais. Bem como, a ausência de certos conceitos pode indicar não apenas a ausência de certos pontos de vista, mas a falta da própria determinação para alcançar uma compreensão de problemas vitais.

Em resumo: a abordagem de um problema, o nível em que vem a ser formulado, o estágio de abstração e o estágio de concretude que se espera atingir estão todos, e da mesma maneira, ligados a existência social (MANNHEIM, 1968, p. 299).

A Sociologia do Conhecimento procura detalhar, por exemplo, de que forma aquilo que dentro de um determinado grupo é aceito de forma absoluta, aparece para quem está de fora, como sendo condicionado pelo grupo e é reconhecido como parcial.

Mannheim trata aqui das relações que ocorrem dentro de um grupo social fechado e como elas são vistas por alguém que não faz parte do referido grupo social. Ou seja, ao observarmos um determinado grupo social, percebemos que ele apresenta uma cultura específica e determinante para as ações do grupo, no entanto, visto por alguém que não faz parte do grupo e que conhece outras culturas, as soluções apresentadas são parciais, pois é possível encontrar muitas outras formas de agir, para solucionar o problema proposto, de acordo com as demais culturas.

É em função da ação reflexiva gerada pela relação de um determinado contexto com o conhecimento previamente obtido sobre o mesmo, que a Sociologia do Conhecimento é considerada relacional. Podemos entender o sentido de relacional com o exemplo: um menino de origem camponesa, hoje urbanizado, considera “rústicas” muitas das opiniões dadas por seus familiares camponeses e, por este motivo, ele não os questiona mais sem relativizar tais opiniões. De forma mais detalhada e aprofundada é isso que a Sociologia do Conhecimento faz, subordina os fenômenos intelectuais à seguinte questão: “em conexão com que estrutura social surgiram e são válidos?” (MANNHEIM, 1968, 303).

Para Mannheim (1967, p. 78) a tarefa principal de uma Sociologia do Conhecimento:

[...] consiste em especificar, para cada corte transversal do processo histórico, as várias posições intelectuais sistemáticas nas quais o pensamento dos grupos e indivíduos criativos foi baseado. Uma vez feito isso, contudo, essas diferentes tendências do pensamento não deveriam ser confrontadas como posições num debate meramente teórico, mas dever-se-ia explorar suas raízes vitais, não teóricas. Para fazer isto, primeiramente temos que descobrir as premissas metafísicas subjacentes às várias posições sistemáticas; depois devemos perguntar quais dos ‘postulados sobre o mundo’ coexistentes numa dada época são os correlatos de um determinado estilo de pensamento.

Quando estas correspondências ficarem estabelecidas, teremos identificado os estratos intelectuais que se combatem.

Ainda de acordo com Mannheim (1967, p. 78),

A tarefa propriamente sociológica, contudo, começa apenas depois de feita esta análise ‘imanente’ – ela consiste em descobrir os estratos sociais que compõem os estratos intelectuais em questão. É apenas em termos do papel desses últimos estratos dentro do processo global, em termos de suas atitudes em relação à nova realidade emergente, que podemos definir as aspirações fundamentais e os postulados sobre o mundo existentes num determinado momento, que podem absorver idéias e métodos já existentes e os sujeitar a uma mudança de função – para não falar nas formas recém criadas.

Robert K. Merton (1967) num esforço de sistematizar o conhecimento, apresenta os seguintes pontos como paradigmas para a Sociologia do Conhecimento:

ONDE se situam as bases existenciais dos produtos mentais? QUAIS são os produtos mentais submetidos à análise sociológica?

COMO se acham os produtos mentais relacionados às bases existenciais? PORQUE? Funções latentes e manifestas atribuídas a estes produtos mentais existencialmente condicionados.

Quando se evidenciam as relações atribuídas entre a base existencial e o conhecimento? (MERTON, 1967, p. 87-88).

As formas de encarar o mundo são consideradas, pela Sociologia do Conhecimento, como desenvolvimentos orgânicos que vão sendo criados ao longo do tempo e as teorias praticamente não exercem influências na formação dessas maneiras de encarar o mundo (MERTON, 1967). Dessa forma, a Sociologia do Conhecimento aponta que uma teoria dada se deriva de um tipo dado de posição ou grupo. Ou seja, de acordo com a Sociologia do Conhecimento existe uma relação entre as várias formas de pensamento e determinados grupos sociais, demonstrando que os fatores extra-teóricos têm um caráter relevante na produção do conhecimento. Podemos concluir então, que a Sociologia do Conhecimento não está interessada apenas em investigar as bases existenciais da verdade, seu interesse está também em perceber a ‘ilusão social, da superstição e dos erros e formas de impostura socialmente condicionados’ (SCHELER, apud MERTON, 1968, p. 567). Neste sentido, podemos perceber que a Sociologia do Conhecimento tem por objetivo não apenas identificar a origem social do conhecimento, mas diferenciar os

conhecimentos que se constituem em meras ideologias, daqueles que evidenciam uma intenção científica.

Em nosso próximo capítulo abordaremos a globalização. Pretendemos com ele, tratar do contexto histórico-social contemporâneo, no qual, em nosso entender, a globalização cumpre um papel central e relevante e, com isso, propiciar os elementos necessários para estabelecer a relação existente entre realidade social e produção do conhecimento.

Capítulo III

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