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Para Alves-Mazotti e Gewandsznajder (1998) as observações ocupam lugar privilegiado nas abordagens qualitativas, pois possibilitam um contato estreito com o fenômeno pesquisado. Os autores ressaltam como pontos positivos desta técnica de pesquisa:
a) independem do nível de conhecimento ou da capacidade verbal dos sujeitos; b) permite checar na prática a sinceridade de certas respostas que, às vezes, são dadas só para causar “boa impressão”;
c) permite identificar comportamentos não intencionais ou inconscientes e explorar tópicos que os informantes não se sentem à vontade para discutir;
d) e, por fim, permite o registro do comportamento em seu contexto temporal e espacial.
Nesta pesquisa, utilizamos a observação participante. Nela, o pesquisador se torna parte da situação observada, interagindo por longos períodos com os sujeitos, buscando partilhar do seu cotidiano e sentir o que significa naquela situação (ALVES-MAZOTTI e
GEWANDSZNAJDER,1998). Para Johnson (1997), a observação participante é um método de
pesquisa no qual o pesquisador realmente toma parte no fenômeno social que estuda.
Assim, as observações ocorreram de agosto a dezembro de 2003. Ficamos uma média de 8 dias com aproximadamente 6 horas de duração em cada uma das costureiras, além de outros contatos estabelecidos durante esse período.
As observações tiveram intervalos entre as primeiras e as últimas. Isso para que pegássemos as costureiras tanto nos períodos de pouco trabalho como também no período de pico de produção.
Durante os meses de setembro e outubro de 2003, houve uma queda no ritmo da produção que inviabilizou a realização das observações, uma vez que as costureiras ficaram completamente sem trabalho. Nesses meses, procuramos entrar em contato freqüentemente indo inclusive algumas vezes às casas das costureiras para verificar como elas estavam
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lidando com essa situação. De certa forma, ainda que não intencionalmente, acabamos também tendo de aprender a lidar com essa nova situação.
Como tem faltado trabalho, faço contato constantemente por telefone para ver como está o andamento. Em contato do dia 25 de setembro de 2003, a faccionista comenta que o serviço está muito parado. Já faz mais de duas semanas que não tem trabalho. Nos anos anteriores, nessa mesma época, ela comenta que estava trabalhando muito em roupas para festas de fim de ano. Passo para ela um telefone que a faccionista 3 pediu para passar. É o telefone de um empresário que tinha procurado a faccionista 3 para passar trabalho. Como ele trabalhava com camisas, um tipo de trabalho que ela não gostava de fazer, pediu para passar o telefone à faccionista. As duas não tinham contato. No entanto, havia comentado com a faccionista 3 que a outra faccionista trabalhava com camisas e estava parada. Por isso, ela pediu para então passar o telefone. A faccionista fica de ligar para o empresário e sondar a possibilidade de trabalho (Diário de Campo, Faccionista 4, 25 de setembro de 2003).
Percebemos nas observações de campo que não há como o pesquisador passar despercebido entre os participantes da pesquisa. Fato interessante com relação a isso foi narrado pela Faccionista 2. A faccionista tem uma filha de 5 anos e conta que, em uma das tardes em que não estava ocorrendo a observação, a menina sentou-se da mesma forma que a pesquisadora, no mesmo banco e fazendo os mesmos gestos. Brincava observando a mãe e a tia trabalhando e mesmo sem ainda saber escrever fingia que estava fazendo anotações. Da narração da faccionista restou a sensação de que a pesquisadora observava, sim, mas também era observada, e sua presença de alguma forma interferia na rotina dessas trabalhadoras. Vejamos outros exemplos de situações que demonstram isso:
A costureira reclama sono. Sai e vai lavar o rosto. Brinca comigo. “Como você está fazendo pesquisa, não vai colocar que costureira dorme na máquina, não.” Depois completa: “Estava com tanto sono que se não fosse lavar o rosto não agüentava não.” Nesse momento, percebo que elas não são tão alheias ao fato de eu estar lá. Brincam também sobre o que devo ou não anotar (Diário de Campo, Faccionista 1, 13 de novembro de 2003).
Observei que elas apelidavam todos que trabalhavam com elas. Pergunto sobre o apelido de um empresário; elas explicam. Digo que queria ver qual seria o meu. Nesse momento, descubro que já ganhei um apelido entre as costureiras. Pois elas riram e disseram que eu já tinha um apelido: era fiscal. Que todas as vezes que chegava, elas brincavam: Aí o fiscal chegando. Isso porque, segundo elas, ficava o dia todo vigiando tudo o que elas estavam fazendo, parecendo um fiscal (Diário de Campo, Faccionista 1, 17 de novembro de 2003).
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Outra questãoé que, como colocado por Johnson (1997), os pesquisadores que adotam a observação participante podem envolver-se demasiadamente no que estudam, e isso pode influenciar suas observações e interpretações sem que se dêem conta disso. Isso ocorreu durante a observação de campo, na qual tivemos de interromper as observações por comprometimento da própria pesquisadora que estava envolvida demais nos problemas dos pesquisados, chegando mesmo a um processo de adoecimento, e isso causava uma certa angústia que não permitia perceber e quanto menos analisar o que estava acontecendo com clareza.
Outro ponto é levantado por Alves-Mazotti e Gewandsznajder (1998), que indicam como uma das qualidades exigidas do pesquisador que envereda pela observação participante é a capacidade de ter flexibilidade para se adaptar a situações inesperadas. Assim, no campo de pesquisa, ocorrem situações que não esperamos e que não estamos naquele momento preparados para lidar com elas.
Depois que o empresário vai embora, a faccionista pergunta se eu percebi o jeito que ele fala. Digo que fiquei assustada com a forma de ele a tratar. Não tinha como negar, o jeito que fiquei não me permitia fazer isso. A faccionista comenta, então, que ele antes costumava gritar com ela, que ficava calada, mas hoje ela não fica mais calada. Antes até chorava, mas hoje, se ele fala alguma coisa ela responde (Diário de Campo, Faccionista 1, 13 de novembro de 2003).
Nesses casos, então, coube-nos a humildade de saber que somos pesquisadores, mas, acima de tudo, somos também pessoas com limitações.
Em outras situações, a relação pesquisadora e pesquisadas ganhou uma dimensão maior que a da própria pesquisa.
Coloca o menino no chão e pede para ele brincar só enquanto ela termina as roupas que ainda faltam. O menino coloca algo na boca e a avó vai olhar. Depois volta a costurar. O menino vai para perto da avó querendo colo. Levanto e vou pegar o menino um pouco (Diário de Campo, Faccionista 1, 19 de novembro de 2003).
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Neste dia, estive na casa da faccionista para deixar um produto que pediu para eu comprar para ela em Belo Horizonte. Já estava tarde, já eram mais de 21 horas. A faccionista e o marido estavam fazendo limpeza na casa. Comenta que a casa precisava de uma geral, e esse era o único horário disponível. A faccionista diz que está tarde para eu ir embora sozinha e que o marido está arrumando para ir me levar. Digo que não precisa, mas eles não concordam. Nesse dia, percebo que a relação acabou tornando-se também uma relação de amizade (Diário de Campo, Faccionista 2, 30 de outubro de 2003).
B) As entrevistas
Para Ruiz (1996), a entrevista consiste em um diálogo com o objetivo de colher de determinada pessoa ou informante dados relevantes para a pesquisa em andamento. Assim, não só os quesitos da pesquisa devem ser bem elaborados, como também o informante deve ser criteriosamente selecionado.
A entrevista pode ser a principal técnica de coleta de dados ou pode ser parte integrante da observação participante. Nesta pesquisa, foi utilizada como parte integrante da observação participante. As entrevistas qualitativas são pouco estruturadas, sem um fraseamento e uma ordem rigidamente estabelecidos para as perguntas, assemelhando-se muito a uma conversa (ALVES-MAZOTTI eGEWANDSZNAJDER, 1998).
Elaboramos, assim, roteiros de perguntas para realização das entrevistas, seja das costureiras faccionistas, dos empresários e sindicalistas (Ver anexos 2, 3, 4). Procuramos, entretanto, não nos fechar neste roteiro. Ele foi empregado apenas para dar um direcionamento ao pesquisador, à medida que as entrevistas eram realizadas e apareciam novas questões que poderiam contribuir com a realização da pesquisa, essas eram incluídas (Ver anexo 5). Também, nem sempre, a entrevistada seguia a ordem de perguntas da pesquisadora, sendo necessário às vezes avançar no roteiro como também retornar a outras questões. Com os ex-sindicalistas pelas próprias questões que surgiram, não conseguimos acompanhar um roteiro.
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Essa técnica de entrevista é chamada semi-estrutura ou focalizada (ALVES-MAZOTTI e
GEWANDSZNAJDER, 1998). Nela, como é possível perceber, o entrevistador faz perguntas
específicas, mas deixa o entrevistado à vontade para responder com suas próprias palavras. Para a construção do roteiro de perguntas, identificamos que deveríamos propor questões que permitissem ver como dava-se a organização da produção no trabalho a domicílio, quais pessoas estavam mergulhadas nessas relações de trabalho e que permitissem entender como davam-se a mobilização, a aquisição e a produção do conhecimento nesse processo de trabalho.
Uma primeira entrevista foi realizada em julho de 2003, para avaliar se o roteiro estava adequado. Essa entrevista, pelas contribuições que trazia, foi incluída na pesquisa (Faccionista 5). No entanto, não realizamos com a faccionista entrevistada a observação de campo.
No que diz respeito à entrevista com a Faccionista 6, comparecemos na data e horários marcados. A entrevista com a faccionista ocorreu a princípio de forma tensa. Ela apresentou-se muito desconfiada, pareceu não sentir-se à vontade com o gravador, soltava-se muito pouco. Mas, como colocado por Ruiz (1996), o pesquisador deve, além de evitar ser inoportuno, deixar à vontade o entrevistado. Assim, procuramos, mesmo diante de sua tensão, manter a tranqüilidade, e fomos ganhando sua confiança. Com o tempo, ela soltou-se e respondeu a todas as perguntas.
No final, mesmo sem tocarmos no assunto, somos convidadas a conhecer o espaço onde funciona a facção. A faccionista parece orgulhosa com o que já conseguiu até o momento, apesar das dificuldades pelas quais diz ter passado. As características são de uma fábrica, tem pelo menos 10 máquinas e um espaço grande, mas nenhuma peça por fazer como é comum ver nas facções nessa época do ano.
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No que diz respeito à entrevista com os empresários, também marcamos por telefone antecipadamente dia e horário para sua realização. As entrevistas continham questões relacionadas à trajetória do empresário, à fábrica e à contratação de facções.
O mesmo procedimento de marcar antecipadamente foi adotado com o sindicalista. A entrevista contou com questões relacionadas à sua trajetória, sobre as atividades do sindicato e questões relacionadas à representação das costureiras faccionistas.
Os ex-sindicalistas foram contatados via sindicato das costureiras. As questões levantadas estavam relacionadas à sua trajetória, sobre a indústria de confecção em Divinópolis, sobre a formação dos trabalhadores e sobre suas atividades no sindicato.
C) O levantamento e análise bibliográfica e documental
Ao elegermos o trabalho a domicílio como tema de pesquisas, deparamos com a escassez de estudos específicos sobre as atividades domiciliares subordinadas ao capital. Acreditamos que isso deve-se possivelmente às dificuldades com as fontes, uma vez que esses(as) trabalhadores(as) quase não aparecem nas estatísticas oficiais, não constam das fontes sindicais e os empregadores quase sempre mostram-se reticentes em dar informações sobre o assunto, já que se trata de um trabalho informal que hoje aparece associado aos processos formais de trabalho.
Além disso, não raro os (as) trabalhadores(as) a domicílio mostram-se indispostos(as) a discutir suas condições. E, pela invisibilidade desse tipo de atividade, é dificultado o acesso a esses(as) trabalhadores(as).
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Outro ponto, assinalado por Matos (1993) ao analisar o trabalho domiciliar nas indústrias de sacaria para o café na última década de 1800 e nas primeiras décadas de 1900, e que acreditamos que ainda prevalece, é o fato de que as barreiras à compreensão do universo do trabalho a domicílio tornam-se ainda maiores quando lidamos com documentos.
O universo de trabalhadores domiciliares é quase todo composto de mulheres, enquanto os materiais disponíveis, de um modo geral, são produzidos por homens, como por exemplo os discursos do trabalho, da greve ou da resistência apresentam-se no universo masculino, englobando e, simultaneamente, excluindo a presença feminina.
Estudo importante e também importante referência para este trabalho de pesquisa, foi realizado por Alice Paiva Abreu e Bila Sorj no Rio de Janeiro no início da década de 1990, sobre o trabalho a domicílio na indústria de confecção. As duas pesquisadoras procuram compreender como as mudanças no sistema produtivo e na organização do trabalho, fundamentadas essencialmente nos paradigmas da flexibilidade e integração, possibilitaram que empresas adotassem esta forma de ocupação. O trabalho constitui uma importante análise do trabalho feminino dentro da nova organização da produção e da nova divisão sexual do trabalho.
Para as pesquisadoras, tem ocorrido o aumento de pequenas empresas que são subcontratadas e que por sua vez distribuem tarefas a trabalhadoras a domicílio. Como apontam, uma das características mais marcantes do trabalho a domicilio contemporâneo é ser uma atividade essencialmente feminina. As mulheres inseridas nesta ocupação conseguem aliar as tarefas domésticas com o trabalho produtivo que na maioria das vezes é temporário e cujas tarefas não têm qualificação reconhecida.
No caso específico de nosso estudo, a indústria de confecção de Divinópolis, mesmo sendo majoritariamente composta por mulheres, a representação de classe ainda é feita por homens. O sindicato quase sempre teve à sua frente homens – mesmo nas gestões anteriores.
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Tudo isso implica na forma como essas trabalhadoras são vistas e também como o trabalho a domicílio é visto e representado.
Quanto à análise dos dados, foi desenvolvida durante toda a investigação. Como assinalado por Alves-Mazotti e Gewandsznajder (1998), à medida que a pesquisa estiver sendo realizada, o pesquisador pode e deve analisar os dados por meio de teorizações progressivas em um processo interativo com a coleta de dados.
Procuramos anotar sempre em uma agenda à parte as conclusões gerais a que já chegávamos durante a realização da pesquisa. Esse procedimento mostrou-se valioso durante a escrita do trabalho de pesquisa.
As pesquisas qualitativas geram uma enormidade de dados, que precisam ser organizados e compreendidos. Assim, ao término da pesquisa de campo, procuramos organizar todo o material, desde a parte de observação até as fitas transcritas primeiro no computador e posteriormente impressas e organizadas em um único caderno, tudo junto de modo a facilitar o acesso ao material e sua análise.
Para garantirmos a validade dos dados coletados, procuramos permanecer um tempo satisfatório no campo de pesquisa, conversamos com os participantes, mesmo durante a escrita do trabalho, para esclarecer dúvidas que surgiram posteriormente e também para verificar se alguns pontos que havíamos anotado no Diário de Campo estavam de acordo com o que realmente havia acontecido. Procuramos, também, discutir com outros pesquisadores das relações de trabalho as conclusões a que íamos chegando com a pesquisa.