6. CONCLUSION
6.3 Suggestions for further research
Nos anos 1970, pesquisadores da Universidade de Uppsala procuraram compreender o processo de internacionalização das firmas suecas. Para eles, di- versos estudos têm indicado que “a internacionalização é um processo no qual as firmas aumentam gradualmente seu envolvimento internacional” (Johanson & Vahlne, 1977, p.23). Esses autores desenvolveram um modelo do processo de internacionalização “que focaliza no desenvolvimento da firma individual e par- ticularmente em sua gradual aquisição, integração e uso do conhecimento sobre as operações e mercados estrangeiros e em seu comprometimento sucessiva- mente crescente com relação aos mercados externos” (idem, p.23). Dessa forma, a internacionalização é um processo sequencial e dependente do conhecimento adquirido com a experiência internacional.
Para Johanson & Vahlme (1977, p.24), “as firmas começam exportando a um país via um agente, posteriormente estabelecem uma subsidiária de vendas e, eventualmente, em alguns casos, começam a produção no país hospedeiro”. Essas etapas de menor para maior comprometimento de recursos realizadas pelas empresas suecas evoluem à medida que aumenta o conhecimento dos mercados. Quer dizer, a internacionalização começaria pela operação mais simples e menos arriscada – a exportação de mercadorias. À medida que a empresa adquire co-
nhecimentos básicos sobre os mercados atendidos, ela tende a aumentar o seu grau de envolvimento no exterior, com a instalação de escritórios comerciais e de unidades produtivas (Figura 1).
Figura 1 – Trajetórias de desenvolvimento na evolução de uma empresa “transna- cional”
Fonte: Dicken, 1992, p.138; Santos, L. B. (Org.), 2012.
O modelo de Uppsala está fundamentado nos pressupostos de que a falta de conhecimento é um grande obstáculo à internacionalização, de que o conheci- mento adquirido por meio da experiência é importante no processo de interna- cionalização e de que as empresas se internacionalizam investindo os recursos de maneira gradual. Segundo Johanson & Vahlne (1977, p.28), existe uma relação direta entre o conhecimento do mercado e o comprometimento de mercado, ou seja, “quanto melhor o conhecimento sobre um mercado, mais valiosos são os recursos e mais forte é o comprometimento em relação ao mercado” (Johanson & Vahlne, 1977, p.28).
Os comprometimentos adicionais são realizados a passos lentos, a menos que “a firma tenha grandes recursos e/ou as condições de mercados sejam estáveis e homogêneas, ou a firma tenha muita experiência de outros mercados com condi- ções similares” (idem, p.30-1). A propósito dos espaços escolhidos para os investi- mentos, “a ordem cronológica de tais estabelecimentos parece estar relacionada à distância psíquica entre países-sede e anfitriões importadores […] a distância
psíqui ca é definida como a soma de fatores que impedem o fluxo de informação de e em relação ao mercado”. Exemplos são “as diferenças na língua, educação, prá- ticas empresariais, cultura e desenvolvimento industrial” (idem, p.24).
O modelo de Uppsala está baseado em dois padrões de explicação do avanço das empresas: i) o comprometimento gradual dos recursos das empresas no ex- terior, da exportação ao investimento direto; ii) a entrada em mercados com distân cias psíquicas sucessivamente maiores, utilizando-se dos conhecimentos adquiridos em estágios anteriores. Os trabalhos sobre as firmas suecas demons- traram que elas estabeleceram operações em países próximos, para depois, com os conhecimentos adquiridos, expandirem-se gradualmente para mercados mais distantes psicologicamente. O conhecimento adquirido num mercado especí- fico, de difícil transposição, foi útil no comprometimento da empresa, passo a passo, em novos mercados.
Entre as várias críticas às hipóteses da escola de Uppsala, destacam-se: i) o modelo parece um tanto quanto determinista; ii) o modelo de internacionali- zação diz algo importante, apenas, sobre os estágios iniciais de investimento no exterior; iii) o modelo não leva em consideração o grau de interdependência entre os países; iv) o mundo está se tornando cada vez mais homogêneo e, portanto, temos uma diminuição da distância psíquica.
A fim de responder às críticas e aperfeiçoar o modelo de internacionalização, em meados dos anos 1990, surgiram novas vertentes teóricas dentro da escola de Uppsala, entre elas as redes industriais (industrial networks). Johanson & Vahlne (1990) incorporam ao modelo de internacionalização a ideia de redes industriais – resultado da interação entre firmas.2 Para eles, “a firma específica está envol-
vida numa rede de relações de negócios compreendendo um número de dife- rentes firmas – consumidores, consumidores dos consumidores, competidores, fornecedores suplementares, fornecedores, distribuidores, agentes e consultores, bem como agências regulatórias e outras agências públicas” (Johanson & Vahlne, 1990, p.18).
Tanto as relações como as redes devem ser compreendidas a partir da inte- ração interna, e o conhecimento do mercado – essencial no modelo de internacio- nalização – está baseado nas atividades de negócios atuais e/ou interações de atividades entre as empresas. Ou seja, “em relação à internacionalização da fir- ma, a perspectiva das redes defende que a internacionalização está envolvida inicialmente em uma rede que é principalmente doméstica” (idem, p.19). A in- ternacionalização significa que a empresa desenvolve relações em redes em ou- tros países, por meio do(a): i) estabelecimento de relações em redes de países que
são novos para a firma; ii) desenvolvimento de relações nessas redes; iii) conexão de redes em diferentes países, por exemplo, a integração internacional.
Johanson & Vahlne (1990) propõem dois conceitos: pacote de vantagem (quantidade agregada de forças e fraquezas de uma companhia, avaliada em função de um conjunto específico de circunstâncias, tais como ambiente, con- junto de competidores e objetivos) e ciclo de vantagem (o tamanho e a composição do pacote mudam com o tempo). Para eles, uma companhia que desempenha atividade no exterior, ao interagir com consumidores atuais e potenciais, com au- toridades, fornecedores, etc., acumula conhecimento, estabelece relações, aper- feiçoa certos atributos e cria uma vantagem.
Se os valores iniciais da vantagem criada diminuem à proporção que ela é ex- plorada, temos um ciclo de vantagem. Se não, o pacote de vantagem da empresa aumenta em valor, embora mude a composição. A composição desse pacote de vantagem terá impacto na continuidade do desenvolvimento da companhia à medida que oportunidades novas ou diferentes puderem ser exploradas: por exemplo, a criação de um produto em conjunto por fornecedores e consumidores pode levar à criação de uma nova tecnologia que poderá ser utilizada pelo forne- cedor em outros lugares (idem, p.21).
Em resumo, as industrial networks remetem à ideia de integração das subsi- diárias com fornecedores, instituições de pesquisa, empresas de propaganda, etc. e entre as subsidiárias do próprio grupo. As parcerias entre as empresas podem ser descontínuas, superando o pressuposto gradual e incremental, e ajudam as empresas a seguir o caminho da internacionalização.