Retomando as atividades propostas pela AFOR/Varginha, para que os tutores em serviço e em formação vivenciassem o mesmo processo dos professores
45 Tutora Heleni, 2005Informação obtida de documento interno para uso da AFOR-Varginha. 46 Tutora Glauce, 2003Informação obtida de documento interno para uso da AFOR-Varginha.
cursistas pelos quais se responsabilizariam e com o objetivo de criar condições reflexivas, para os próprios tutores ressignificarem os seus processos, foi importante:
a observação e orientação da prática pedagógica considerando que nem todos os docentes selecionados tinham experiência de trabalho, com as séries iniciais do ensino fundamental, embora fosse exigência da equipe da SEE/MG, tudo que tangia a essa prática, devia ser registrado por escrito para facilitar não só a troca de experiências dos cursistas de cada tutor, mas para ser partilhado com todo o grupo de tutores em reuniões semanais, à guisa de enriquecê-los e divulgar as transformações que estavam ocorrendo na prática pedagógica dos cursistas do Veredas. A experiência que cada tutor trazia era importante para valorizar e entender a abrangência das mudanças que estavam ocorrendo, bem como para buscar meios de fazer com que a prática pedagógica transcendesse a sala de aula, envolvendo a comunidade escolar e a comunidade onde a escola estava inserida.
Tal riqueza pode ser constatada através pelo testemunho da tutora Meive (2003), quando narra para os colegas que
fiquei emocionada ao visitar, de surpresa, a Escola Estadual Pássaro Branco e ver duas das cursistas do VEREDAS desenvolvendo atividades no computador da secretaria da escola. As cursistas prepararam uma atividade, em que, enquanto uma ficava com as crianças na sala de aula, orientando a realização da atividade complementar ao exercício no computador, a outra ficava na secretaria orientando a utilização do mesmo pelas crianças, que se revezavam para “aprender no computador” - como me disse uma aluna de 8 anos. (informação verbal, grifo da autora)47
o trabalho com vídeos foi necessário desenvolver esse trabalho porque a premissa da coordenação geral da SEE/MG era a articulação prática⇔teoria que culminaria na desejada ação reflexão ação ressignificada e aperfeiçoada. O trabalho de re-ligação tinha início nos preparativos para os encontros coletivos mensais - os tutores assistiam ao vídeo e discutiam-no - a culminância era a discussão participativa dos cursista no dia do encontro
coletivo. Ao final de cada sábado presencial ou encontro coletivo mensal, os tutores deveriam elaborar um relatório minucioso sobre o andamento do dia, as dificuldades emergentes e, principalmente, as decisões tomadas em busca de mudanças na práxis pedagógica, que, geralmente surgiam das discussões sobre os temas apresentados no vídeo. É preciso notar que os insights de aplicação da teoria, ocorriam não só com os cursistas, mas também com os tutores, criando uma espiral geradora de novos fazeres que movia a espiral de geração e circulação de saberes.
várias formas de avaliação do Veredas a revisão e reorganização da prática avaliativa foi um ponto forte durante a formação em serviço dos tutores de EaD porque exigiu bastante flexibilidade sem, contudo, perder o foco na qualidade da avaliação. A fim de favorecer a ampliação do olhar sobre o processo avaliativo, foram preparados, pela AFOR/Varginha, seminários abordando o tema. Também foi solicitado aos tutores que redigissem artigos para serem divulgados no jornal da instituição, no jornal do Projeto Veredas (de circulação estadual) e no Portal VEREDAS. O processo mobilizou sentimentos, emoções e também novas aprendizagens que reforçaram a atitude de que a avaliação deve servir para reorganizar o processo de ensino com vistas a promoção da aprendizagem. O trabalho de renovação do processo avaliativo ocorreu ao longo de todo o curso.
os aspectos: organização de processos de trabalho coletivo; gestão democrática de grupos; ética das relações interpessoais, liderança e clima de grupo eram sempre trabalhados nas reuniões semanais, quando todos os tutores estavam presentes. É válido ressaltar que esses aspectos suscitavam discussões calorosas e exigiam de todo o grupo e da coordenação da AFOR/Varginha o exercício desses mesmos aspectos.
A tutora Marilene (2008) deixa transparecer, claramente, a realidade sobre os serviços implementados na AFOR/Varginha:
ao me deparar com uma equipe de trabalho multidisciplinar, percebi que o desafio era realmente imensurável. Horas e horas de debates, discussões. Às vezes me sentia perdida diante de tanto conhecimento. Que delícia foi fazer parte desses momentos (dos quais mais sinto saudades). Eles foram
responsáveis pelo exercício de reflexão constante que ainda faço quando me deparo com algo que me desafia. Foram responsáveis pela minha melhoria intelectual. (informação verbal)48.
A vivência desses momentos propiciou a aprendizagem do verdadeiro espírito de equipe e promoveu a união do grupo, contribuindo para o fortalecimento do perfil do tutor, para conseguir exercer a contento as funções que deveriam ser desempenhadas por cada tutor, conforme elencadas no Manual do Tutor:
1 ajudar os Professores Cursistas a dominarem os conteúdos das unidades: -no caso de apresentação de unidade, explicando, com a ajuda das equipes de apoio da AFOR, conceitos difíceis nelas contidos;
-na discussão de unidade já trabalhada, procurando localizar os problemas de leitura ou de realização de atividades;
-desfazendo enganos de conceitos e preconceitos;
-procurando soluções das questões com a equipe de apoio da AFOR; -indicando recursos e materiais adicionais para estudo;
-corrigindo pontualmente os Cadernos de Avaliação de Unidade e planejando, em conjunto com a AFOR, atividades de recuperação;
2 ajudar os Professores Cursistas a desenvolverem habilidades de estudo:
-auxiliando-os a planejar suas horas de estudo;
-procurando descobrir seus problemas específicos de leitura ou de realização de atividades;
-propondo formas auxiliares de estudo;
-facilitando novos exercícios e práticas, individuais ou em grupo;
-comentando pontualmente acertos e falhas de cada trabalho realizado, ultrapassando observações vagas, como : “Muito bom!”, “Fraco”, “Precisa melhorar”;
-alimentando um esforço positivo, na superação de dificuldades, com entusiasmo, mesmo na busca de objetivos mais longínquos.
3 favorecer a troca de experiências e conhecimentos em atividades -possibilitando com frequência o trabalho com outro (s);
-incentivando discussões, debates, criações coletivas;
-criando um ambiente descontraído, de confiança e solidariedade;
-sugerindo a utilização do Site do VEREDAS para intercâmbio com outros professores cursistas.
4 encorajar o processo de aprendizagem dos Professores Cursistas:
-valorizando a estudo e a experiência de cada um, procurando pontos positivos mesmo nos trabalhos insatisfatórios;
-descobrindo o tom adequado para as observações feitas a cada um; -relembrando sempre os objetivos a serem perseguidos e as etapas e o calendário a serem cumpridos;
-cumprindo você mesmo os prazos e nunca deixando sem comentário ou resposta trabalhos e perguntas de cada um deles;
-apresentando-lhes com antecedência e discutindo com eles seu planejamento dos encontros coletivos;
-levando em consideração e comentando observações, sugestões e críticas, acatando-as ou não;
-enfatizando aspectos positivos do curso;
-tomando sua presença um ponto de apoio e segurança para todos.
5 ajudar os Professores Cursistas a alcançarem autonomia e o estudo independente:
-procurando desenvolver sua auto-estima e motivação; -dedicando atenção a todos igualmente;
-encorajando as iniciativas pessoais;
-incentivando-os na busca de informação e de investigação, como o uso da biblioteca e de outros espaços e meios de informação e pesquisa, como o Portal do VEREDAS;
-promovendo a confiança no material e nas experiências do curso. (MINAS GERAIS, 2002c, p. 14-16).
Percebe-se que o que era esperado do tutor no Projeto Veredas trazia em seu âmago a complexidade de avaliar-se para bem avaliar, bem como a prática reflexiva capaz de promover o aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a ser e aprender a compreender.
Vale ressaltar que o processo avaliativo proposto pelo Projeto Veredas incomodou e desinstalou os docentes avaliadores de sua zona de conforto, porque trazia uma proposta diferenciada, mais valorizadora do erro como aspecto fundamental para a construção de novas aprendizagens, trazia a clareza de que o ato de avaliar é necessário para reorganizar o processo do aprendiz com o objetivo de promover a aprendizagem permanente e continuada em todos os momentos de vida. Esses novos aspectos do processo avaliativo precisavam ser internalizados e, para que isso acontecesse, todos os tutoreseducadores em formação e em serviço viram brotar em seu íntimo a necessidade de rever seu próprio processo avaliativo
que foi estruturadando-se enquanto era aluno, mas que foi consolidando-se na prática avaliativa. Junta-se a esses aspectos, a dinâmica impressa na AFOR/Varginha que exigiu que tudo fosse registrado através da escrita. Inicialmente essa exigência era atendida como um relatório de prestação de contas mas lentamente todos perceberam e sentiram que escrever era fundamental na construção da identidade do tutoreducador. Frente ao hercúleo trabalho e às demandas inúmeras e desconhecidas, desestruturavam-se na busca de novos meios para promover a aprendizagem. O registro por escrito dos fatos promoveu nos tutoreseducadores auto e heteroavaliações preciosas para a sintonia da equipe de tutoreseducadores da AFOR/Varginha.
Enfim, na AFOR/Varginha, o tipo de gestão impresso pela coordenação, possibilitou a formação em serviço do tutor de EaD dinâmico, autônomo, especialmente ousado e corajoso no sentido de ter aprendido a praticar a auto- heteroavaliação, sem medo de dar asas à imaginação para criar novas maneiras de mediar o processo ensino-aprendizagem.
O próximo capítulo apresentará os pressupostos do Pensamento Complexo, desenvolvidos por Edgar Morin. Ele é contundente ao defender a necessidade urgente de uma reforma de pensamento que poderá ser alcançada através da prática dos princípios-guias propostos.
A articulação promovida dos processos de aprendizagem e da prática reflexiva na formação do tutoreducador durante o desenvolvimento do Projeto Veredas da AFOR/Varginha, com os princípios-guias propostos pelo Pensamento Complexo também será abordado no capítulo seguinte.
3 O PENSAMENTO COMPLEXO E SUA IMPORTÂNCIA NA FORMAÇÃO EM