A metodologia da pesquisa, em nosso estudo, encontra seus fundamentos filosóficos na pesquisa de abordagem qualitativa e de base interpretativista. Entretanto, tivemos que conjugar a pesquisa quantitativa30 à pesquisa qualitativa, na primeira parte da análise, para
melhor explicar os seguintes excertos: “(?) deixe eu falar, deixe eu falar eu entendi!” (fala de
uma aluna) e “eu já falei DEMAIS! (.) Uff (.) ((suspiro)) eu tô CANSADO! ((suspiro)) agora
é a vez de vocês”(fala do professor).
Buscamos, para tanto, quantificar os turnos de fala do professor e seus alunos das cinco aulas observadas. Resultado: de toda fala produzida, durante as aulas, o professor utilizou 1101 turnos de fala, enquanto, em média, 21 alunos utilizaram 2664 turnos de fala. Isso significa dizer que o docente utilizou muito mais turnos de fala do que os alunos e, portanto,
falou mais do que os discentes do ensino fundamental II. Destarte, como forma de ilustrar os
dados, concluímos que o quantitativo, em nossa pesquisa, vem esclarecer o qualitativo. De acordo com Santos Filho e Gamboa (2007: 39-43), a investigação qualitativa se preocupa com a compreensão ou interpretação do fenômeno social, com base nas perspectivas dos atores sociais por meio da participação em suas vidas. Seu propósito fundamental é a compreensão, a explanação e a especificação do fenômeno.
Para os autores, o pesquisador precisa tentar compreender o significado que os outros dão as suas próprias situações e também compreender diretamente ou apreender imediatamente a ação humana sem qualquer inferência consciente sobre a atividade. Além disso, procura entender, em nível mais profundo, a natureza da atividade em termos do significado que o indivíduo dá a sua ação.
Para Santos Filho e Gamboa (2007), a pesquisa interpretativa está enraizada no paradigma fenomenológico que sustenta que a realidade é socialmente construída por meio de definições individuais ou coletivas da situação.
Nessa perspectiva, o homem é sujeito e ator, o significado é considerado como produto da interação social, a verdade como relativa e subjetiva. Além do mais, para os autores, essa visão reconhece a mudança e aceita a teoria do conflito.
Segundo Bortoni-Ricardo (2008), no paradigma interpretativista, surgido como uma alternativa ao positivismo, não há como observar o mundo independentemente das práticas sociais e significados vigentes. A autora afirma, assim, que a capacidade de compreensão do observador está enraizada em seus próprios significados, pois ele/ela não é um relatorpassivo, mas um agente ativo.
Ainda de acordo com Bortoni-Ricardo (Op. cit.), na área da pesquisa educacional, o paradigma positivista sempre teve maior prestígio, acompanhando o que ocorria nas ciências sociais em geral. No entanto, a autora ressalta que as escolas e, especialmente, as salas de aula, provaram ser espaços privilegiados para a condução de pesquisa qualitativa, que se constrói com base no interpretativismo.
Em face do exposto, nosso estudo justifica-se como de natureza qualitativa por se tratar de uma escola – sala de aula – ambiente natural e/ou fonte direta dos dados, em nossa pesquisa, e de um professor com seus alunos em processo de ensino-aprendizagem de LI (envolvidos em práticas discursivas). Ademais, nossa pesquisa justifica-se também pelo fato dos dados serem gerados a partir de processos interativos (entre esses participantes) por meio do uso da linguagem, nosso principal objeto de estudo, em contexto situado e marcado por práticas escolares e/ou sociais.
Ainda, classificamos nossa pesquisa como de natureza qualitativa e de base interpretativista, segundo afirma Bortoni-Ricardo (2008: 49):
O objetivo da pesquisa qualitativa em sala de aula, em especial a etnografia, é o
desvelamento do que está dentro da “caixa preta” no dia-a-dia dos ambientes
escolares, identificando processos que, por serem rotineiros, tornam-se “invisíveis”
para os atores que deles participam. [...] os atores acostumam-se tanto às suas rotinas que tem dificuldade de perceber os padrões estruturais sobre os quais essas rotinas e práticas se assentam [...] tem dificuldade em identificar os significados dessas rotinas e a forma como se encaixam em uma matriz social mais ampla [...]
O feedback, por ser de efeito rotineiro, torna-se quase invisível na tríade discursiva IRA, pois, segundo Tsui (1995), é parte constitutiva das rotinas de interação em sala de aula,
uma vez que, quando esse elemento avaliativo não aparece após respostas de alunos, parece que algo de errado e/ou insatisfatório existe nas respostas dos discentes.
Hewings (1985) afirma que trabalhos significantes têm sido desenvolvidos acerca da Pergunta e da Resposta. No entanto, para o autor pouquíssima atenção tem sido dada à forma de feedback do professor e muito pouco tem-se investigado a respeito das influências possíveis que o feedback pode trazer para o ensino de línguas. Isso, apesar do crescente número de trabalhos de pós-graduação com foco no feedback que vem sendo desenvolvidos da década de 90 aos dias atuais.
Mediante tais “invisibilidades”, seja do ponto de vista de parcos estudos com foco no
feedback, seja pelas práticas rotineiras de organização discursiva que “escondem” um dado
fenômeno, em nosso caso de pesquisa, a retroalimentação, propomos utilizar metodologia de pesquisa que contemple, sobretudo, as principais características da abordagem qualitativa de pesquisa, cuja função é tornar visível a natureza subjetiva da linguagem. Bogdan e Biklen, (1994: 47-48), apresentam 05 (cinco) características do método:
(1) A fonte direta de dados é o ambiente natural e o investigador constitui o instrumento principal.
(2) A investigação qualitativa é de natureza descritiva.
(3) Os pesquisadores qualitativos interessam-se mais pelo processo de que simplesmente pelos resultados ou produtos.
(4) O método de análise dos dados privilegiado é o indutivo. (5) O sentido é de vital importância na abordagem qualitativa.
Em face de tais características, na seção seguinte, trataremos do ambiente da investigação (cenário e atores), bem como dos instrumentos/procedimentos para a geração de dados.