Imatge de contorns
5.4 Versió final
5.4.5 Tecnologies utilitzades
Talvez seja interessante citar aqui uma frase escrita por Heródoto (II, 35) no final de sua descrição do Egito: “Não só o clima do Egito é peculiar a esse país, e o comportamento do Nilo diferente daquele de outros rios em qualquer outro lugar, mas também os próprios egípcios em seus usos e costumes parecem ter invertido as práticas comuns da humanidade” (a partir da tradução de A. de Sélincourt). Ao escrever essa frase, Heródoto naturalmente se referia apenas aos países que margeiam o Mediterrâneo. No entanto é verdade que, de todos os países da África, o Egito é o que possui o meio ambiente mais característico, devido ao regime do Nilo. Sem o rio, o Egito não existiria. Isso foi dito e redito mil vezes desde Heródoto: trata-se de uma verdade básica.
De fato, as condições rigorosas que o rio impunha às sociedades humanas que viviam às suas margens, e que a ele deviam sua subsistência, só foram reconhecidas
XLV
Introdução Geral
pouco a pouco. Tornaram-se inelutáveis apenas quando a civilização egípcia tinha mais de 700 anos. Os grupos humanos que constituíram essa civilização tiveram tempo, portanto, para se acostumar gradualmente às exigências impostas pela ecologia do Nilo.
A partir do final do Neolítico, entre -3300 e -2400 aproximadamente, o nordeste da África, incluindo o Saara, desfrutou de um sistema climático relativamente úmido. Nesse período, o Egito não dependia exclusivamente do Nilo para sobreviver. A estepe ainda se estendia a leste e a oeste do vale, abrigando caça abundante e favorecendo uma criação de gado considerável. A agricultura era, então, apenas um dos componentes da vida cotidiana, competindo em importância com a criação de gado e mesmo com a caça, conforme se atesta pela Pedra de Palermo. Esta nos leva a inferir que o cálculo dos impostos devidos à autoridade central pelos notáveis do regime baseava-se não no rendimento das terras que possuíam, mas no número de cabeças de gado a cargo de seus pastores. A cada dois anos, fazia-se um censo dessa riqueza básica. As cenas que decoram as mastabas do Antigo Império, do final da IV até a VI dinastia (-2500 a -2200), mostram claramente que a criação de gado ocupava um lugar essencial na vida dos egípcios daquele tempo.
Assim, podemos supor que a busca do controle do rio pelo homem a realização fundamental da civilização egípcia, pois que possibilitou seu florescimento – foi provavelmente estimulada, no princípio, não pelo desejo de fazer melhor uso das cheias para a agricultura, mas, especialmente, pela necessidade de evitar os danos provocados pelas inundações. Muitas vezes se esquece de que o transbordamento do Nilo não é apenas benéfico; pode acarretar calamidades. Foi sem dúvida em função dessa ameaça que os habitantes do vale aprenderam a construir diques e barragens para proteger suas povoações, e a cavar canais para drenar seus campos. Dessa maneira, foram lentamente adquirindo uma experiência que passou a ser vital, na medida em que o clima da África, entre os paralelos 13 e 15, ao norte, acabou por tornar-se tão seco quanto é hoje, transformando em deserto absoluto as vizinhanças do vale do Nilo, tanto no Egito como na Núbia. A partir de então, toda a vida do vale passou a ser estritamente condicionada pelas cheias do rio.
Pelo emprego das técnicas de construção de diques e escavação de canais, aperfeiçoadas ao longo dos séculos, os egípcios pouco a pouco desenvolveram o sistema de irrigação por bacias (hods), garantindo, assim, não apenas sua sobrevivência em um clima cada vez mais desértico, mas ainda a possibilidade de expansão (cf. capítulos 4 e 8). O princípio desse sistema era simples, mas sua operação era complexa e exigia sincronização. Utilizava duas elevações naturais
XLVI África antiga
formadas pelo Nilo ao longo de suas margens, no decorrer de milhares de cheias, ano após ano. Essas defesas naturais, gradualmente reforçadas pelos habitantes das margens para se defender das cheias repentinas, eram suplementadas por aterros de retenção, verdadeiras barragens artificiais que, sem dúvida, tiveram origem naquelas construídas pelos antigos habitantes para proteger suas moradias quando as águas do rio subiam.
Ao mesmo tempo, foram construídos diques paralelos ao Nilo, que acabaram por dividir o Egito em uma série de bacias (daí o nome do sistema). O solo dessas bacias era nivelado, de maneira que, quando o rio subisse, a bacia ficasse inteiramente submersa. Canais de drenagem eram abertos nos aterros paralelos ao rio para permitir que as bacias se enchessem. Depois de permanecer por algum tempo, para impregnar os campos, a água era devolvida ao rio. Além disso, um sistema de canais utilizando o declive natural do vale levava água da montante para as áreas mais baixas localizadas na jusante do rio, de maneira a irrigar terras que mesmo uma enchente muito grande não alcançaria.
Esse sistema, que os egípcios gradualmente aprenderam por experiência própria, apresentava as vantagens de assegurar uma distribuição equitativa de água e matéria orgânica por toda a terra cultivável, irrigar aquelas partes do vale que, de outra maneira, teriam permanecido estéreis e, finalmente, e acima de tudo, controlar o Nilo e suas enchentes. O preenchimento das bacias e o desvio da água de montante para jusante através de canais, tinham por efeito moderar a correnteza do rio, evitando as consequências desastrosas de uma repentina liberação de milhões de metros cúbicos de água, que destruíam tudo à sua passagem. A diminuição da correnteza, por sua vez, facilitava a deposição do limo, do qual a água se encontrava carregada.
Não é exagero dizer que esse sistema único de irrigação estava na própria raiz do desenvolvimento da civilização egípcia. Ele explica como a engenhosidade humana conseguiu progressivamente superar grandes dificuldades e modificar a ecologia natural do vale.
A nova ecologia, resultante da intervenção humana, envolvia um trabalho considerável. Depois de cada enchente, era necessário reparar os aterros, reforçar os diques e limpar os canais. Era uma tarefa coletiva contínua que, de início, provavelmente se realizava ao nível de cada povoação. No período histórico, esse trabalho era administrado e supervisionado pelo governo central. Se este último deixasse de garantir, no devido tempo, a manutenção de todo o sistema, a enchente seguinte poderia destruí-lo, e o vale retomaria ao seu estado original. No Egito, a ordem política condicionou amplamente a ordem natural. Para assegurar a subsistência de todos não era suficiente que o sistema de bacias funcionasse
XL VI I Intr oduç ão Ger al
XLVIII África antiga
regularmente. Uma das características das cheias do Nilo é o fato de que seu volume varia enormemente de um ano para o outro. As cheias podem ser fortes demais, destruindo tudo à sua passagem, ou fracas demais, impossibilitando uma irrigação satisfatória. Por exemplo, no período compreendido entre 1871 e 1900, apenas a metade das enchentes ocorridas já teria sido suficiente para suprir as necessidades do Egito.
A experiência logo ensinou os egípcios a desconfiar da inconstância do rio. Para compensar a escassez periódica, era necessário estocar cereais para alimentar a população e – mais importante ainda com vistas ao futuro garantir quantidade suficiente de sementes para a semeadura seguinte, quaisquer que fossem as circunstâncias. Esses estoques de reserva eram fornecidos pelo governo central, graças ao duplo celeiro real, que estocava cereais em armazéns distribuídos por todo o país. Limitando o consumo em períodos de abundância e estocando o máximo possível para se precaver contra cheias insuficientes ou excessivas, o governo central passou a controlar, por assim dizer, a ordem natural e veio a desempenhar um papel muito importante.
Mudando profundamente as condições impostas pela natureza, o homem desempenhou um papel essencial na emergência e expansão da civilização no vale do Nilo. O Egito não é apenas uma dádiva do Nilo: é, acima de tudo, uma criação do homem. Daí a importância dos problemas antropológicos do vale.