Na perspectiva da tridimensionalidade dos meios de persuasão, Menezes (2007), referendando Eggs (2005), levanta a questão da autonomia ou da ação conjunta dos meios de prova na encenação discursiva. Para Aristóteles, as provas retóricas agem em conjunto solidariamente:
Uma vez que a retórica tem por objectivo formar um juízo (porque também se julgam as deliberações e a acção judicial é um juízo) é necessário, não só procurar que o discurso seja demonstrativo e fidedigno, mas também que o orador mostre uma determinada atitude e a maneira como há-de dispor favoravelmente o juiz.
(ARISTÓTELES, 2005, p. 105)
Menezes (2007) confirma que o mecanismo da persuasão funciona com a interação das três provas, as quais são localizadas nos vértices de um triângulo que representa a tríade
46 persuasiva do discurso retórico. Ele especifica que para cada gênero discursivo sobressai uma prova: para o gênero deliberativo, o ethos se destaca; para o epidíctico, importa mais o discurso em si e seu poder de encantamento; e, para o judiciário, a primazia seria para as emoções. Isso não equivale a dizer, contudo, que cada gênero se limitaria somente à sua prova de maior predominância.
QUADRO 1-A TRIDIMENSIONALIDADE DAS PROVAS RETÓRICAS
Fonte: MENEZES, 2007, p. 320
Para Aristóteles, a “justa medida”, isto é, a abordagem equânime das três é que promove o desempenho eficaz da persuasão no discurso retórico. Menezes (2007) questiona então porque Aristóteles teria dito que quase se pode afirmar que o caráter (o ethos) é o principal meio de prova. Para Menezes (2007, p. 321), a saída para essa incongruência está em se compreender que
a predileção pelo ethos é apenas aparente e indica que a instância de produção do discurso detém um papel decisivo na formulação das imagens de si, das disposições e do discurso, com a sua razão persuasiva. Afinal, o orador precisa tomar a palavra e, para que se mostre honesto, deve levar em conta uma formulação ‘justa’ de imagens de si, pela mobilização ‘justa’ de recursos patêmicos, e pelo ‘justo’ recurso às formas lingüísticas e à razão persuasiva. (MENEZES, 2007, p. 321).
Menezes (2007, p. 321) prossegue afirmando que “cada espaço e tempo social parecem possuir as suas representações sobre o que se apresenta como mais importante no discurso:
Logos
47 se o caráter do orador, se as emoções ou se o discurso em si e a razoabilidade que esse apresenta”. Essas representações, comuns aos indivíduos de um mesmo contexto social, são estabelecidas pelos imaginários, saberes e crenças desses indivíduos. Sendo assim cada circunstância enunciativa, situada no tempo e no espaço, fornece os seus valores necessários que irão nortear o que mais interessa àquela circunstância, no que diz respeito às provas do discurso, para a efetivação de um projeto persuasivo. Dessa forma, Menezes (2007, p. 322) declara:
Portanto, uma visão integrada das três espécies de prova não impede que se perceba, em situação empírica concreta, a predominância de uma ou de outra espécie. Uma boa parcela da ação discursiva do sujeito/orador acha-se determinada a priori, tanto pela finalidade persuasiva do seu discurso quanto pela situação de fala. Afinal, como disse Aristóteles, não deliberamos sobre todas as coisas, e sim ‘sobre as questões que parecem admitir duas possibilidades de solução’; logo, deliberamos sobre aquilo que comporta uma proposição alternativa, na situação interativa. Ademais, os meios de persuasão se encontram em co-presença em toda manifestação do sujeito.
Menezes (2007) conclui dizendo que o sucesso do discurso persuasivo relaciona-se com a capacidade de se encontrar a justa medida entre os caracteres do orador, os sentimentos do auditório e a razoabilidade do discurso. Porém a medida de cada prova deve ser ponderada consoante a situação discursiva em que se encontram orador, auditório e o próprio discurso. Dependendo da situação uma prova pode sobressair-se às outras para que se atinja um ajustamento das três ao contexto enunciativo.
A esse respeito Eggs (2005, p. 41) também se pronuncia: “...o peso dessas três provas é relativo, uma vez que depende do gênero oratório ou, em uma linguagem mais moderna, do tipo de texto”. Considerando o homem, na perspectiva de Aristóteles, um ser constituído de três dimensões: um animal sentimental (pathos), com o atributo de ser político e social (ethos) e dotado da faculdade de pensar e falar (logos), pode-se afirmar que a sua forma de expressar essas dimensões no discurso se dá a partir de seu ethos. Nesse aspecto, pode-se dizer que se considera o ethos a prova mais significativa das três: “Só o orador que
48 consegue mostrar em seu discurso os mais elevados graus dessas três dimensões do ethos – phrónesis, areté, eúnoia – convencerá realmente” (ARISTÓTELES apud EGGS, 2005, p. 42).
Eggs (2005, p. 38) reconhece uma situação de integridade discursiva e retórica quando um orador consegue “se mostrar, apresentar-se e ser percebido como competente, razoável, equânime, sincero e solidário. Para que isso ocorra, faz-se necessário que o orador revele também um ethos compatível e coerente com a sua idade, posição social e ajuste seu discurso aos habitus de seu auditório. Esse último ethos é classificado por Eggs como ethos
neutro ou ethos objetivo. Desta forma, Eggs observa a ocorrência concomitante do ethos
moral e do ethos neutro: “É preciso agir e argumentar estrategicamente para poder atingir a sobriedade do debate” (EGGS, 2005, p. 39).
Em outro momento, esse teórico ainda propõe pesquisas em que “é preciso encontrar cenários que permitissem analisar o papel argumentativo do ethos do orador ou, mais geralmente, a função comunicativa e inter-subjetiva do ethos em um ator social” (EGGS, 2005, p. 52). É nesse sentido que nosso trabalho se realiza, numa perspectiva em que os aspectos discursivos contextuais levam o enunciador a buscar a “justa medida”, considerando o ethos como prova de destaque e ressaltando nele a sua essência argumentativa. Esse procedimento leva o ethos a reger com equanimidade as outras provas a fim de executar em seu plano argumentativo a integridade discursiva e retórica postulada pelas necessidades do contexto enunciativo de nosso corpus.