3 LITERATURE REVIEW
3.2 P REVIOUS STUDIES ABOUT THE MAJOR MARKETS
3.2.4 S INGAPORE
Os aspectos que compreendem a identidade como fenômeno em constante processo de construção, conexo, ainda, às representações sociais e relações de poder, podem ser extraídos da compreensão de identidade sob o prisma da fluidez e também reconhecidos na perspectiva de identidade autônoma. De acordo com esse prisma, o contexto de fragmentação cunhado em uma crença na pós-modernidade e emoldurado pelas contingências, ambivalências e incertezas contemporâneas não se sobrepõe à sedução individual de projeção da identidade pessoal (CARRIERI; PAULA; DAVEL, 2008). As múltiplas identidades, assim, corresponderiam às negociações em situações de convenção junto aos diversos interesses e interlocutores, e a fragmentação, nesse sentido, não corresponderia a um sujeito sem referencial, mas a uma busca pela superação de desafios e mudanças que lhe sobrevém.
Sob o prisma da identidade autônoma, Carrieri, Paula e Davel (2008, p. 138) contrapõem a fragmentação, que para os autores leva o indivíduo a fortalecer sua identidade por meio da produção subjetiva de sentidos, ampliando sua capacidade criadora. A identidade, assim, é um
sistema de sentidos produzido pelo sujeito na confrontação entre sua história e vida atual, no qual ele procura se reconhecer e delimitar seu espaço de acordo com a situação que está enfrentando. Dessa forma, as rupturas prejudiciais à identidade passam pela capacidade do sujeito de encontrar sentido para o que está vivendo.
A partir dessa compreensão, os autores denotam que o anseio por pertencimento e aceitação em uma coletividade não é problemático, mas pode significar obstáculos para o desenvolvimento de uma identidade individual autônoma. A problemática, portanto, corresponde ao risco de ser absorvido pelas identidades coletivas e, assim, deixar converter a identidade pessoal. Os indivíduos, para tanto, devem se reconhecer enquanto sujeitos, buscar a possibilidade de agir em função de sua subjetividade, subsistir para além da identidade coletiva, preservar sua capacidade de existir, independente de pertencer ou não a uma coletividade, e transcender o mero desempenho de papeis (CARRIERI; PAULA; DAVEL, 2008).
Essa questão é discutida pela corrente de análise psicossociológica no âmbito das organizações, uma vez que a sobreposição identitária nessa esfera sugere autonomia para lidar com formas de dominação e exclusão. Usando o processo de identificação como mecanismo de desenvolvimento identitário, Carrieri, Paula e Davel (2008) denotam que a dominação é fundamentada na projeção da identidade individual na identidade coletiva ou organizacional e resulta no controle da subjetividade do indivíduo; a identificação como forma de emancipação,
por sua vez, baseia-se na projeção do sujeito em uma causa da coletividade, pela qual se tem o reforço da sua subjetividade e identidade individual; já a identificação pela exclusão sugere uma forma perversa, em que um sujeito rejeitará as diferenças de outros indivíduos para afirmação dos aspectos da própria identidade.
De encontro à diretriz que implica em autonomia e emancipação, estão os postulados de Ciampa (1994), dos quais apreendo o fenômeno da identidade impresso na dialética entre representações sociais e constituição identitária, em constantes movimentos de construção, reconstrução e negação. Esse autor entende que o sistema sócio cultural vigente em uma sociedade orienta os indivíduos à representação de papeis sociais, nessa abordagem, denominado como identidade dada ou pressuposta. Frente às categorias e papeis sociais, os indivíduos atuam como personagens, representando a identidade que lhe fora dada. Assim, os papeis sociais constituem- se condutas institucionalizadas, internalização da realidade social ou o conjunto de obrigações e direitos socialmente partilhados, os quais variam de acordo com a posição do indivíduo (CIAMPA, 1994). Como crítica a essa perspectiva, o autor desenvolve em seus postulados, a compreensão de que a identidade é contraditória, múltipla, mutável e, ao mesmo tempo, una, caracterizando-se por um vir a ser individual, intraindividual e interindividual, que pressupõe um desenvolvimento indissociável de processo, produto, consciência e prática, concretizados social e historicamente.
Ciampa (1994) denomina tal processo de metamorfose e afirma que a expressão de diferentes identidades por um mesmo indivíduo consiste na alterização da própria identidade, que se sobrepõe à identidade pressuposta e desenvolve uma identidade individual posta como metamorfose constante sem, contudo, se desvincular dos demais níveis identitários. No nível pessoal o sujeito é identitariamente marcado pelos aspectos biológicos e pela corporeidade; no nível intraindividual, tem-se a consciência e a atividade como fatores identitários; já no nível interindividual, as identidades são marcadas pelas relações entre indivíduo e grupo (CIAMPA, 1994). A ideia de produto, produção e identidade, assim, sugere interações sociais, trocas subjetivas e objetivas e transformações identitárias realizadas ao longo da vida em uma construção inacabada, aberta, constantemente mutável. Desse modo, “identidade é movimento, é desenvolvimento do concreto. Identidade é metamorfose. É sermos o Um e um Outro, para
Assim como pressupõe a abordagem psicossociológica, Ciampa (1994) denota que a consciência é fundamental para a superação das representações provenientes da lógica social. O aprofundamento dessa compreensão é obtido a partir da noção de personagem e representação (atuação), basicamente como propôs Goffman (1975) em seus postulados sobre
as performances ou “fachadas”, desempenhadas pelos sujeitos no cotidiano social. Ambos os
autores utilizam-se da linguagem teatral, tais como: ator, personagem, representação, roteiro, figurino e público para elucidar as atuações dos sujeitos em suas interações.
Conforme Goffman (1975) e Ciampa (1994) uma personagem representa empiricamente a identidade e os papeis representados referem-se, por exemplo, a um drama social com autoria coletiva, cujos roteiros e autores remetem à vida e aos personagens que os constituem. Goffman
(1975) destaca o modo como o “eu” é apresentado em diferentes circunstâncias, assim como os
conflitos negociados entre os papeis desempenhados pelos indivíduos. Para esse autor, os papeis sociais são abstrações materializadas pelos indivíduos e grupos que lhes personificam em suas interações sociais. Fundado na concepção de identidade metamorfose e na noção de representações e papeis sociais, Ciampa (1994) defende que um indivíduo como personagem pressupõe um modo de ser, pensar e agir no mundo em conjunção às expectativas de conduta e comportamento seja individual ou coletivo.
O movimento decorrente da constituição identitária, assim, se faz paralelamente nas instâncias da identidade individual, em que há uma construção permanente do ser ao longo da história, conforme os fatores biológicos, psíquicos e sociais; e da identidade coletiva, cuja construção histórica é realizada a partir de um conjunto de características que marcam o grupo e outras que diferenciam os membros entre si, o que gera os subgrupos (CIAMPA, 1994). Na instância individual, cada sujeito tem aspectos que o marcam como idêntico a si mesmo e outras que o mostram igual ou diferente dos demais. O mesmo ocorre no nível coletivo, em que dado grupo apresenta-se como idêntico a si mesmo e diferente de outros grupos sociais.
Nos preceitos postulados por Ciampa (1994) igualdade e diferença conferem o sentimento de pertença ou restrição nos variados grupos organizados pelos sistemas de classificação social,
que conferem a ordenação entre “nós” e o “outro”. Para Maheirie (2002), a identidade
metamorfose é uma alternativa que contrapõe o conceito de identidade como uma unidade de semelhanças e permanência. A autora denota que nessa perspectiva, diferença e igualdade
diferenciar-se, dependendo dos diversos grupos que, ao longo da vida, vamos fazendo parte
[...]” (MAHEIRIE, 2002, p. 40). Conforme Ciampa (1993, p. 68)
[...] cada instante da minha existência como indivíduo é um momento de minha concretização (o que me torna parte daquela totalidade), em que sou negado (como totalidade), sendo determinado (como parte); assim, eu existo como negação de mim- mesmo, ao mesmo tempo em que o que estou-sendo sou eu-mesmo.
Outras problematizações acerca do conceito de identidade na psicologia social são configuradas por Sawaia (1996) e corroboram a visão postulada por Ciampa (1993). A autora defende que, se a identidade é compreendida como identificação, não necessariamente tem os sentidos de admiração ou reconhecimento pelo que é igual, ao passo que a identificação pode expressar o desejo de ser diferente. Identidade, assim, é um conceito que abrange um paradoxo, uma
“perspectiva analítica que contém em si mesma a possibilidade de fugir tanto das metanarrativas
quanto do relativismo absoluto, bem como a possibilidade de garantir o respeito à alteridade e, ao mesmo tempo, de proteger-se contra o estranho (SAWAIA, 1996, p. 83). Os dois movimentos citados pela autora sugerem que a identificação significa permanência e metamorfose, pelos quais é possível conferir ao indivíduo a capacidade de atuar e transformar a si mesmo e o contexto em que está inserido.
A constituição da identidade psicossocial reflete a pluralidade dos indivíduos, ainda que expressas em algumas dicotomias.
A constituição da identidade tem a marca da ambiguidade, da síntese inacabada de contrários, daquilo que é individual e coletivo, daquilo que é próprio e alheio, daquilo que é igual e diferente, sendo semelhante a uma linha que aponta ora para um pólo, ora para outro. A utilização do conceito de identidade nos permite desvelar os indivíduos, grupos ou coletividades, localizá-los no tempo e no espaço, identificando- os como estes e não outros, mesmo em metamorfose (MAHEIRIE, 2002, p. 41).
Nesse sentido, a diferença na abordagem da psicologia social constitui uma função simbólica e, assim como nos estudos culturais, determina as operações de excluir e incluir a partir dos mais variados aspectos, elementos e níveis identitários.
Em relação à autonomia, Ciampa (1994) aponta a importância da individualização na percepção das diferenças e igualdades entre os papeis assumidos nos grupos sociais. Uma vez que os papeis permitem uma constante reposição de personagens, as transformações ou metamorfoses tendem a marcar a singularidade do indivíduo. De outro modo, a ausência de uma
individualização permite a mesmice ou repetição de si mesmo (CIAMPA, 1994). Essas posições identitárias são preconizadas pelo autor nos processos denominados de assimilação, reposição e negação.
No processo de assimilação o indivíduo internaliza a realidade e assume o personagem que lhe fora socialmente atribuído como parte da identidade individual; no processo de reposição haverá, então, a manutenção da identidade assimilada ao longo do tempo, isto é, o indivíduo naturaliza ou vive a reproduzir as representações sociais, o que passa a sugerir a ideia de identidade estática, mesmice ou ausência de transformação, que também pode ser justificada por interesses individuais e/ou coletivos, ou, ainda, convenções para conservação da ordem social; já no processo de negação, o sujeito decide pela superação da identidade pressuposta, que quer dizer a negação da negação de sua subjetividade e identidade individual ou abandono da representação conferida em momentos anteriores, com determinação de um novo agir no mundo ou recuperação do mesmo, a consciência subjetiva expressa uma função importante nesse processo (CIAMPA, 1994).
Tendo em vista a consciência dos papeis sociais, importante destaque o autor confere à atividade humana na formação identitária, que, por sua vez, também influenciará a atividade do sujeito. O confronto entre prática e identidade preconiza a consciência identitária para superação das representações ou papeis e continuidade do processo de constituição identitária. De acordo com o autor,
o futuro se coloca como contínua e progressiva realização da humanidade; porém, como não é possível, aprioristicamente, esgotar a definição do conteúdo de ser humano, esta infindável tarefa se nos impõe de maneira inescapável. Não se trata, evidentemente, de conceitos abstratos e definitivos que considerem o homem como pura consciência, só como subjetividade (este o risco idealista); nem também de reduzi-lo à simples condição de coisa, só como objetividade (esta a armadilha materialista-mecanicista). Trata-se de considerar a superação dialética desse dualismo pela práxis. Trata-se de não contemplar inerte e quieto a história. Mas, de se engajar em projetos de coexistência humana que possibilitem um sentido da história como realização de um porvir a ser feito com os outros. Projetos que não se definam aprioristicamente por um modelo de sociedade e de homem, que todos deveriam sofrer totalitariamente (e identicamente), mas projeto que possam tender, convergir ou concorrer para a transformação real de nossas condições de existência, de modo que o verdadeiro sujeito humano venha a existência (CIAMPA, 1993, 73-74)
Por essa compreensão, o autor denota a formulação de uma política de identidade, realizada de modo democrático junto a projetos coletivos, em uma questão prática enfrentada conscientemente por todos os indivíduos e cada um dos indivíduos.
A análise de Martins (2013) acerca da identidade psicossocial no âmbito dos estudos organizacionais revela que, ao longo da vida, o indivíduo constrói suas relações em mediações de trocas materiais e simbólicas, assumindo e negando os aspectos sociais, como em um jogo, no qual as expectativas e condições objetivas e subjetivas conferem possibilidades de sujeição e sobreposição dos papeis pressupostos social e historicamente. No entanto, a discussão que se pretende desenvolver no presente estudo envolve mais que a compreensão de um jogo de representações, como que em uma perspectiva de funcionalidade, dado que a identidade autônoma compreende a busca de sentido para o sujeito no mundo da vida, e não, simplesmente, a correspondência às expectativas de se fazer. Para além dessa compreensão, entendo que a identidade, de certo modo, escapa às interações sociais, como que invocando a exteriorização da subjetividade. Todavia, resta compreender os modos pelos quais sejam possíveis essa captação, como busco discutir agora.