É frequente ouvir-se no Niassa as pessoas usarem a sua cultura como forma de justificar a não adesão a alguma prática, sobretudo se esta prática tiver sido trazida de fora e não fizer parte dos seus hábitos e tradições de longa data. ‘A minha cultura não deixa’ parece ser uma resposta comum e uma forma de pôr fim a qualquer pergunta sobre o porquê de não fazer alguma coisa, ou de não o fazer de determinada forma. Esta atitude coloca as ONGD perante um conjunto de dilemas culturais que enfrentam diariamente no seu trabalho e aos quais não são alheias as organizações que trabalham na área da saúde.
O primeiro dilema identificado tem a ver com as perceções sobre doença, sobre o HIV-sida e sobre as suas formas de tratamento. Em geral, a doença em África é vista como fruto de um desequilíbrio espiritual e social, tendo associado a si um significado simbólico e não apenas físico ou mental (Onwuanibe, 1979). Por seu lado, a sida traz associada a si um conjunto de julgamentos morais em que as pessoas seropositivas são vistas como tendo tido comportamentos considerados desviantes (por provocarem esse desequilíbrio espiritual ou social), sendo a doença vista como uma manifestação do castigo correspondente a esses comportamentos. Daí que as formas de tratamento devam também incluir um significado simbólico e espiritual que dê resposta às crenças cosmológicas das pessoas (Onwuanibe, 1979), o que situa estas formas de tratamento no extremo oposto das da medicina ocidental disponíveis para tratar o HIV-sida e estritamente orientadas para o lado tecnológico.
Um exemplo deste primeiro dilema são as perceções ligadas ao uso do preservativo. Em conversa com um formador da ONGD 1, também ele moçambicano e originário da província do Niassa, durante uma formação com líderes comunitários, foi referido o seguinte sobre estes líderes com quem a organização trabalha:
“Estão muito preocupados com o preservativo, porque acham que o vírus do HIV está no preservativo, pois quando molham um preservativo vêem umas coisas a nadar lá dentro (que mais não são do que o lubrificante em contacto com a água)
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que para eles parecem bichos, logo, são o vírus. Além de que o preservativo é um impedimento a que tenham filhos e isso não pode ser, porque eles não podem deixar
de ter filhos.”14 (registo de campo 3)
Estes líderes são pessoas que representam a autoridade nas suas comunidades, que têm influência em áreas como a política, a religião e a saúde e que, por isso mesmo, interessa informar corretamente, para que possam depois passar os conhecimentos adquiridos para as outras pessoas da sua comunidade. Mas as suas perceções em relação à doença em geral e a esta doença em específico revelam uma forma de olhar o mundo muito própria, com a qual as organizações que trabalham nesta área têm de lidar. Nas palavras do mesmo formador da ONGD 1:
“A maior parte deles acha que a sida veio dos americanos, que fizeram experiências em cadeias nos EUA, envolvendo homossexuais, cães e macacos, e que depois trouxeram a sida para África. Acham também que, quando a mulher está doente (e para eles ‘doente’ pode simplesmente significar estar menstruada), não deve lavar-se no mesmo lugar que o homem, não deve pôr sal na comida, etc.,
14 A este propósito, ver por exemplo Mwolo (2015: vi), que refere um outro tipo de estigma específico das raparigas
associado ao uso do preservativo: “Embora possam ter já uma experiência da vida, ter na sua posse e/ou negociar o uso do preservativo é susceptível de prejudicar a sua respeitabilidade perante parceiros sexuais masculinos. Elas podem igualmente ser punidas pelos pais, tutores e professores, algo que não é necessariamente aplicável aos rapazes. O preservativo e uso do preservativo estão intimamente associados, para as raparigas, com a falta de confiança, com a infidelidade e com a promiscuidade.”
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pois isso contribui para a transmissão de doenças para o homem.” (registo de
campo 3)
Isto significa, portanto, que as perceções culturais locais levam as pessoas a acreditar em razões exteriores da origem do HIV: o vírus existe dentro do preservativo, pelo que usá-lo é ficar doente; usar o preservativo significa não ter filhos; a sida foi uma doença trazida de fora; e, finalmente, a mulher como transmissora de doenças ao homem. Estas perceções sobre razões exteriores, que mais não fazem do que distanciar as pessoas da culpa associada à doença, e do consequente estigma, enquadram-se na cosmologia acima referida em relação à doença em geral e à sida em específico.
Mas há também razões interiores, que incluem todo o discurso ilustrado pela frase ‘a minha cultura não deixa’, ou seja, os obstáculos colocados por uma cultura voltada para as tradições é que dão origem à sida. Curiosamente, o próprio formador acima referido considera que a cultura das pessoas locais é um obstáculo ao seu desenvolvimento: “O grande problema são também os hábitos culturais (poligamia, discriminação da mulher, etc.), que têm um peso enorme nos comportamentos das pessoas e são extremamente difíceis de mudar.” (registo de campo 3)
O discurso da cultura como um obstáculo é transversal, tendo sido encontrado não só junto das pessoas que trabalhavam com as duas ONGD, como por exemplo o oficial de HIV-sida de uma associação local parceira da ONGD 2 (exemplo 1), mas também junto dos funcionários públicos envolvidos nas comissões de combate ao HIV-sida a trabalhar ao nível dos distritos (exemplo 2), bem como por exemplo numa apresentação pública de um estudo15 sobre “Conhecimento
das ITS/HIV/SIDA e uso do preservativo” realizado pelo sindicato dos jornalistas do Niassa (exemplo 3):
1. “As pessoas sabem que não devem, mas continuam a ter comportamentos de risco, por
ignorância, por apego aos mitos, tradições e tabus, etc.” (registo de campo 4);
2. Para o representante da CDCS, o analfabetismo e os aspectos culturais (sobretudo
ligados aos ritos de iniciação) são os principais entraves ao combate à sida.” (registo
de campo 9);
42 3. “Aspectos culturais e individuais em relação ao sexo e à sexualidade, falta de
informação correcta, completa e atempada, dificuldades de acesso aos preservativos femininos e dificuldades de acesso a cuidados de saúde constituem algumas das razões
que aumentam a contaminação pelo HIV-sida.” (registo de campo 18).
E numa formação dada pela ONGD 2 a ativistas do distrito de Muembe, uma ‘árvore dos problemas’ desenhada pelos próprios formandos apresenta as tradições como uma das causas da sida, estando na origem de problemas como pobreza, órfãos, mortes (fig. 2 e 3). O próprio CNCS, a instituição estatal responsável pela coordenação das atividades de combate à sida, afirma que os aspetos culturais e tradicionais são um dos fatores impulsionadores da epidemia do HIV em Moçambique (página online do CNCS).
O que parece estar em causa é esta relação dilemática entre uma cultura local, vista como estando voltada para o passado e para as tradições e por isso constituindo um obstáculo ao seu próprio desenvolvimento, e uma cultura a que podemos chamar global, cujos agentes, entre eles as ONGD, são vistos como ‘facilitadores’ do desenvolvimento. Também se pode compreender este dilema entre local e global, passado e presente, como um dilema estrutural do duplo obstáculo: dependência e ingerência cultural.
Fig. 2 – Formação de ativistas no distrito de Muembe.
(Fonte:autora)
Fig. 3 – Árvore dos problemas feita pelos ativistas durante esta formação. (Fonte:autora)
43 Entre estas duas culturas ou mundos há um conjunto de mediadores, ou tradutores culturais, que fazem a mediação ou ponte, incorporando o conhecimento local e traduzindo-o de um mundo para o outro e vice-versa. Esses tradutores culturais são os líderes comunitários acima referidos (chés, régulos, curandeiros, parteiras tradicionais), os próprios agentes de desenvolvimento das ONGD (ativistas, oficiais de HIV-sida, oficiais de cuidados domiciliários) e os representantes das entidades de saúde (médicos e enfermeiros do GATV, dos postos de saúde e hospitais). Isto leva-nos para um segundo nível de dilemas culturais que aqui se quer abordar.