Em Novembro de 1985, Mandela foi operado à próstata na Cidade do Cabo. O facto de se encontrar no hospital foi considerado como a altura ideal por parte do Ministro da Justiça, Prisões e Polícia, Hendrik Jacobus Coetsee359, para conhecer o líder histórico do ANC360.
Neste primeiro encontro, podemos depreender pelo relato feito por Coetsee que ele ficou claramente fascinado pela figura de Mandela361:
I was fascinated at what kind of man he must be to have attracted all this international attention and have all these honorary degrees and awards given to him. When I met him, I immediately understood why.
Após este encontro, outros se seguiram com um grupo de trabalho governamental a tentar convencer Mandela a aceitar uma série de príncipos como pré-condições para o início das negociações362. Mandela conseguiu avisar a liderança do ANC no exílio do mesmo, de modo a
que não houvessem mal-entendidos e se pensasse que ele estava a negociar algum tipo de acordo com o governo363. A preocupação imediata de Mandela era a de evitar que este
encontro fosse visto como uma tentativa de quebrar a unidade entre a ala interna e externa do ANC.
A ala exterior do ANC, ultrapassada a desconfiança inicial, apoiou os esforços de Mandela destinados a abrir um canal de comunicação com o governo sul-africano, através do Ministro Coetsee. O primeiro elo de ligação estava criado.
359 Coetsee tinha assumido este cargo em 1980 e, desde essa altura, começou gradualmente a melhorar as condições de vida dos presos políticos. Ao mesmo tempo, começou a defender dentro do governo sul- africano, a libertação dos mesmos.
360 Hennie Serfontein:”Kobie’s Months of Secret Mandela Meetings”, in Weekly Mail & Guardian, 4/08/89. 361 Allister Sparks: Tomorrow is Another Country – The Inside Story of South Africa Road to Change , p. 24.
362 O grupo era constituído por Coetsee; Roelof Pik Botha; Stoffel van den Merwe e Gerrit Viljoen. Este grupo tentou convencer, sem sucesso, Mandela a desistir da luta armada, do apelo às sanções internacionais e ao desinvestimento e das campanhas de protesto, como condições para o início das negociações.
363 Qualquer equívoco que pudesse surgir foi desfeito por George Bizos, o advogado de Mandela, que se deslocou a Lusaka para informar a liderança do ANC do encontro ocorrido com Coetsee.
P.W. Botha autorizou Coetsee a continuar os contactos com Mandela, embora não fosse muito claro quais eram as suas reais intenções. No fundo, Botha queria e sabia que tinha que libertar Mandela, só não sabia como o fazer, pois temia que tal decisão fosse interpretada como um sinal de fraqueza da sua parte. Estes encontros acabaram por se transformar num beco sem saída, uma vez que o processo negocial propriamente dito estava longe de se iniciar.
Segundo Mandela364, a situação foi desbloqueada devido à Commonwealth e ao envio, em
1986, do Eminent Persons Group (EPG), uma missão de membros da Commonwealth que se deslocou à RAS com o intuito de ajudar a desbloquear a situação. O EPG fez uma análise da situação do país e propôs uma série de passos a serem dados com vista a promover negociações sérias entre as partes. As propostas do EPG provocaram uma divisão entre os apoiantes do regime. Para uns, estas propostas eram o veículo ideal para moderar as exigências do ANC e iniciar um processo negocial; para outros, não se devia negociar até que não houvesse um domínio total sobre os movimentos de libertação.
O fim abrupto da Missão do EPG, devido aos ataques sul-africanos à Zâmbia, Zimbabwe e Botswana, que levantaram um coro de protestos internacionais, mais uma vez deixou o governo sul-africano numa posição muito difícil. O importante nesta missão da Commonwealth foi a revelação do desejo da população sul-africana num processo negocial. Esta percepção, levou Mandela a tomar a iniciativa e a pedir um encontro com P.W. Botha. O período que antecedeu este encontro foi marcado por um relaxamento das condições de prisão de Mandela. Em Dezembro de 1988, Mandela foi transferido para a prisão Victor Verster perto da cidade de Paarl, na província do Cabo. Nestas novas instalações, Mandela tinha uma casa, onde podia receber visitas e gozava de uma maior liberdade.
O tão esperado encontro com Botha foi adiado devido a um acidente cardiovascular que este sofreu em Janeiro de 1989. Após a sua recuperação, Botha mostrou-se disposto a encontrar-se com Mandela. O encontro teve lugar a 5 de Julho de 1989. Nesta altura, já a RAS tinha uma liderança bicéfala, Botha como Presidente do país, mas, devido ao seu débil estado de saúde, a liderança do NP, tinha ficado nas mãos do seu Ministro da Educação Frederik Willem De Klerk. Os candidatos à liderança do partido tinham sido quatro: Roelof “Pik” Botha, Ministro dos Negócios Estrangeiros; Barend Du Plessis, Ministro das Finanças; Chris Heunis, Ministro dos Assuntos Constitucionais e Frederik De Klerk. Os três primeiros eram considerados reformistas e o último conservador. De Klerk acabou por ganhar a eleição, com uma vantagem de oito votos sobre Du Plessis.
Com vista a preparar este encontro, Mandela apresentou previamente um documento365 a P.W.
Botha. No documento apresentado, Mandela enumerou os principais obstáculos às negociações, as quais tinham a ver com as exigências apresentadas pelo governo como condições sine qua non para o início de um processo negocial. As condições do governo tinham a ver com a necessidade do ANC renunciar à violência; a ruptura com o SACP e o
364 Nelson Mandela: Long Walk to Freedom, pp. 517-518.
365 Mandela utilizou este documento para explicar as opções do ANC, nomeadamente a luta armada e a ligação ao SACP, acusando o governo de arranjar falsos argumentos para não iniciar as negociações. The Mandela Document, 5/07/89, p. 3.
abandono da exigência da regra da maioria, todas elas inaceitáveis por parte do movimento de Mandela.
O encontro serviu basicamente para que os dois homens se conhecessem, mas nenhum passo na direcção a eventuais negociações foi dado. A divulgação deste encontro preocupou os líderes da UDF e a ala mais radical do ANC; ambos temiam que Mandela estivesse a ser manipulado pelo governo. Esta preocupação era particularmente evidente em alguns sectores do ANC que, ao contrário de Mandela que defendia uma solução negociada, defendiam o derrube militar do regime do apartheid.
Devido à sua intransigência, era notório que qualquer processo negocial sério só seria possível após o afastamento de P.W. Botha. Em Agosto de 1989, a liderança do NP pressionou Botha a demitir-se. De Klerk confrontou Botha com a necessidade de este se afastar. O argumento oficial para o afastamento foi a saúde do Presidente, porém, na prática, Botha era visto como um obstáculo quer à reforma do regime, quer ao desejo de manter a supremacia branca. Durante meses, P.W. Botha mostrou-se contrário às reformas propostas por De Klerk enquanto líder do NP. Face a este impasse, De Klerk obteve o apoio esmagador do partido, assim como dos outros membros do governo, no sentido de pressionar Botha a resignar. O choque final deu-se em Agosto de 1989, quando todos os membros do governo se deslocaram à residência oficial de Botha para lhe pedir que se afastasse366. A 14 de Agosto, P.W. Botha
anunciou ao país através da televisão a sua resignação.
De Klerk, enquanto líder do NP, concorreu ao cargo de Presidente nas eleições de 6 de Setembro de 1989. Durante a campanha eleitoral, o programa apresentado pelo NP já era explícito em relação aos objectivos de De Klerk. Entre as principais medidas figuravam o fim da discriminação racial; a criação de um novo quadro constitucional e a criação de pontos de contacto entre os vários grupos raciais. Apesar da vitória eleitoral, o NP viu os extremistas brancos, representados pelo CP, a tornarem-se a principal força da oposição parlamentar.