A seção busca detalhar o perfil geral dos alunos que compõe o corpo discente da FGV DIREITO SP, a fim de verificar em que medida suas características podem ser relacionadas com os métodos de ensino adotados.
Um perfil de docente diferenciado exigiu também uma maior cautela na seleção dos discentes. Desde o início os candidatos a uma vaga como alunos na instituição são submetidos a um vestibular específico, dissertativo, com um menor número de conteúdos e uma segunda fase de exames orais em pequenos grupos, com a apresentação de situação problema a ser debatida. Segundo informações extraídas do próprio Projeto Pedagógico do Curso, isso tem o objetivo de selecionar candidatos que possuam certas qualidades prévias sem as quais se torna difícil acompanhar as atividades exigidas pela faculdade (ensino participativo) (FGV DIREITO SP, 2016, p. 81-83).
A FGV DIREITO SP tem realizado processos seletivos que buscam um aluno com certas qualidades prévias. O vestibular segue uma rigorosa seleção baseada na capacidade do candidato de: ler, compreender e produzir textos; observar e interpretar documentos; raciocinar, argumentar e criticar; analisar e sintetizar; diagnosticar situações e propor soluções; dominar diferentes linguagens; usar o conhecimento para compreender a realidade. (FGV DIREITO SP, 2016, p. 81).
Um dos ex-alunos entrevistados citou que o próprio vestibular já seleciona pessoas mais preparadas para lidar com os métodos que a GV pretende utilizar durante a sua
graduação, e, que, desde o começo das aulas há uma explicação sobre os tipos e objetivos dos métodos aplicados, em suas palavras:
A primeira fase do vestibular é escrita, ele tem provas de matemática, português, inglês, geografia, história, ele não tem química, não tem física – acho que até por isso que eu passei. Ele cobra uma lista de referência de artes, músicas, filmes muito interessantes. No meu ano caiu uma música da Amy Winehouse, caiu uma música do Gilberto Gil. É toda dissertativa, não tem teste. Tem uma prova em inglês que é um texto normalmente do The Economist, de 3 a 4 páginas. Você tem que escrever três redações a partir desse texto, duas em inglês e uma em português. Eles já selecionam alunos que sabem falar um inglês melhor, porque tem muito texto em inglês durante a graduação também. Essa prova já seleciona muito, bem puxada, você tem que escrever muito. Por mais que você saiba o que o cara está te perguntando, se você não souber colocar aquilo no papel de uma forma clara, você não vai passar, e é um pouco disso. Na segunda fase é uma fase oral, é uma dinâmica de grupo em que você se apresenta, depois têm algumas frases que você tem que escolher uma para fazer uma pequena dissertação. E, depois, uma dinâmica de grupo sobre um tema, no meu caso era sobre publicidade de produtos alcoólicos, se eu não me engano, foi bem interessante por que foi um debate [...]. Acho que o próprio vestibular já traz esse perfil de aluno mais líder, que vai atrás com mais proatividade e mais senso crítico, você tem que opinar sobre a sua própria prova. (Ex-aluno 5. Entrevista concedida em 4 de dezembro de 2017. Ex-aluno(a) da 9ª turma da DIREITO SP, ingressando em 2013).
É marcante que um ex-aluno, após graduado, consiga dissertar e lembre com tantos detalhes sobre seu processo seletivo, indicando-o como um dos fatores que auxiliam os ingressantes no curso a se preparar para o tipo de ensino que será exigido em sala.
Também foi notório que, ao ser perguntado sobre os tipos de dinâmicas aplicadas em sala, outros ex-alunos conseguissem apontá-las pelos nomes técnicos, sabendo distingui- las muito bem uma das outras. Uma das ex-alunas, que não seguiu carreira docente, mas encontra-se na advocacia, soube citar pelo menos três tipos de métodos diversos, como “role- play”, “método socrático” e “método do caso”, o que parece indicar uma certa preocupação para a explicação das metodologias adotadas durante as aulas pelos docentes aos seus alunos:
E quando você chegou à escola, quais foram as dinâmicas, as atividades que você percebeu que foram aplicadas em sala, de que você se lembra? Eram diferentes, eram as mesmas, como foi esta dinâmica para você?
Eles explicaram bem. E os professores sempre tentam mesclar as dinâmicas. O que eu tive bastante contato durante a faculdade é que teve bastante role-play, que a gente assumia a posição de uma parte e atuava nos casos era como os júris simulados. Então nós já fomos ministro do STF, fomos partes. Além do role-play, também tem o método socrático que tem professores que levam até o extremo assim, que aplicam na forma pura digamos assim, estudos de casos também e muitos casos assim que são reais e a gente, inclusive tem contato no escritório. [...]. (Ex-aluno 6. Entrevista concedida em 11 de dezembro de 2017. Ex-aluno(a) da 9ª turma da DIREITO SP, ingressando em 2013).
Apesar de serem oferecidas bolsas de estudos que buscam oportunizar o acesso ao curso a alunos de baixa renda, o custo da mensalidade bastante elevada34 é um dos fatores que pode dificultar a atração de grande diversidade de perfis de aluno. Também, outro fator é de que o curso exige um regime de dedicação integral pelos três primeiros anos, o que impede que alunos que precisem trabalhar para se sustentar frequentem as atividades. Como resultado, a maioria dos discentes é composta por pessoas bastante jovens, advindas de classes sociais de poder econômico elevado, e aprovadas em um processo seletivo que pré-seleciona discentes mais adaptados às exigências da instituição. Também, a dedicação exclusiva nos anos iniciais foi identificada como importante para que eles conseguissem atender à volumosa carga de leitura exigida na preparação para as aulas participativas, as quais, inclusive, muitas vezes eram demandadas em língua estrangeira. Essas e outras questões serão tratadas com maior detalhamento e referências às entrevistas no momento da descrição das dificuldades dos alunos.
No momento, apenas por ser pertinente para auxiliar no perfil discente, cumpre destacar que um dos ex-alunos elencou como uma de suas maiores dificuldades o domínio da língua inglesa. Relata que, por não ter tido a oportunidade de ter estudado em escolas bilíngues, como muitos de seus colegas de turma, precisou realizar intercâmbio para habilitá- lo para lidar com os textos necessários para as dinâmicas.
A dificuldade que eu tive foi com o Inglês Jurídico, a turma era de um pessoal muito bom em inglês, gente que estudou em escola americana e tudo mais. Eu ficava entre os melhores alunos nas outras matérias, mas, em inglês eu estava entre os 10% piores. E isso envolvia apresentação de seminários, participação em aula com expressão mais verbal de língua em inglês e tudo mais, então foi uma dificuldade forte que eu tive. [...] Sempre, em todas as matérias, muito inglês e espanhol. Eu também tinha dificuldade porque eu tinha o tempo muito puxado e perdia muito tempo para ler, eu acabei indo para os Estados Unidos para tentar resolver isso; melhorou muito, mas ainda foi uma dificuldade ter muita utilização de língua estrangeira. (Ex-aluno 3. Entrevista concedida em 5 de dezembro de 2017. Ex- aluno(a) da 4ª turma da DIREITO SP, ingressando em 2008).
Assim, em linhas gerais, percebe-se que são selecionados alunos de classes sociais de poder econômico elevado com formação educacional prévia de excelência.Ressalta-se que o perfil dos alunos durante o curso, relativos a seu nível de dedicação, por exemplo, será melhor abordado no tópico relativo às contribuições e desafios verificados, uma vez que os relatos obtidos dos ex-alunos sobre o processo de formação quase sempre eram seguidos de uma tomada de posição quanto aos aspectos positivos ou negativos vivenciados.
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O valor corrente dos encargos financeiros da mensalidade do ano de 2018 para ingressantes do 1º semestre é R$ 5.139,89 (FGV DIREITO SP, 2017b).
O perfil do discente que ingressaram na instituição, assim, parece ser bem homogêneo dentro de um certo espectro, que, por sua vez, não é muito grande, já que são selecionados anualmente apenas 80 alunos por ano, que são divididos em duas turmas de 40. Antes da reforma curricular, implantada em 2017, eram apenas 60, por ano. Trata-se, portanto, de uma escola ainda muito pequena, que adotou todas as estratégias possíveis a fim configurar um ambiente capaz de viabilizar seu objetivo e missões institucionais, através de um tipo de aluno que tenha meios para seu engajamento ativo tanto dentro como fora de sala de aula, nos momentos de preparação.
Além de tudo o que já foi explorado, foram verificados ainda outros aspectos da cultura de apoio aos métodos, especialmente relativos ao envolvimento da coordenação, que busca incentivar a experimentação e a inovação.