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Teknologi for identifisering av sprekker

DEL 5 – DISKUSJON, ANBEFALINGER OG KONKLUSJON

12.2 Teknologi for identifisering av sprekker

Saí de uma conversa com a orientadora, onde falávamos sobre as formas de contato das crianças com a cultura científica, intrigada, pensando nas ideias que as crianças já da educação infantil podiam ter em relação à ciência e ao cientista. Chegando à escola propus uma conversa com elas sobre isso. Para iniciar, lembrei-as da pesquisa que estava realizando e que tinha como objetivo saber o que pensavam sobre várias coisas (já havíamos conversado sobre isso) e disse que eu faria uma atividade referente a esta pesquisa e que participariam se quisessem. As crianças ficaram então quietas esperando para ver o que ocorreria. Na sequência questionei se sabiam o que era Ciência e elas foram falando:

André: É de falar Nelson: Ave Kiko: Caderno Felipe: Laboratório

Ao pararem de falar perguntei por que achavam que eram estas coisas. Felipe respondeu que não sabia e outros foram completando as ideias apontadas anteriormente:

Floribela: Trabalhar de ler, para aprender a ler todas as coisas. André: Polvo gigante

Justin Bieber: os polvo; eles é muito legal. Eles fica no ninho fazendo filhote.

As falas das crianças explicitam que embora ainda não tenham uma visão formada sobre o venha a ser a ciência, já possuem algumas ideias sobre ela, possivelmente em decorrência de suas experiências anteriores. Sabem, por exemplo, que aves e polvos são objetos da ciência, que laboratório também faz parte deste contexto, assim como o caderno e a leitura. Tirando a fala de André, que lembra os contextos de ficção científica, as demais demonstram ideias relacionadas ao contexto escolar: estudo, disciplinas e até mesmo o caderno de ciências do irmão mais velho, por exemplo.

Dando continuidade questionei se sabiam o que era cientista. Apenas André e Nelson responderam:

André: Um cara maluco que faz experiência, robô. Nelson: eles constroem um robô e controlam ele.

Fui para uma das mesinhas com papel, lápis de cor e canetinha e convidei as crianças para participarem da pesquisa desenhando um cientista trabalhando. Aos que foram até a mesinha expliquei novamente a tarefa.

De início, interessaram-se Zavitali, Letícia, Justin Bieber, André, Gabriel, Kaique e Nelson. Pouco tempo depois Justin Bieber saiu. Um pouco mais tarde Polegarzinha e Maitê pediram para participar também. As crianças que não se interessaram em participar ficaram brincando nos cantinhos livremente.

A Letícia e a Zavitali disseram não saber o que eles fazem, então foi sugerido que desenhassem o que fazem na escola, ou algum trabalho que fazem. A Zavitali disse que faria o que ela faz em casa. A Letícia disse que desenharia a escola e o Gabriel que faria ele trabalhando no forno de carvão. Ao final desta etapa de trabalho, das nove crianças que participaram, apenas André, Polegarzinha e Nelson, disseram ter desenhado um cientista, no entanto, Polegarzinha havia confundido a palavra cientista com frentista, que é a profissão do pai.

A seguir serão relatados apenas aspectos referentes à produção dos desenhos que retratam o cientista e que se referem a duas das crianças.

Em alguns momentos conversamos enquanto desenhavam:

Nelson fala para a professora: eu tô fazendo Prof: o cientista?

Nelson: é (...)

Nelson: Tia, tia, olha só o que eu to fazendo as coisas que ele vai usar pra montar o robô Prof: oi?

Nelson: olha só o que ele vai usar para montar, pra montar o robô Prof: as coisas que ele vai?

Nelson: usar. Essa coisa aqui (mostrando no desenho) é, é, o controle que controla o robô. E essa coisa aqui, é o coiso daqui dele. Esse xizinho é daqui; esse daqui é daqui; e esse risquinho aqui ele controla aqui é, é daqui do pes... é daqui (mostrando a cabeça).

E assim ele foi mostrando no controle desenhado, cada parte referente a um membro do robô.

Depois de desenharem, cada criança se dirigiu comigo ao cantinho da leitura - um pouco mais sossegado que o restante da sala - para contar o que havia feito (inclusive aquelas que desenharam outras coisas que não o cientista).

O primeiro a terminar foi o Nelson (figura 66). A Floribela e a Bruna foram juntas e ficam lá até terminar a conversa:

Prof: Então vamo lá, conta pra mim o que que você fez aí.

Nelson: Aqui o, é o home construindo um Robô e aqui é as coisas que ele vai precisar. Sabe, aí, aqui é a espada e aqui é o controle que tem o x e a bolinha com um (mostra com a mão o movimento para se fazer um traço) dentro.

Nelson descreve o funcionamento do controle do robô, semelhante ao controle do videogame: o “X” e a “Bolinha”, objeto bastante presente em sua vida. O cientista é, neste caso, um inventor e o objeto de criação é um robô controlado por ele. O robô tem a mesma estatura do cientista, o que nos dá a ideia de um robô de tamanho do ser humano.

Prof: e esse home quem que é ele mesmo? Nelson: é tá controlando o robô.

Prof: e ele é um cientista? Nelson: é

Prof: e onde que ele trabalha?

Nelson fica pensando, dá uma piscada forte e responde: num salão. Prof: num salão? Como que é, você imagina como que é esse salão?

Ele levanta a cabeça e os olhos e fica pensando. Depois abaixa a cabeça e diz: ah eu imagino que ele é grande assim cheio de coisas (fala em voz bem baixa).

Prof: Cheio do que? Nelson: de coisas bonitas.

Figura 66. Desenho sobre o cientista feito por Nelson. A parte superior onde havia pássaros e um sol foi

Prof: de coisas bonitas? Que coisas você acha que tem nesse salão?

Nelson: ah assim - vira a cabeça pro lado- hunnn coisas pra construir os robôs. Prof: as coisas que precisa?

Nelson: é

Prof: essas coisas que você falou ai, né? (mostrando no desenho dele) Nelson: é

Prof: que mais que você acha que deve ter lá?

Nelson: hunnn uma garrafa de coca pra quando ele quiser beber, bebe, e um bebedouro pra quando ele quiser beber água.

Prof: garrafa de coca e bebedouro? Nelson: é

Prof: verdade, senão dá sede, né? E de comer, tem alguma coisa lá? Nelson: ele faz uns quatro lanches e leva pra lá

Prof: uns quatro lanches? E ele sai de lá ou só fica lá dentro?

Nelson: Ele fica lá dentro e, e quando ele vai embora ai ele tem que sair. Prof: E ele tem uma casa?

Nelson: tem

Prof: e como que é a casa dele, será? Nelson: a casa dele, ahnn (pisca forte). Prof: nunca pensou nisso, né?

Nelson balança a cabeça negativamente.

Embora o cientista de Nelson trabalhe sozinho, ele trás a ideia de um ser humano comum com as necessidades de todo ser humano como comer e beber. Ele usa o espaço do salão apenas para trabalhar, e quando termina vai para sua casa.

Para concluir Nelson explica o restante de seus desenhos: a família de pássaros marcada por fortes diferenças físicas e de gênero: o pai é grande, os filhotes pequenos; e a mãe está no ninho fazendo comida. É interessante que no início da conversa sobre ciência Nelson fala que ciência é Ave e no desenho ele retoma esta ideia ainda que sem fazer conexão alguma com o cientista e seu robô, nem mesmo conseguir explicar esta relação.

Quando André termina é chamado para mostrar seu desenho (figura 67); ele se senta e diz que não quer contar. Pergunto se posso ir dizendo o que entendi e ele respondendo se está certo. Ele concorda balançando a cabeça afirmativamente:

Prof: Você fez um robô... Isso aqui é uma escada? E esse é o cientista? André: o polvo. (fala apontando para o polvo que desenhou)

Prof: e aquele é o polvo gigante. E esse cientista tem o cabelo arrepiado? Balança a cabeça afirmativamente.

André: porque ele é um cientista. Cientista tem o cabelo arrepiado. (Ele fala balançando a cabeça demonstrando obviedade naquilo que diz).

Prof: ahhh. Ele passa gel? André ri e responde que sim. Prof: igual moicano?

Floribela interrompe dizendo que o Nelson passa gel.

Em outro dia, é retomado o desenhos de André; pergunto onde é que o cientista trabalha:

André: Uma casa velha, ele transformou no laboratório. Ele pensou assim... achou: vou fazer dois negócios: um polvo gigante e um robô.

Prof: Pra que ele usa a escada? André: pra alcançar o robô.

A ideia de um laboratório como o local de trabalho do cientista, comumente encontrada em outros estudos (KOSMINSKY; GIORDAN, 2002; REIS; GALVÃO, 2006; REIS; RODRIGUES; SANTOS, 2006; ZOMPERO; ARRUDA; GARCIA, 2005), aqui recebe uma conotação mais ficcional: uma casa velha (abandonada talvez) é transformada em laboratório onde o cientista trabalha em suas duas invenções. No caso de Nelson, é denominado de salão.

No relato a seguir, André expõe sua opinião sobre a existência de mulheres cientistas34

Prof: E existe mulher cientista?

:

André: não!!!! Prof: Por quê?

André: Porque se não o cabelo dela vai ficar pra cima. Prof: Só por isso?

André: Só!

Prof: e se eu quiser ser cientista eu posso? André: Pode

Prof: E sua mãe? André: Não

Prof: Por que eu posso e ela não?

André: porque ela tirou os pontos e tá vermelho! (ela havia feito uma cesariana recentemente)

Prof: e quando sua mãe sarar ela pode? André: Pode

Prof: e o cabelo dela vai ficar pra cima? André: se amarrar tudo não vai.

É interessante observar na conversar com André sobre a existência de mulher cientista. Ele responde negativamente com muita certeza e um ar de obviedade na resposta, mas quando é solicitado que justifique, explica ser pelo cabelo arrepiado, o que depois ele mesmo resolve sugerindo amarrá-lo. Podemos com isso, dizer que ele já tem uma ideia formada sobre quem é o cientista, mas nada inflexível; apesar de não existirem mulheres cientistas, esta é uma possibilidade para ele.

Algumas considerações

Por meio deste relato percebemos como desde muito cedo as crianças vão construindo suas ideias sobre a ciência e o cientista; ideias estas que muito se assemelham àquelas que Cachapuz et al. (2005) chamam de visões deformadas, que acabam sendo convertidas em visões aceitas socialmente: vemos a ideia do cientista como um homem, maluco, cabeludo e inventivo, também encontradas em trabalhos com outros níveis de ensino,

34 Nelson não quis conversar novamente sobre seu desenho, não sabemos quais são suas ideias sobre mulheres

ideias estas construídas de forma geral graças aos estereótipos veiculados pela televisão, em especial os desenhos animados e ficção científica.

As crianças estabelecem relações entre aspectos da tecnologia e esta visão inventiva do cientista como podemos perceber quando incorporam o controle do videogame em seus desenhos. Também vemos já algumas ideias aqui a cerca do caráter escolar da ciência ainda que não tenham muita clareza sobre isso.