O primeiro ofício protestante realizado na América do Norte foi em 1579, na costa oeste da Califórnia, pelo capelão Francis Fletcher, que se utilizou do Livro de Oração
Comum. Segundo Hahn, (1989, p. 113), o livro inglês sempre esteve por detrás do culto
nos EUA, não pelo uso, mas porque os não-conformistas que foram para o novo país traziam sempre à mente a sua relação, nada favorável, a esse livro. Porém, o novo território modificou consideravelmente as estruturas tradicionais do culto protestante. As condições de fronteira legitimavam a flexibilidade dos modelos cúlticos, e as discussões, que não eram poucas, chega vam a conclusões abertas, recomendando a observação das circunstâncias. Não há dúvidas de que o diálogo com o ambiente abalou profundamente os modelos litúrgicos europeus.
Além das condições especiais encontradas nos Estados Unidos, muitos imigrantes que lá chegaram levaram consigo as influências do movimento puritano. Hahn (1989, pp. 114, 115) observou que muitos destes puritanos ingleses entraram na América entre 1628 a 1640 e tornaram-se congregacionalistas na forma de governo embora calvinistas na doutrina.
Os puritanos dos EUA, no entanto, distinguiam-se por um espírito missionário, uma noção de que eram imbuídos da tarefa de estabelecer um modelo puritano onde existisse possibilidade. Tal concepção ficou conhecida como “Destino Manifesto”. Assim, eles se tornaram o núcleo do american way of life. Estes puritanos adotavam um estilo de culto influenciado pelo Diretório de Westminster e pela Liturgia Calvinista de Genebra. Durante um bom tempo o Livro de Oração Comum exerceu influência junto a outros modelos. Contudo, seu uso foi abandonado com o tempo, ficando praticamente um estilo puritano de liturgia imperando sobre o culto norte-americano.
Se na Inglaterra e Escócia, os puritanos já tinham conseguido uma reação desfavorável aos modelos litúrgicos mais elaborados, nos EUA essa situação agravou-se por motivos circunstanciais como as condições sociais da fronteira, as condições políticas da Europa, que provocaram um êxodo para o novo território, os movimentos teológicos e a falta de ministros para o ofício cúltico. As reuniões que discutiam os aspectos do culto protestante determinavam que os modelos cúlticos fossem observados, mas com muita cautela em relação ao ambiente. O culto presbiteriano sofreu grande influência dessa flexibilidade americana, e Hahn (1989, p. 117) declarou que o Diretório de
Westminster, informalmente adotado, tinha a ressalva de ser observado “onde as
circunstâncias permitissem e a prudência cristã recomendasse”.
Talvez, os EUA pudessem ter seguido os acontecimentos europeus posteriores e assimilado os modelos tradicionais das liturgias protestantes. Entretanto, a América, nessa situação de adaptabilidade litúrgica, presenciou outro embate sobre o culto. Caminhando na sua marcha para o oeste nas colônias inglesas, o culto, já flexíve l às condições de fronteiras, recebeu a influência direta dos movimentos de reavivamento13. Estes reavivamentos americanos historicamente começam em 1734 com Jonathan Edwards14 e ganharam força com a chegada de George Whitefield15, da Inglaterra. A teologia desse primeiro momento do avivalismo norte-americano ainda era calvinista, mas, aos poucos, passou a enfatizar a maior liberdade e autonomia do sujeito no processo de salvação.
Em um segundo momento, já no século 19, a predominância teológica tinha se tornado arminiano-avivalista16. Era a época da Era Metodista17. O metodismo foi a religião que trabalhou rumo às novas ocupações no território americano. O movimento metodista ganhou um reforço maior ainda, nos Estados Unidos, ao apelo pessoal de conversão e
13 Sobre esse assunto, indicamos a leitura dos livros A religious history of the american people, de Sydney
Ahlstrom (1973), e Revivalism in America, de Willian Sweet (1944).
14 Jonathan Edwards (1714-1770) era pastor congregacional norte-americano.
15 George Whitefield (1703-1770) era um teólogo calvinista, mas influenciado pela prática metodista de
pregação. Foi missionário nos EUA e liderou o primeiro reavivamento das igrejas do país junto com Jonathan Edwards. Sobre sua biografia, indicamos a leitura de George Whitefield: the life of the great evangelist of the eigteenth-century revival, de Arnold A. Dallimore (1975).
16 O termo “arminianismo” vem do nome Jakobus Arminius (1560-1609). Arminius era teólogo
reformado holandês e foi grande crítico da teologia calvinista sobre a predestinação. Ele enfatizava o livre-arbítrio na salvação. As teologias avivalistas muito se baseavam na idéia de Arminius e, por tal motivo, empenhavam-se sobremaneira para convencer o indivíduo de sua condição pecaminosa. Na prática, essa atitude resultou nos extensos sermões dos pregadores avivalistas.
santificação, e o resultado cúltico foi a ênfase nos sermões emocionais. Assim, o culto norte-americano, que já se mantinha distante dos parâmetros litúrgicos da Europa, sofreu o embate dos avivamentos e tornou-se um modelo que basicamente privilegiava os sermões emocionais, acompanhados por hinos também emocionais.
Nesse cenário de avivamentos, os camp meetings (acampamentos) também influenciaram os modelos cúlticos. No começo, eram realizados com o objetivo de reuniões para oração, cânticos e pregação, mas logo se transformaram em locais para evangelização. Essa prática, inicialmente usada por presbiterianos e metodistas, ficou depois restrita às igrejas metodistas. Segundo Velasques (1990, p. 85), predominavam nestas reuniões “manifestações emocionais violentas”. As manifestações emocionais e o estilo informal dos acampamentos influenciaram os modelos cúlticos americanos. A idéia de evangelismo partia essencialmente de tocar as emoções humanas por sermões e cânticos emocionais. O estilo do Movimento Metodista, que se prolongou até meados do século 19, foi, de fato, o que conseguiu romper radicalmente com o culto europeu, indo além da expectativa de ajuste às condições de fronteira.
Inserido em todos esses fatos e circunstâncias, o culto norte-americano não teve, como nos exemplos europeus, modelos litúrgicos que privilegiassem os sacramentos e os ritos mais objetivados. As igrejas luteranas e anglicanas, pela origem mais ritualística de seus cultos, não sofreram tantos abalos quanto as outras denominações, mas, mesmo assim, tiveram de adaptar-se às novas condições.
Todas as novas situações norte-americanas deram um contorno específico ao culto. Um aspecto importante que colocamos em ressalva é a homogeneização dos cultos, muito embora o protestantismo norte-americano tenha se baseado no denominacionalismo excessivo18. O denominacionalismo teve muitas características, e uma delas foi a união interdenominacional para uma ação em comum: a ação missionária. Um paradoxo é visível nesse contexto norte-americano: embora seu campo protestante fosse bem fragmentado, os modelos cúlticos não divergiam muito. Essa situação devia-se à influência de teologias avivalistas que conferiam um caráter difuso às denominações
18 Para estudar o denominacionalismo norte-americano, indicamos a leitura de Nieburh: “As origens
sociais das denominações cristãs”. Nesta importantíssima obra, o autor mostra as divisões denominacionais da América do Norte e como as questões sociais, específicas às condições desse país, ajudaram na construção dessas denominações. Ainda sobre a estrutura denominacional do protestantismo americano, indicamos a obra American protestantism, de Winthrop Hudson (1961).
específicas. Esse amálgama cúltico é uma característica presente nos missionários norte- americanos que chegaram ao Brasil.
Com um culto não-litúrgico ao extremo, o que aconteceu com a produção musical? Seguindo a tendência cúltica, a produção musical do protestantismo norte-americano foi influenciada pelos movimentos de avivamento e pelo forte apelo evangelístico resultante. Em termos estilísticos, seu desenvolvimento ocorreu a partir da hinódia, embora o saltério tenha sido usado inicialmente nos Estados Unidos. Esses modelos foram as grandes produções musicais do protestantismo, as quais passamos a explicar.