Ao chegar em Capanda, o trabalhador recebe informações sobre segurança no trabalho e primeiros socorros, além dos equipamentos de segurança e uniforme. Para os trabalhadores, apesar do uso dos equipamentos de segurança, não há como evitar pequenos acidentes em uma obra do porte de Capanda. Acidente grave aconteceu no ano passado, quando um trabalhador, que não estava usando o cinto de segurança enquanto trabalhava na barragem, caiu e faleceu.
Capanda tem um pequeno hospital com um médico e três enfermeiros brasileiros, além de técnicos angolanos. A cada três meses, uma médica ginecologista vai para Capanda fazer o acompanhamento das trabalhadoras.
Uma das conquistas na área da saúde foi o controle da malária. Além do combate ao mosquito transmissor, é feito controle da doença. Todo trabalhador que chega a Capanda, pela primeira vez ou voltando da folga, submete-se a exames. Isso, aliado ao fato de os trabalhadores não poderem abandonar o canteiro sem autorização, tem sido, segundo os técnicos de Recursos Humanos, os fatores que contribuem para a presença regular do trabalhador na frente de serviço, evitando, assim, o absenteísmo, considerado baixo por tais técnicos.
Todos os que trabalham em Capanda dormem no local. Os alojamentos são distribuídos por níveis funcionais e por sexo. Existe um alojamento para diretores, gerentes e pessoal de nível superior (mulheres e homens), um outro alojamento para os técnicos, e outro para os trabalhadores de base (pedreiros, carpinteiros, serralheiros entre outros). Há também o alojamento para as técnicas e para as trabalhadoras de base. As diferenças centram-se nas condições de acomodação e no número de pessoas por quarto. Não existe separação por nacionalidade, apenas por função e sexo.
Nos refeitórios também existe separação funcional. Existe um refeitório para os diretores, gerentes, pessoal de nível superior e técnicos e outro para trabalhadores de base. Enquanto no primeiro há uma organização do tipo selfservice, com um cardápio mais variado, no segundo é um cardápio único por dia. Nos dois refeitórios, a Odebrecht procura servir alimentação adaptada à cultura angolana. Não obstante, registram-se algumas reclamações por parte dos trabalhadores angolanos. Para estes, deveriam ser servidos mais práticos típicos da cultura de Angola.
Em função das dificuldades do país, foi criada uma fazenda para suprir o projeto em hortifrutículas. Muitos desses produtos são enviados para os refeitórios da empresa em Luanda. Aproximadamente 45 pessoas trabalham na fazenda. O responsável é um engenheiro agrônomo brasileiro, que conta com o apoio de quatro técnicos angolanos.
Ao se reportarem às condições de trabalho, os trabalhadores que estão na empresa desde a primeira fase afirmam que as condições de trabalho decaíram.
“No início, graças a Deus, era muito bom. Era melhor. Nós tínhamos muitas condições na altura. Mas agora está sendo muito fraco mesmo” (trabalhador de base).
“Antigamente foi muito melhor. Eu saindo daqui, depois de 45 dias, parecia que estava a sair da Europa. O meu corpo brilhava, ficava diferente. Mas agora não. Agora estamos a trabalhar mesmo porque enfim, é a falta mesmo, a pessoa não tem, tem que trabalhar; agüentar aquela miséria toda até quando um dia achar uma empresa melhor pra trabalhar” (trabalhador de base).
Segundo os dirigentes da empresa, a partir da segunda fase, em função das dificuldades do país e visando uma série de contenções, está sendo exigido um sacrifício de todos os angolanos e brasileiros. Não poderiam mais contar com as condições que tinham na primeira fase, principalmente em relação ao tempo de permanência em Capanda e ao meio de transporte para os trabalhadores de Malange, que deixaram de se beneficiar do transporte aéreo e passaram a ir para casa de ônibus.
Essa última mudança, entretanto, parece exigir muito mais sacrifício do pessoal de base Malange, pelo fato de as condições das estradas serem precárias e pela insegurança no trajeto de Capanda à cidade de Malange.
Vale ressaltar que, embora o trajeto aéreo fosse mais seguro, corriam-se alguns riscos. O local da obra é isolado da cidade e cercado por mato, aonde se abrigavam militares da UNITA. Assim, para evitar ataques, o pouso e a decolagem tinham de seguir determinados procedimentos de segurança. A aeronave voava até o perímetro da obra e só aí começava a descer, mas em caracol. Para sair de Capanda eram seguidos os mesmos procedimentos. A aeronave levantava vôo em caracol, ainda no perímetro do canteiro de obra e, só depois de ganhar uma determinada altura, seguia o seu curso normal. Todo esse procedimento visava evitar deixar a aeronave exposta em baixa altitude, sem a proteção do exército angolano, o que poderia facilitar possíveis ataques da UNITA.
A jornada de trabalho é de segunda a sexta-feira ou até sábado e, eventualmente, algumas áreas trabalham aos domingos. O tempo de permanência no canteiro e os dias de folga variam de acordo com a função e a nacionalidade, como apresentado no QUADRO 3.
QUADRO 3. Tempo de permanência em Capanda
Níveis funcionais Tempo de permanência em Capanda Tempo de folga Técnicos básicos, encarregados de
serviço e trabalhadores de base
90 dias 8 dias
Técnicos médios angolanos 30 dias 3 dias
Engenheiros e supervisores angolanos 15 dias 2 dias
Engenheiros expatriados 90 dias 15 dias
Técnicos expatriados 120 dias 15 dias
Outros expatriados 180 dias 15 dias
Fonte - Elaborado pelo autor com base em dados da pesquisa
Durante o tempo de permanência em Capanda, por questões de segurança, não é permitida a saída da área delimitada pela segurança. Quem tenta sair é demitido.
Os trabalhadores expatriados parecem encarar melhor essa situação. A percepção da distância de casa parece ser elemento de conformação.
“Nós que estamos longe de casa nos conformamos fácil. Viemos para um outro país para trabalhar. Agora, para o nacional é até cômico; ele mora a poucos quilômetros da obra e tem de ficar noventa dias sem ir pra casa” (técnico brasileiro).
“Você sabe que no Brasil o cara acorda muito cedo, porque muito cedo tem de pegar o ônibus, chegar ao trabalho antes das sete, e retorna vinte, vinte e uma horas pra casa. Você passa muito tempo longe da família. Se nós fizermos uma conta na ponta do lápis, o tempo que você fica ausente da família no Brasil e o tempo que você fica aqui trabalhando é quase a mesma coisa” (técnico brasileiro).
Para os angolanos, o tempo de permanência no canteiro é motivo de sofrimento, principalmente por estarem longe da família. Ao contrário dos expatriados, eles não têm acesso a telefone. Os depoimentos a seguir ilustram esse sofrimento.
“Nós estamos aqui quase condenados. Isso já não é uma empresa, estamos condenados. Certos colegas ficam frustrados, já não conseguem trabalhar pensando na família. Faz um pedido e não é atendido, e ele mais tarde fica com a cabeça doida” (trabalhador de base).
“...já, já aconteceu certas pessoas indo pro hospital por ‘pancadas’; é devido ao tempo. Porque a pessoa ficando os três meses aqui sem ver a família fica frustrada. Do alojamento, serviço, do alojamento, serviço, do alojamento, serviço; fica frustrado. Pelo menos a empresa deveria dar um fim de semana” (trabalhador de base).
“Aqui é exército mesmo; estamos aqui pra combater. Faço três meses e não posso ver a família! É exército mesmo” (trabalhador de base).
Embora não se possa ignorar a situação de insegurança nos arredores de Capanda, percebe-se que o confinamento dos trabalhadores surge como exigência de controle e de minimização de custos, e choca com os valores da cultura angolana. A organização do trabalho passou a influenciar negativamente a vida pessoal dos trabalhadores, causando, inclusive, sofrimento mental. O confinamento criou uma situação de ruptura e de oposição entre o trabalho e a vida. Os tempos
sociais foram modificados, fazendo com que os trabalhadores vivam separados de suas células- base, a família.
Tudo isso ajuda a confirmar a idéia de que muitos angolanos encontram-se imersos em duas realidades que se tangenciam e se chocam. De um lado, a condição de assalariado em uma organização regida por princípios como assiduidade e presença permanente no posto de trabalho. De outro, a condição de indivíduo que permanece ligado aos valores de sua cultura tradicional. O longo tempo de permanência em Capanda, aliado aos baixos salários, constitui a principal causa de descontentamento e, conseqüentemente, a principal causa de abandono do emprego. Vale ressaltar que a empresa não tem dados precisos sobre o índice de rotatividade dos trabalhadores.
Para contornar a situação de confinamento e visando proporcionar lazer aos trabalhadores, são programadas atividades, como caminhadas ecológicas, almoços e shows da Banda Capanda, formada por brasileiros e angolanos. Além disso, foi montada uma estrutura com quadras e ginásios de esporte, dois canais brasileiros de televisão, um canal angolano, um canal russo, um canal português e um circuito interno de TV com filmes selecionados. Existe também uma danceteria que funciona aos sábados. Porém, a entrada é permitida, apenas, aos diretores, gerentes, pessoal de nível superior e técnicos. Os trabalhadores de base não têm acesso à danceteria. São também esses trabalhadores que, na percepção de um dos seus representantes, não têm divertimento.
“Divertimento, divertimento, é mentira. Eu vejo o pessoal de camada mais baixa, eles só ficam mais ou menos alegres quando recebem o salário e conseguem uma bebida” (representante dos trabalhadores). Ou seja, aos trabalhadores que permanecem mais tempo em Capanda, que estão mais ligados à cultura tradicional e que são a maioria, lhes é reduzida a possibilidade de viverem a situação de trabalho em harmonia com a vida social de entretenimentos, festas e lazer.
Após os dias de trabalho no canteiro, os trabalhadores de Malange ainda enfrentam a insegurança nas estradas. A UNITA não chegou a atacar os ônibus de trabalhadores, que são sempre escoltados por militares. Não obstante, existe uma preocupação constante.
“Nossa maior preocupação era essa coluna de Malange, aí no fim do ano. Porque houve uma coluna que foi com quase setecentos trabalhadores. Se acontece um ataque, a gente está frito. Mas o Brigadeiro mandou uma senhora cobertura. Mandou uma equipe na frente fazer uma varredura, afastando o povo, protegendo, e depois a coluna com os militares” (administrador da vila)